Publicado 19 de Junho de 2021 - 8h36

Por especial para o Estadão

Por Rodrigo Fonseca

Indicada para o Oscar dos curtas-metragens em 1993 com o desenho Reci, Reci, Reci... e dona de um Urso de Ouro, conquistado na Berlinale de 1995, com Repete, a diretora checa Michaela Pavlátová se entusiasma ao falar sobre o Brasil, onde o festival Anima Mundi - paralisado há dois anos - fez dela uma celebridade.

Na ativa desde 1989, a cineasta de 60 anos dispara como favorita na disputa pelo troféu Cristal de melhor filme no Festival de Annecy, na França, a maior e mais prestigiosa maratona internacional da indústria da animação, cuja atual edição termina neste sábado, 19, com seu filme My Sunny Maad (também chamado Ma Famille Afghane).

É seu primeiro longa-metragem animado. Michaela trabalhou em tramas curtinhas e já passeou pelo formato maior antes, com live-action, dirigindo atores de carne e osso, em Faithless Game, de 2003, e em Night Owls, em 2008. Ambos eram tramas ligadas à resiliência feminina e à aposta das mulheres em desejos que, por vezes, desafiam o tabu do sexismo, como se vê agora na complexidade afetiva de Herra, a protagonista do trabalho mais recente da realizadora. É uma figura que só reforça sua dimensão como um dos ícones das lutas feministas no audiovisual.

"Nunca fiz dessa mirada feminista um norte consciente, mas me incomodava o fato de haver poucas narrativas sobre mulheres capazes de desejar livremente. Reagia a isso com filmes que surpreendessem pela maneira de dar voz ao feminino. E fui bem acolhida. O Brasil sempre me fez sentir uma rainha com a boa acolhida de filmes que fiz praticamente sozinha, por ser uma artista muito controladora do meu processo", diz Michaela ao Estadão, via Zoom.

"Mas, em tudo o que rodei com atrizes e atores fora da área de animação, aprendi a importância de saber trabalhar bem em equipe para se levantar um longa. Na produção de My Sunny Maad, por exemplo, usei estudantes recém-graduados para me ajudar a contar uma história sobre choque de culturas."

Baseado em Freshta, romance da jornalista Petra Procházková, que se baseou em sua própria vivência, My Sunny Maad acompanha a imersão de Herra, jovem checa que vive no Afeganistão após seu casamento com Nazir, um sujeito apaixonado por ela, mas devoto às tradições de seu país. Após o casamento, Herra vai morar com a família dele, assumindo a burca sobre suas madeixas louras, submetendo-se às regras que, pouco a pouco, vão minando sua felicidade e sua aposta na harmonia da vida a dois.

As tentativas frustradas de Herra em engravidar dão ainda mais peso naquele relacionamento, pautado por códigos sexistas de opressão.

"Tolerância é o assunto que me interessa aqui. Não vejo essa história com um simbolismo político, embora seja impossível não abordar o tema da política quando nos embrenhamos sobre aquelas tradições culturais. Minha ideia foi retratar o dia a dia de um casamento, da forma mais universal possível, sob a perspectiva do querer, da esperança, mas também de uma série de imposições da cultura", diz Michaela, que começou a desenvolver o projeto em 2015. "A ideia de liberdade era um ponto que me interessava, sobretudo em um momento em que vemos as mulheres na liderança de várias instituições, sobretudo chefiando famílias."

Annecy vem se rendendo à força dos diálogos escritos por Ivan Arsenjev e Yaël Giovanna Lévy e filmados por Michaela à luz da prosa de Petra. A requintada direção de arte vem garantindo críticas positivas ao longa, que ganha uma dimensão de melodrama quando Herra passa a cuidar de uma criança cujo crânio tem uma estrutura óssea mais alargada que a média da cabeça das crianças.

"Não é um filme com muito movimento, embora tenha cenas de trânsito e sequências de tensão na base americana onde Herra consegue um trabalho. No geral, vemos pessoas sentadas, falando. É conversa de casal", explica a diretora. "Não é um filme de excesso gráfico, que se pareceria com um cartum. É uma conversação. É a vida. É um mundo hostil."

O principal rival de Michaela na briga por prêmios também aborda a vivência no Afeganistão aos olhos europeus: o dinamarquês Fuga (Flee), de Jonas Poher Rasmussen, que abriu o É Tudo Verdade, em abril. É um documentário animado sobre a diáspora de um homossexual afegão, fã de Van Damme, da Rússia à Escandinávia, tendo a homofobia como um inimigo sempre à espreita.

"Meu protagonista e eu vivemos certas experiências culturais dos anos 1990 ao mesmo tempo, mas em lugares diferentes, sob prismas afetivos distintos", disse Rasmussen ao Estadão. "Levei uma vida numa cidadezinha escandinava pacata e ele passou a adolescência a migrar para escapar da violência, fazendo do silêncio um aliado, mas também um claustro para suas vivências."

Um outro filme checo, mas de abordagem infantojuvenil, também conquistou os holofotes da maratona animada francesa: Even Mice Belong in Heaven, da dupla Denisa Grimmová e Jan Bubenícek. É uma aventura metafísica sobre a improvável amizade entre uma ratinha e uma raposa em uma espécie de céu dos animais, num estudo sobre tolerância.

Críticas elogiosas têm ajudado a trajetória do Brasil em Annecy, representado por um par de longas muito diferentes. Do terreno do stop motion vem Bob Cuspe: Nós Não Gostamos de Gente, de Cesar Cabral, baseado nas HQs de Angeli; e, no campo da animação 2D, entra o baiano Meu Tio José, de Ducca Rios, com Wagner Moura dublando uma vítima da ditadura militar. Ambos estão em concurso na seção Contrechamp. Os premiados serão conhecidos neste sábado, 19.

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

Escrito por:

especial para o Estadão Rodrigo Fonseca