Publicado 12 de Junho de 2021 - 20h35

Por Fernanda Simas

O Brasil foi eleito nesta sexta-feira, 11, para uma das vagas rotativas do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU). É a primeira vez que o País ocupa o cargo nos últimos dez anos, e a primeira sob o governo do presidente Jair Bolsonaro.

Para o professor de relações internacionais da Faculdade Getúlio Vargas (FGV) Oliver Stuenkel, a participação no órgão da ONU é crucial para a diplomacia brasileira, mas pode não ter muito impacto sobre a imagem do País no exterior. Confira a entrevista:

Qual a importância de o Brasil ocupar esse assento atualmente?

O Conselho de Segurança é o órgão multilateral mais importante do mundo, o único que consegue decidir questões de guerra e paz. A participação brasileira é, e sempre foi, uma faceta crucial da diplomacia brasileira. Mesmo membros não permanentes conseguem se engajar em questões de Segurança, que são o coração da política internacional de uma maneira direta e isso inevitavelmente faz com que outros atores que não estão representados acabem buscando aqueles que têm voz no CS. Mesmo os membros não permanentes conseguem ter mais influência no sistema multilateral.

O que muda para o Brasil ter um assento no CS?

A votação não foi surpreendente também porque não havia outro país candidato, então não se pode dizer que é uma vitória diplomática, mas mesmo assim dará mais voz ao país num momento em que as tensões crescentes entre a China e os EUA produzem obstáculos imensos ao sistema internacional e às regras e normas que, num caso ideal, valem para todos. Interesses geopolíticos, tensões, etc, sempre fizeram parte do multilateralismo, mas agora não seria um exagero afirmar que instituições como a ONU e o multilateralismo como um todo enfrentam seu maior desafio em 30 anos.

Qual é o impacto na imagem que o País tem nas relações internacionais?

Eu não sei se tem um impacto muito grande na imagem do País porque o que de fato define a reputação de um país no exterior muitas vezes são detalhes da relação bilateral. Então, o Brasil pode ter um desgaste na sua imagem depois de um bate boca entre Bolsonaro e Macron, mas isso não afeta a reputação do Brasil em outro país. Não acho que terá um impacto decisivo, a não ser que lá na frente ocorra alguma votação controversa, etc., mas por enquanto, não podemos afirmar que isso vai acontecer. Por exemplo, uma situação como em 2011, quando o Brasil teve uma atuação muito importante no debate sobre uma intervenção na Líbia, na resolução 1973, e aí a abstenção brasileira foi muito importante. O que na ONU dá visibilidade ao país é mais o discurso anual do representante do país na Assembleia-Geral.

O que teve de diferente nessa votação para o Brasil em relação às outras 11 vezes em que o Brasil ocupou esse assento?

É um pouco irônico de certa maneira que o Brasil ocupe esse assento sendo um país atualmente muito cético em relação ao multilateralismo. O Brasil tem uma relação bem mais tensa, bem mais ambígua com as próprias Nações Unidas do que antes. Isso porque o grande consenso que vigorou durante o último século, de que o maior engajamento no sistema multilateral seria benéfico aos interesses brasileiros, não existe mais. O governo brasileiro atual tem uma postura anti-multilateral. Essa é a grande diferença. Vai ser interessante ver qual papel o Brasil terá. Em muitas questões, o CS vota de forma unânime, mas mesmo assim, o papel do Brasil hoje na ONU é muito distante do que foi.

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Fernanda Simas