Publicado 09 de Junho de 2021 - 18h47

Por Daniela Amorim/Agência Estado

A inflação medida pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) fechou maio com alta de 0,83%, ante um avanço de 0,31% em abril, informou nesta quarta-feira, 9, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O resultado ficou acima do intervalo das estimativas dos analistas ouvidos pelo Estadão/Broadcast, que previam uma alta entre 0,65% e 0,76%, com mediana positiva de 0,71%. A taxa acumulada pela inflação no ano ficou em 3,22%, segundo o IBGE. Em 12 meses, o resultado foi de 8,06%, também acima das projeções dos analistas, que iam de 7,85% a 7,98%, com mediana de 7,92%.

Juros sobem com IPCA acima das expectativas e piora do câmbio

Por Denise Abarca, Altamiro Silva Junior e Luís Eduardo Leal/Agência Estado

São Paulo, 09 (AE) - Os juros futuros fecharam a sessão em alta, pressionado pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de maio acima do esperado e, na segunda parte do dia, pesaram ainda a piora do câmbio e a cautela com o índice de inflação ao consumidor (CPI, em inglês) nos Estados Unidos na quinta-feira. O IPCA não chegou a mexer com a precificação de Selic para o Comitê de Política Monetária (Copom) da próxima quarta-feira na curva, que aponta aumento de 0,75 ponto porcentual. Mas elevou o conservadorismo nas apostas para as reuniões seguintes, assim como colocou em xeque a manutenção do termo "parcial" no comunicado na referência ao processo de normalização da taxa básica.

A taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2022 fechou a sessão regular em 5,22%, de 5,137% no ajuste anterior, e a do DI para janeiro de 2023 avançou de 6,729% para 6,815%. O DI para janeiro de 2025 terminou com taxa de 7,84% (7,765% na terça) e a do DI para janeiro de 2027, em 8,33% (8,304% na terça).

O IPCA subiu 0,83% em maio, de 0,31% em abril, acima do teto das estimativas do mercado (0,76%) e o mais elevado para o mês desde 1996 (1,22%). Em 12 meses, a taxa acumulada saltou a 8,06%, quase 3 pontos porcentuais acima do teto da meta de inflação para este ano (5,25%).

"Não somente headline surpreendeu como os núcleos também vieram muito elevados", disse o gestor de renda fixa da Sicredi Asset, Cassio Andrade Xavier.

Um dos destaques foi o salto dos serviços subjacentes, variável muito cara ao Banco Central, de 0,08% em abril para 0,32% em maio, segundo a Guide Investimentos.

De acordo com Xavier, para piorar, à tarde o dólar se fortaleceu em termos globais, o que ajudou a pressionar mais a curva, mesmo com o recuo no rendimento dos títulos do Tesouro americano. "Não fossem os Treasuries, o cenário para o DI estaria ainda pior." A taxa da T-Note de dez anos bateu nesta quarta a mínima dos últimos três meses, refletindo demanda acima da média no leilão realizado pelo Tesouro nesta quarta-feira e o compasso de espera pelo CPI na quinta.

A uma semana do Copom, a leitura do IPCA induziu a percepção de que os diretores devem ajustar sua comunicação na quarta-feira numa tentativa de quebrar a dinâmica da deterioração das previsões de inflação, que aos poucos vai contaminando também 2022.

Para o economista João Leal, da Rio Bravo Investimentos, o IPCA foi a deixa perfeita para retirar a sinalização de ajuste parcial. "Não tem mais espaço para deixar a normalização parcial na ata. Está se tornando bastante contraproducente, e é um dos fatores que está aumentando as expectativas para 2022. Se mantiver, o risco é grande de precisar levar a Selic para acima dos 6,50% no ano que vem", disse.

Câmbio

Um dia antes da divulgação da inflação ao consumidor nos Estados Unidos, que deve ajudar a balizar as expectativas para os próximos passos da política monetária do Federal Reserve, o dólar ganhou força no mercado internacional e o mesmo se repetiu ante o real. Na máxima do dia, a moeda norte-americana superou os R$ 5,08 no período da tarde. Profissionais das mesas de câmbio comentam que a alta só não foi maior por conta da surpresa com o IPCA de maio, mostrando a maior taxa para o mês dos últimos 25 anos. Ao sinalizar que o Banco Central vai seguir elevando a taxa básica de juros em ritmo mais forte, o indicador ajudou a retirar pressão para alta do dólar.

Após cair na mínima do dia a R$ 5,02, região de resistência da moeda nos últimos dias, que tem atraído compradores, o dólar fechou a quarta-feira em alta de 0,69%, cotado em R$ 5,0692. No mercado futuro, o dólar para julho subia 0,54%, a R$ 5,0760 às 17h35.

O IPCA reforça que não só o Banco Central deve elevar os juros em 0,75 ponto porcentual na reunião da semana que vem como sinalizar alta da mesma magnitude no encontro seguinte, em agosto, avalia o economista-chefe para mercados emergentes da consultoria Capital Economics, William Jackson, destacando que os números desta quarta superaram as previsões da casa e do mercado.

A economista-chefe do Banco Inter, Rafaela Vitória, destaca que a inflação se transformou em fenômeno mundial, em meio à retomada da atividade, como mostraram até dados da China, com a inflação ao produtor (PPI, na sigla em inglês) mostrando um salto anual de 9% em maio, a maior dos últimos doze anos, gerando cautela nos mercados. Nos Estados Unidos, o Federal Reserve tem conseguido convencer os investidores do caráter transitório da inflação. No período da tarde, o juro da T-note de 10 anos atingiu o menor nível diário desde 3 de março.

Após a surpresa com o CPI de abril bem acima do previsto, o economista-chefe para os EUA do Deutsche Bank, Brett Ryan, destaca em relatório que o número será monitorado de perto por participantes do mercado e dirigentes do Fed, que entraram esta semana em período de silêncio por conta da reunião de política monetária da semana que vem. Nova surpresa com o indicador pode fortalecer adicionalmente o dólar e penalizar moedas de emergentes.

Sobre o câmbio brasileiro, a economista do Banco Inter observa que a visão mais otimista com a atividade econômica e o consequente alívio fiscal têm ajudado o real a ganhar força. Um dos indicadores de destaque é a balança comercial, que tem mostrado forte superávit, que deve ficar em US$ 80 bilhões este ano, nível recorde. Ela prevê dólar em R$ 5,20 ao final do ano, com a moeda americana tendendo a ganhar força mais para o final do ano, por conta do início das conversas para as eleições e do orçamento de 2022, que pode ter pressão para mais gastos por conta do ano eleitoral.

Bolsa

Após ter interrompido na terça-feira sua mais longa sequência de ganhos desde fevereiro de 2018, o Ibovespa retornou a terreno positivo nesta quarta-feira em que o principal dado do dia - o IPCA - contribuiu para reforçar a percepção de que a retomada da atividade segue em curso, o que pode ter reflexo, também, no ajuste da política monetária do Copom, que volta a deliberar sobre os juros daqui a uma semana.

Nesta quarta, mesmo com sessão ao final negativa em Nova York, o índice da B3 chegou a mostrar fôlego para defender o nível de 130 mil pontos, mas perdeu força no fechamento, em discreta alta de 0,09%, aos 129.906,80 pontos, entre mínima de 129.281,45 e máxima de 130.882,46 pontos, com giro financeiro a R$ 39,1 bilhões. Na semana, o Ibovespa ainda cede 0,17%, colocando os ganhos do mês a 2,92% e os do ano a 9,15%.

Depois do IPCA, a atenção se volta para o CPI de maio nos Estados Unidos. Na divulgação anterior, houve estresse no mercado, com a leitura muito acima do esperado para abril resultando em temor sobre ajuste precoce no programa de estímulos monetários nos EUA, observa Lucas Carvalho, analista da Toro Investimentos. "Amanhã promete ser um dia importante, com um indicador muito relevante", diz o analista, chamando atenção para a divulgação, hoje, da inflação ao produtor na China a 9% ao ano, acima do consenso, o que resultou em algum ruído nos principais mercados asiáticos.

Apesar de certo grau de incerteza externa, e também doméstica, o dólar bem mais comportado, tendendo a testar o limiar mais baixo dos R$ 5, e a recuperação estendida na virada de maio para junho na Bolsa, em direção a novas máximas históricas, refletem recuperação de fluxo externo, que tem beneficiado os mercados emergentes. Neste começo de mês, os estrangeiros ingressaram em termos líquidos com R$ 7,935 bilhões na B3 até o dia 9, elevando o fluxo acumulado no ano a R$ 39,316 bilhões.

Ainda que a leitura sobre a inflação não produza sinal único, o ajuste negativo observado nesta quarta em setores com exposição à economia doméstica, como bancos (BB ON -1,93%) e construtoras (Cyrela -2,33%) - estas diretamente afetadas pelo aumento de custos no setor -, foi contrabalançado pela boa recuperação em mineração (Vale ON +2,07%) e siderurgia (Usiminas +2,56%, CSN +2,24%), com alta do minério de ferro, "após os estoques da commodity nos portos chineses recuarem para o menor nível desde 5 de fevereiro, o que eleva a expectativa por uma reposição ao longo do mês e, com isso, maior demanda", observa Rafael Ribeiro, analista da Clear Corretora.

Na ponta negativa do Ibovespa, destaque nesta quarta-feira para ações com exposição à demanda interna, como Magazine Luiza (-3,71%), ao lado das administradoras de shoppings Iguatemi (-3,78%) e Multiplan (-2,80%). No lado contrário, Locaweb avançou 2,92%, Hering, 2,87%, e Suzano, 2,79%. O fechamento veio de sinal misto para Petrobras (PN sem variação, ON +0,34%), com o Brent negociado em torno de US$ 72 por barril apesar do viés negativo na sessão.

 

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Daniela Amorim/Agência Estado