Economia

Ibovespa fecha em queda de quase 3% e retorna aos 127 mil pontos, com incerteza global

Estadão Conteúdo
04/04/2025 às 17:53.
Atualizado em 04/04/2025 às 17:58

A retaliação da China aos Estados Unidos - de idênticos 34% na tarifação das importações - reforçou a percepção de que uma estagnação econômica global esteja a caminho em meio à maré protecionista deflagrada pelo governo Trump. Assim, o petróleo despencou pelo segundo dia, o dólar subiu 3,68%, a R$ 5,83, e o Ibovespa teve sua maior queda desde 18 de dezembro, em baixa nesta sexta-feira, 4, de 2,96%, aos 127.256,00 pontos, retrocedendo a nível de meados de março, com giro muito reforçado, a R$ 31,8 bilhões, nesta sexta-feira.

Na semana, a perda de 3,52% foi a maior para o índice da B3 desde a semana de 12 a 16 de dezembro de 2022. No agregado das quatro primeiras sessões de abril, cai 2,31% - no ano, sobe 5,80%.

Se, na quinta-feira, o desempenho de bancos e de ações associadas ao ciclo doméstico foi o suficiente para manter o Ibovespa perto do zero a zero - em dia que já havia sido de correção global -, nesta sexta, a disseminação de perdas foi inevitável.

Como na quinta, destaque no campo negativo para Vale (ON -3,99%) e Petrobras (ON -4,19%, PN -4,03%), com o prosseguimento da correção no petróleo. Os barris do Brent e do WTI, que na quinta haviam cedido mais de 6%, fecharam nesta sexta em baixa de 6,50% (Brent) e de 7,41% (WTI), em Londres e Nova York, nos níveis mais baixos desde 2021.

Na Ásia, o minério, na quinta em perda discreta, nesta sexta cedeu 2,35% em Cingapura, abaixo de US$ 100 por tonelada - em Dalian, não houve negócios por conta de feriado e, em Qingdao, a queda foi de 1,1%.

Durante a sessão em Londres, o petróleo tipo Brent, referência global, rompeu o suporte de US$ 65, aponta Ian Toro, especialista de renda variável da Melver. Pela manhã, a divulgação do payroll, o relatório oficial sobre a geração de vagas de trabalho nos EUA em março, contribuiu para acentuar a tensão do dia, destaca também o analista.

"Esperava-se 140 mil novas vagas, mas vieram 228 mil. Embora sinalize força do mercado de trabalho americano, a leitura de março reacende o debate sobre a calibragem da política monetária nos Estados Unidos", acrescenta. O câmbio também reagiu, em sentido contrário ao do Ibovespa, com o dólar à vista muito pressionado desde cedo na sessão, em alta de 3,68%, a R$ 5,8350 no fechamento. Em Nova York, os principais índices acionários estenderam as perdas do dia anterior, em queda nesta sexta-feira na casa de 5%, e de quase 6% para o S&P 500 - na semana, destaque para o Nasdaq, em baixa de 10% no intervalo.

No Brasil, o mercado, que já havia chegado a projetar Selic terminal abaixo de 15% ao ano, volta a trabalhar com a taxa de juros em torno deste nível, com chances majoritárias de uma nova alta de 0,50 ponto porcentual, aponta Christian Iarussi, sócio da The Hill Capital. "Foi mais um dia de grande incerteza, em que fatores externos falaram mais alto e deixaram o mercado dividido entre o risco inflacionário e o medo de uma freada brusca na economia global", acrescenta.

No payroll desta sexta-feira, "a criação de mais vagas do que o esperado foi um tanto quanto ofuscada pelas revisões e pelo aumento da taxa de desemprego", diz Lucas Serra, analista da Toro Investimentos. "O avanço no ganho médio por hora trabalhada não surpreendeu, não devendo representar maiores impactos inflacionários no curto prazo. É possível dizer que o mercado de trabalho permanece forte nos EUA, apesar da deterioração marginal de alguns indicadores."

Apesar da atenção que o mercado costuma conferir às leituras oficiais sobre o mercado de trabalho dos Estados Unidos, o assunto do dia foi mesmo a retaliação da China - no olho por olho, dente por dente.

"O dólar devolveu todo o movimento de ontem frente ao real. A grande questão, hoje, passa a ser China e a retaliação anunciada aos Estados Unidos. Ontem, o dia tinha sido favorável às moedas de emergentes, em movimento também em parte especulativo. O cenário era de preocupação com recessão nos Estados Unidos, o que havia tirado força do dólar naquela sessão. Aqui há também outras questões específicas, domésticas, como a situação fiscal. É preciso esperar para ver como ficará a relação Estados Unidos-China daqui para frente", diz Cristiane Quartaroli, economista-chefe do Ouribank.

Na B3, entre os grandes bancos, as perdas chegaram a 3,31% (Santander Unit) no encerramento. Na ponta ganhadora do Ibovespa, apenas Carrefour Brasil (+10,77%), Minerva (+0,15%) e Klabin (+0,05%) - as três únicas das 87 ações da carteira teórica a avançar na sessão. No lado oposto, Brava (-12,92%), Vamos (-9,92%) e PetroReconcavo (-8,60%). Da mínima à máxima do dia, o Ibovespa oscilou de máxima na abertura a 131.139,05 pontos à mínima de 126.465,55, menor nível intradia desde 14 de março. O patamar de fechamento foi o menor desde o último dia 13.

Ao fim desta semana marcada pelo anúncio do tarifaço dos EUA, o mercado financeiro se mostra bastante pessimista sobre o desempenho das ações no curtíssimo prazo, no Termômetro Broadcast Bolsa desta sexta-feira. Entre participantes, 50% acreditam que o Ibovespa terá perdas na próxima semana, enquanto 33,33% preveem avanço e 16,67%, estabilidade. Na edição anterior, 37,50% esperavam queda e outros 37,50%, alta, com 25% estimando variação neutra.

"O Ibovespa perdeu a região dos 130 mil pontos, com pressão tanto na Bolsa como no câmbio. Tarifa da China passa a valer em 10 de abril, e Trump já reagiu, dizendo que o país asiático jogou errado ao retaliar. Incerteza bate na expectativa para Bolsa e câmbio. Inflação nos Estados Unidos continua acima da meta de 2% ao ano perseguida pelo Federal Reserve. Ponta de juros deve seguir pressionada por algum tempo, com um ambiente mais difícil, também, para a geração de caixa das empresas", diz Bruna Centeno, economista, sócia e advisor na Blue3 Investimentos.

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