Os mosquitos Aedes aegypti, transmissores da dengue, modificados geneticamente, serão soltos no Cecap, no próximo dia 30, às 11h

Pedro Mello, Claudio Fernandes, Maria Christina de Freitas e Gabriel Ferrato durante assinatura do TAC (Cristiano Diehi Neto/ Gazeta de Piracicaba)
Os mosquitos Aedes aegypti modificados geneticamente serão soltos no bairro Cecap, em Piracicaba, no próximo dia 30, a partir das 11h. No local, onde o índice de ocorrências da dengue é alto, vivem mais de cinco mil moradores. A iniciativa faz parte de um projeto piloto que envolve parceria entre a administração municipal e a filial no Brasil do empreendimento britânica Oxitec. O uso do Aedes do bem, como ficou conhecido na cidade, foi possível após assinatura, na manhã desta quarta-feira (15), de um Termo de Ajuste de Conduta (TAC) entre a prefeitura, empresa e o Ministério Público (MP). O investimento do município na ação é de R$ 150 mil, valor aquém do que é investido no combate à doença, de R$ 7 milhões, destinados à compra de 20 toneladas de inseticidas por ano. O acordo foi necessário porque, em março, o Ministério Público Estadual (MPE) suspendeu o projeto que seria aplicado na cidade e abriu inquérito civil público para apurar as condições do contrato. "Me informei e li todos os documentos enviados sobre a nova tecnologia que não oferece a redução da doença, mas sim a diminuição do índice dos mosquitos transmissores da doença em circulação. O projeto está dentro do princípio de outras ações de controle do mosquito, que é o vetor da dengue. A preocupação do MP foi cercar o processo de todos os monitoramentos e acompanhamentos necessários. Durante a ação, não foi constatado risco para o meio ambiente e nem para a saúde da população", afirma a promotora de justiça dos Direitos Humanos - Saúde Pública, Maria Christina Marton Corrêa Seifarth de Freitas. "Como a tecnologia ainda não foi aprovada pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), ela foi contratada pela prefeitura em caráter experimental", acrescenta.Ainda segundo a promotora, dentro do TAC, ela reforçou ações que já existiam no contrato e inseriu uma única sugestão que foi acatada pela empresa. "Uma das hipóteses apresentadas é que a população deixaria de fazer a prevenção dentro de seus imóveis e a prefeitura abandonaria ações como as de nebulização e campanhas informativas. No TAC está definido que o uso dos mosquitos transgênicos é uma ferramenta auxiliar a todas as atividades já realizadas na cidade. Ela colabora no combate ao mosquito transmissor da doença. Não diminui a incidência da doença e nem substitui ações já existentes".Além disso, também há uma cláusula que permite às pessoas fazerem uso de repelentes e outros preventivos em suas residências - fato que era questionado pela população. Outro ponto ressaltado por Maria Christina é o monitoramento após o fim do contrato. "Por dois anos depois do término do contrato, a empresa fará monitoramento em Piracicaba para ter a certeza de que não ficou no ambiente nenhum mosquito transgênico. O TAC prevê que sejam enviados relatórios quinzenais para a Secretaria Municipal de Saúde. Já a pasta deve disponibilizar em seu site as informações. É importante a transparência com a população", revela.De acordo com a promotora, a única novidade dentro do TAC é a possibilidade de cientistas da área poderem acompanhar o trabalho de campo de soltura dos Aedes do bem. "Tudo o que está ao alcance do Ministério Público, que tem como missão garantir efetivamente a segurança da população e do meio ambiente, foi feito. Diante ao momento de epidemia da doença que ronda o Estado de São Paulo, são necessários aprimoramentos no combate. A expectativa é que Piracicaba possa servir de exemplo para outras cidades".O prefeito Gabriel Ferrato (PSDB) conta que inserir a tecnologia no município é assunto debatido há um ano. "Acredito nas coisas que faço. O assunto movimentou a sociedade que pressionou, mas sempre fomos altamente transparentes. A iniciativa é uma tentativa de controlar a doença, mas sem deixar de lado o apoio que tem sido dado pela comunidade em todas as ações. Ele é fundamental", afirma.Para o secretário municipal de Saúde, Pedro Mello, Piracicaba vai servir de vanguarda para outras cidades. "Não poupamos esforços no combate a dengue", assegura.ProjetoOs insetos modificados, machos e que não picam as pessoas, agem sobre a prole das fêmeas de Aedes, impedindo que transmitam a doença. Eles atraem as fêmeas e iniciam um ciclo de reprodução que não se completa: os filhotes nascem programados para morrer antes de atingir a idade reprodutiva. O que se espera é que, num período de quatro a seis meses, a população do mosquito transmissor da dengue e da chikungunya seja drasticamente reduzida. A empresa Oxitec obteve da Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio) autorização para soltar os mosquitos. De acordo com o gerente de negócios da empresa, a tecnologia funciona onde há concentração do mosquito, assim pode ser empregado em grandes cidades, como a capital. "O mosquito se desloca num raio de 50 metros, por isso escolhemos bairros com infestação ou áreas de risco que podem ser numa cidade pequena ou num grande centro. Conforme a população aumentamos a escala do projeto", explica o gerente de negócios da empresa, Claudio Fernandes.