HENRIQUE NUNES

A greve dos boleiros também é nossa

Henrique Nunes
06/02/2014 às 01:09.
Atualizado em 26/04/2022 às 22:07

Nem tudo na vida tem um preço, amigo boleiro. E custo a pagar para ver a bola rolar no campo livre como os quero-queros que se apropriam do gramado com a licença dos homens e suas manias burocráticas. Quero ver, aliás, os boleiros cruzarem os braços sem bandeiras — muito menos a bandeirinha branca que a Federação Paulista de Futebol lançou como se fosse um tratado pacifista entre Israel e o povo palestino. A FPF deu bandeira e agora foge do debate com a mesma covardia dos bandidos que engravataram Guerrero em plena jornada de trabalho.O problema não é apenas do peruano, ou do Corinthians, tampouco do Campeonato Paulista. O problema, no fundo, também é nosso, que soltamos cheques sem fundo para ter à disposição toda e qualquer peleja televisionada. A greve dos jogadores, capitaneados pelos ideais (ainda um tanto obscuros) do Bom Senso FC, não seria inofensiva. Daria aos brasileiros em geral a impressão de que, à revelia das rivalidades, há uma categoria a ser defendida. Pouco importa quanto ganham os jogadores ou o que andam fazendo para justificar salários estratosféricos e benesses em excesso. Quem deve atribuir valor a seus funcionários são as empresas (os clubes) que acatam os desejos de seus astros-boleiros. O nosso problema, enquanto consumidor, é saber se vale a pena continuar usando e pagando caro para ter um produto (a partida de futebol) com defeito de fabricação, com infinitas contra-indicações e que a cada ano parece servir apenas a uma classe pequena de interessados — as novas arenas aumentaram a média de público do Brasileirão 2013, mas ainda não apagaram a desconfiança do torcedor.Se Paulo André (que não joga mais bola faz tempo) e seus correligionários estão mesmo interessados em mudar alguma coisa, que façam a greve. Mostrem que nenhum interesse poderá estar acima da integridade dos atletas. Discursem, contestem, briguem, deem nome aos bois e toquem e voltem a trabalhar com dedicação para evitar novas barbaridades como a invasão ao CT.Ainda não há prognóstico favorável, com ou sem a greve que se anuncia. De certo mesmo, apenas que a luta que tentam travar fora de campo também é nossa. E, na dúvida do que fazer para colaborar com a possível revolução, podemos começar simplesmente desligando a tevê, fugindo dos estádios e torcer apenas para que a chuva volte a aparecer que este calor danado tem me deixado em greve de coisas muito mais valiosas da vida.

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