TADEU FERNANDES

À espera de um milagre

Tadeu Fernandes
igpaulista@rac.com.br
08/07/2013 às 05:00.
Atualizado em 25/04/2022 às 09:34

Semana passada estive no Rio de Janeiro dando um curso para pediatras e no final da aula uma colega me entregou a copia de uma carta que estava enviando a presidente da República. Fiquei sensibilizado e com permissão da colega divulgo a vocês:“Dilma deixa eu te falar uma coisa! Este ano completo 7 anos de formada pela Universidade Federal Fluminense e desde então, por opção de vida, trabalho no interior do Rio de Janeiro, numa cidade pequena, distante e sem recursos. Inclusive hoje, não moro mais num grande centro. Você não sabe o que eu já vi e vivi, não só como médica, mas como cidadã brasileira.Já tive que comprar remédio com meu dinheiro, porque a mãe da criança só tinha R$ 2,00 para comprar o pão. Por que comprei? Porque não tinha vaga no hospital para internar e eu já tinha usado todos os espaços possíveis (inclusive do corredor) para internar os mais graves. Você sabe o que é puxadinho? Agora, já viu dentro de enfermaria? Pois é, eu já vi. E muitos!Sabe o que é mãe e filho dormirem na mesma maca porque simplesmente não havia espaço para sequer uma cadeira? Já viu macas tão grudadas, mas tão grudadas, que na hora da visita médica era necessário chamar um por um para o consultório porque era impossível transitar na enfermaria?Outro dia tive que autorizar o familiar a trazer comida (não tinha no hospital!) e noutro dia vi a recepção lotada, sabe por quê? Era hora do lanche (diga-se refresco ralo com biscoito de péssima qualidade) que era distribuído aos que aguardavam na recepção. Já esperei 12 horas por um simples hemograma. Já perdi o paciente antes de conseguir uma mera ultra-sonografia. Já vi luva descartável ser reciclada. Já deixei de conseguir vaga em UTI pra doente grave porque eu não tinha um exame complementar que justificasse o pedido.Já fui ventilando um prematuro de 1Kg com um arcaico aparelho de ambu por 40 km para vê-lo morrer na porta do hospital sem poder fazer nada. A ambulância não tinha nada... Tem mais, calma! Já tive que escolher direta ou indiretamente quem deveria viver. E morrer... Já ouvi muito desaforo de paciente, revoltando com tanto descaso e que na hora da raiva, desconta no médico, como eu, como meus colegas, na enfermeira, na recepcionista, no segurança, mas nunca em você.Já ouviu alguém dizer na tua cara: meu filho vai morrer e a culpa é tua? Não, né? E a culpa nem era minha, mas era tua, talvez. Ou do teu antecessor. Óbvio, médico sempre vê gente morrendo, mas de apendicite, porque não tinha centro cirúrgico no lugar, nem ambulância pra transferir, nem vaga em hospital?Ah Dilma, deixa eu te falar uma coisa: trazer médico de Cuba, de Marte ou de qualquer outro lugar, não vai resolver nada! E você sabe bem disso. As pessoas adoecem pela fome, pela sede, pela falta de saneamento e educação e quando procuram os hospitais, despejam em nós todas as suas frustrações, medos, incertezas... O problema do interior não é falta de médico. É falta de estrutura, de interesse, de vergonha na cara.Quer um conselho? Pare de falar demagogia em rede nacional! Não sei se isso vai chegar até você, mas já valeu pelo desabafo!Faço dessa colega, minhas palavras!

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