Publicado 07 de Maio de 2021 - 17h42

Por Kátia Fonseca/ Correio Popular

Cena da montagem de Sizwe Bansi está morto, do sul-africano Athol Fugard, interpretada no Syracuse Stage em 2015

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Cena da montagem de Sizwe Bansi está morto, do sul-africano Athol Fugard, interpretada no Syracuse Stage em 2015

A partir do próximo ano, o ensino das artes negras passa a ser obrigatório no Curso de Artes Cênicas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Tudo começou apenas como uma sugestão, mas foi, não só aceita de imediato, como colocada em prática rapidamente. Ponto para o estudante Vitor Timotio de Lima, que está no 3º ano deste curso. Em dezembro passado, ele enviou uma carta à Comissão de Graduação, solicitando o ingresso da disciplina, assim como a revisão bibliográfica do curso que conta com autores de "uma gritante maioria branca, masculina e cisnormativa", diz a carta.

"O ensino sobre os conhecimentos e artes produzidas por pessoas negras não é somente uma questão de 'gosto', mas se faz urgente para o enfrentamento de um massacre e epistemicídio que dura séculos", escreveu Vitor, estudante preto que, por 19 anos, foi submerso em um ensino branco e eurocêntrico. Foi a partir de sua pesquisa de iniciação científica, que está em andamento - “A Trans-Criação de Sizwe Bansi Está Morto, de Athol Fugard: Dança Contemporânea e Dramaturgias do Movimento na Perspectiva do Encenador" - que o jovem começou a prestar atenção na carência de autores negros dentro da Universidade. "Eu me vi, ao mesmo tempo entusiasmado em me debruçar nos estudos das artes negras e indignado ao perceber novamente a marginalização que esses conhecimentos têm na academia", conta.

"Enxergo essa pesquisa de iniciação científica como um divisor de águas na minha vida", diz Vitor e explica que "Sizwe Bansi Está Morto" é um texto teatral de Athol Fugard, diretor, romancista e dramaturgo sul-africano. A peça foi escrita na época do apartheid da África do Sul e fala sobre questões relacionadas a racismo, negritude e ao apartheid da época

A maior inclusão de temas relacionados à arte negra já está rendendo frutos. No início deste ano, a Unicamp promoveu uma mesa redonda sobre teatro negro na universidade. Neste primeiro semestre do ano, foi aberta uma disciplina eletiva sobre arte negra e indígena contemporânea; e, em setembro próximo, terá o fórum Améfrica Ladina: Diálogos entre Artes, Política, Saúde e Educação, coordenado pela professora doutora Gina Maria Monge Aguilar.

Jornada de estudos

Com apenas 19 anos, Vitor Timotio de Lima tem uma jornada de estudos de dar inveja a muita gente. Residente na Capital paulista e formado em Técnico de Teatro pela Escola Técnica Estadual (ETEC) de Artes, em São Paulo, atualmente é bolsista de Iniciação Científica pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP).

O jovem também faz parte de um projeto aprovado em 2019, no edital do Proec-PEX da Unicamp, de extensão universitária, chamado leitura dramática de Um Dia Ouvi a Lua, texto de Luís Alberto de Abreu. "Vamos apresentar a leitura dramática on-line deste texto para alunos da rede pública. Faremos também algumas oficinas com esses alunos."

Essas atividades caminham paralelamente à iniciação científica sobre o texto teatral Sizwe Bansi Está Morto, na qual Vitor dirige um grupo de estudos.

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Kátia Fonseca/ Correio Popular