Publicado 03/05/2021 - 11h06 - Atualizado 03/05/2021 - 12h56

Por Raquel Valli/ Correio Popular

Flagrante de briga entre defensores e detratores de Bolsonaro, no Centro de Campinas: prevalência da intolerância

Ricardo Lima/ Correio Popular

Flagrante de briga entre defensores e detratores de Bolsonaro, no Centro de Campinas: prevalência da intolerância

A polarização política observada no Brasil atualmente, com a direita de um lado e a esquerda do outro, chegou às vias de fato ontem em frente à Prefeitura de Campinas, durante as manifestações pelo 1º de Maio, chamado por bolsonaristas como "Dia do Trabalho", e por oposicionistas como "Dia dos Trabalhadores e das Trabalhadoras". Manifestantes saíram literamente no braço, e tiveram que ser apartados pela turma do "deixa disso"' e pela Polícia Militar.
Se no Largo do Pará, a concentração pedia o impeachment de Bolsonaro, a vacinação para todos e o fechamento das escolas durante a pandemia, no Largo do Rosário a manifestação era de apoio ao presidente da República, de críticas ao Supremo Tribunal Federal (STF) e contra o distanciamento social apregoado por governos, como o de João Dória (PSDB). Por conta da pandemia, as manifestações foram feitas na forma de carreatas, com buzinaços e palavras de ordem. De um dos grupos os gritos eram de "Fora Bolsonaro". Do outro, de "Lula nunca mais".

Manifestantes favoráveis ao presidente Bolsonaro reunidos diante da Prefeitura de Campinas
Manifestantes favoráveis ao presidente Bolsonaro reunidos diante da Prefeitura de Campinas
Pedestres e motoristas tentavam se locomover atônitos entre o "cabo de guerra". "As pessoas perderam o bom senso. Onde já se viu isso? Parece Fla x Flu. A insanidade partidária tomou conta deste país. É simplesmente lamentável que ninguém pare e pense, que não aja mais racionalidade, que decisões não sejam tomadas baseadas em fatos, em números e em dados técnicos", lamentou a economista fluminense Andrea Marques Pereira, 65, que é natural de Niterói, mas que mora em Campinas há 23 anos.
O empresário Luciano Limoli Júnior, 63, estava na manifestação ao lado da direita. "Sou a favor do Bolsonaro, contra o STF e contra os governadores corruptos, que estão usando a covid como bandeira política para derrubar o governo federal", disse. A advogada aposentada Verônica Bastos, 70, estava do mesmo lado. "O povo está mais consciente. O Brasil precisa caminhar. Os políticos que estão travando o desenvolvimento estão errados, e o Bolsonaro está fazendo um ótimo trabalho", declarou.
Faixa pedindo “Fora Bolsonaro” estendida na Avenida Aquidabã, sobre a Francisco Glicério
Faixa pedindo “Fora Bolsonaro” estendida na Avenida Aquidabã, sobre a Francisco Glicério
Suely Fátima de Oliveira, diretora do Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo (Apeoesp), protestava do lado oposto. "Nós, trabalhadores e trabalhadoras, estamos sofrendo muito na pandemia, com o desemprego crescendo cada vez mais, com a fome batendo na porta. Estamos na luta, na resistência. É o momento de unificar toda a classe trabalhadora, que está sofrendo com a falta de vacinas, com o arrocho salarial e com a reforma administrativa, que, lamentavelmente, vem para retirar nossos direitos", afirmou.
Carlos Eduardo Fabio, o Índio, dirigente da Central Única dos Trabalhadores (CUT) Campinas e do Sindicato dos Trabalhadores Energéticos do Estado de São Paulo (Sinergia), também estava nas fileiras progressistas da manifestação do 1º de Maio. "Saímos à rua para reivindicar, muito mais agora, nessa época de pandemia. Temos esse vírus que está no governo federal, que além de acabar com os nossos direitos, está causando esse enorme desemprego".
Índio lembrou que "há diversas famílias passando fome", mas que os sindicatos estão fazendo "campanhas solidárias em vários pontos do Estado de São Paulo, porque a situação está precária, desesperadora, sem emprego e sem assistência (governamental)". O desempregado João Lucas Lima, 56, perambulava entre os carros na Avenida Glicério, vendendo bandeiras do Brasil. "Estou aqui na luta, tentando ganhar um dinheirinho para por o que comer dentro de casa. Pinga um pouco aqui, um pouco ali", lamentou.
Mercado de trabalho passa por profundas transformações
O vice-presidente da Federação e Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp/ Ciesp), Rafael Cervone, observa que este 1º de Maio (o segundo Dia do Trabalho que o Brasil e o mundo celebram sob os impactos da covid) precisa de reflexão sobre as transformações da estrutura de produção e consumo, aceleradas pela pandemia.
"Digitalização da economia, internet das coisas, machine learning, inteligência artificial, robotização e drones serão cada vez mais presentes com o advento da chamada Manufatura Avançada, próximo passo do desenvolvimento da indústria", frisou. Segundo ele, para que os profissionais estejam aptos a permanecer no mercado, atuando em ambientes de alta tecnologia, em um cenário disruptivo da estrutura do trabalho, é preciso educação, porque não bastará adequação do ensino técnico e do acadêmico.
A preparação dos trabalhadores precisa começar pelo ensino Infantil e se estender por toda a vida. "Há uma grande demanda relativa à formação e à capacitação dos recursos humanos. Muitas crianças e adolescentes de hoje terão profissões que sequer foram inventadas", lembrou. Além disso, Cervone pontua a importância do desenvolvimento das chamadas soft skills, como inteligência emocional, flexibilidade, alta capacidade de interação com pessoas de idades e culturas diferentes e respeito pela diversidade. "Tais virtudes serão tão ou mais importantes do que as competências do conhecimento profissional", finalizou.

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Raquel Valli/ Correio Popular