Publicado 14/04/2021 - 17h48 - Atualizado 14/04/2021 - 18h06

Por Agência Estado

A resposta do público surdo ao filme norte-americano O Som do Silêncio, indicado para seis categorias no Oscar 2021 e disponível no Amazon Prime Video, tem sido mais de elogios que críticas ao abordar o tema da surdez

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A resposta do público surdo ao filme norte-americano O Som do Silêncio, indicado para seis categorias no Oscar 2021 e disponível no Amazon Prime Video, tem sido mais de elogios que críticas ao abordar o tema da surdez

A resposta do público surdo ao filme norte-americano O Som do Silêncio, indicado para seis categorias no Oscar 2021 e disponível no Amazon Prime Video, tem sido mais de elogios que críticas ao abordar o tema da surdez. A obra do diretor e roteirista Darius Marder conta a trajetória de um baterista que perdeu sua audição de forma repentina. O filme busca inserir o público na jornada sensorial em que Ruben (Riz Ahmed) aprende “como ser surdo” ao mesmo tempo que o próprio público. Hoje, um quarto da população mundial tem algum grau de surdez, segundo dados da Organização Mundial da Saúde, divulgados em março.
Pesquisadora do cinema surdo e professora de cinema e produção audiovisual, Fabiana Bubniak destaca que o filme não repete estereótipos de personagens surdos que costumam ser representados no cinema. “O filme foge de uma narrativa clássica com personagens surdos que é a vitimização deles. Para o público ouvinte que não tem contato com surdos, há a questão da identidade surda.” O youtuber Gui Fernandes, 23 anos, que é surdo profundo oralizado (se expressa por voz e não por sinais) e usa dois implantes cocleares, aponta muitos acertos do filme ao retratar a surdez, em especial, na construção do personagem principal.
“O filme foi extremamente fiel a detalhes que só surdos captariam na hora, como a cena em que um personagem coloca a mão na boca só para dar uma coçadinha. O outro interrompe e pede para repetir, pois esse pequeno ato involuntário de poucos segundos atrapalhou a leitura labial. Além disso, normalmente em filmes feitos para pessoas sem deficiência, o personagem com deficiência quase sempre é visto como um herói, que tem que superar todos os obstáculos.”
Fernandes lamentou que a Amazon Prime não disponibilize legendas descritivas (para surdos) em português. “Infelizmente, isso é muito comum nas plataformas de streaming. Isso acontece porque normalmente as legendas-padrão são para pessoas (ouvintes) que não sabem a língua original do filme.”
O Som do Silêncio recebeu outros elogios por incluir atores surdos para alguns papéis, como Lauren Ridloff (Diane), Chelsea Lee (Jenn), Shaheem Sanchez (Shaheem) e Jeremy Lee Stone (sem nome, professor de língua de sinais americana), além de figurantes surdos. Enquanto o protagonista Ruben é interpretado por Riz Ahmed, que é ouvinte, o papel de Joe ficou com Paul Raci, que é considerado como Coda (Children of Deaf Adult). A sigla significa "filho de adultos surdos".
Implante coclear
A experiência do protagonista do filme com o implante coclear também tem sido motivo de grande discussão entre pessoas surdas e médicos da área. O otorrinolaringologista Luciano Moreira avalia que as principais críticas recaem tanto pela superficialidade de algumas informações sobre surdez e o implante coclear, quanto pela inexatidão de outras. A cena do diagnóstico da surdez, quando o médico realiza um exame de audiometria e diz que o protagonista precisa fazer o implante, é precoce e simplista, diz Moreira.
“A indicação do implante coclear só é feita depois que o paciente cumpre um processo de avaliação multidisciplinar que se dá em etapas. Isso compreende a consulta médica e testes auditivos mais elaborados do que mostra o filme. Também solicitamos exames de imagem, além de uma cuidadosa avaliação com fonoaudiólogos e eventualmente psicólogos. Depois, nós precisamos ter certeza de que não apenas o paciente tem indicação médica para o implante, mas que ele e sua família estão cientes de todas as etapas envolvidas, e com as expectativas de resultado devidamente ajustadas à realidade. Além disso, o tamanho da incisão da cirurgia e da cicatriz é completamente ultrapassado. Fazemos uma incisão entre 3 e 4 cm, praticamente sem raspar cabelo nenhum, e depois a cicatriz fica invisível escondida pela própria orelha”, afirma.
Gui Fernandes, que realizou suas cirurgias de implante coclear através do SUS, conta que a experiência inicial de Ruben com o aparelho é comum. “Nós não estamos acostumados com sons tão potentes, então não conseguimos identificar imediatamente. Depois de um tempo, começamos a ouvir 'mais limpo'”, comenta.

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