Publicado 07/04/2021 - 16h40 - Atualizado 07/04/2021 - 16h40

Por Erick Julio/ Correio Popular

Obelisco ergue-se imponente na Praça da Concórdia no distrito do Campo Grande, uma das mais populosas regiões de Campinas: distrito é maior do que muitas cidades do interior

Diogo Zacarias/ Correio Popular

Obelisco ergue-se imponente na Praça da Concórdia no distrito do Campo Grande, uma das mais populosas regiões de Campinas: distrito é maior do que muitas cidades do interior

A Comissão de Estudos sobre o Desenvolvimento do Campo Grande, da Câmara Municipal, fez um debate na manhã de ontem sobre políticas públicas para o distrito. O encontro, proposto pelo vereador Cecílio Santos (PT), que preside a comissão, discutiu as estratégias para o planejamento urbano da região. Para a reunião, realizada de forma virtual, foram convidadas a professora da PUC-Campinas e da Unicamp, Vanessa Belo Figueiredo, e a diretora da Secretaria de Planejamento e Urbanismo, Carolina Bacarat Nascimento Lazinho.
O debate contou ainda com a presença dos vereadores Paulo Bufalo (PSOL), Carlinhos Camelô (PSB) e Débora Palermo (PSC), que também integram a comissão de estudo. Ao longo da reunião, a professora Vanessa destacou que o processo histórico de construção das rodovias e das linhas férreas que cortam Campinas contribuiu para um "isolamento" da região. Ela apontou ainda que a pandemia da covid-19 tornou ainda mais urgente e aguda as questões prioritárias para quem vive na região.
"Se olharmos a construção da malha viária e ferroviária, percebemos que a ferrovia marcou a primeira cisão socioespacial da cidade em relação ao Campo Grande, que é uma das regiões mais importantes da nossa cidade. Além disso, a pandemia exacerbou questões que já estavam colocadas e, por isso não dá para fazer um planejamento sem refletir o momento em que estamos vivendo", aponta a professora.
Ainda de acordo com Vanessa, durante uma pesquisa de 2014, que auxiliou o processo de definição do Plano Diretor Municipal de 2014, foram elencados os principais problemas do Campo Grande, segundo relatos de moradores. O levantamento apontou que o transporte e a moradia eram as principais carências dos habitantes da região. Com a pandemia da covid-19, por sua vez, o acesso à saúde ganhou destaque na lista de preocupações.
A professora revelou que fez um estudo para analisar as centralidades das diversas regiões de Campinas. Segundo Vanessa, a pesquisa constatou que "o Campo Grande não tem centralidades fortes constituídas hoje". De acordo com ela, a falta de equipamentos públicos contribui para os vazios urbanos.
"Campinas é uma cidade muito extensa territorialmente. Temos uma distância para ser vencida, que é de 19 quilômetros do Campo Grande ao Centro. Para vocês terem uma ideia, a cidade de Paris, na França, está toda contida em uma área de 10 quilômetros. Eu gosto de fazer essa comparação para termos noção da distância geográfica. Precisamos criar centralidades para que as regiões periféricas não tenham uma dependência dos centros como algo estrutural", aponta.
Vanessa defende mais investimentos na criação do que ela chamou de um "rodoanel de Campinas" para interligar os diferentes distritos. "O Campo Grande é cindido por muitas estruturas de mobilidade e sistemas hídricos. Ocorre, no entanto, que é preciso interligar essas estruturas e preencher os vazios urbanos. Essa fragmentação entre os bairros do Campo Grande é ruim para a constituição de uma centralidade daquela região", explica a professora.
Quem vive e trabalha na região revela que esperava muitas melhorias com a definição do Campo Grande como distrito, o que ocorreu em 2015. Os feirantes Lenin Gabriel Brescak Veras e Paulo Rogério Silva, ambos de 20 anos, reclamam da falta de infraestrutura. Veras, que mora no Jardim Bassoli, aponta que a falta de um hospital na região preocupa. Para Silva, por sua vez, falta mais acesso a serviços. "Se você precisar ir em um cartório ou em uma Caixa Econômica você precisa ir ao Centro ou no Ouro Verde", reclama.
Outro ponto destacado por Vanessa foi a malha viária que dá acesso ao distrito. Segundo a professora, a construção do BRT é "importante e não está errada", porém é necessária uma conexão do Campo Grande com outras regiões, além do Centro. "Campinas tem hoje basicamente um sistema radial de transporte que liga a periferia ao centro. Temos dois eixos do BRT que são dois equipamentos importantes, mas vão continuar operando na lógica periferia-centro. Os distritos precisam de sistemas perimetrais, que contribuem para o processo de formação de centralidades. Hoje, se você sai do Campo Grande e quer ir até Barão Geraldo, você precisa passar pelo Centro. Isso não seria necessário se tivéssemos uma conexão direta", ressalta.
O cenário descrito pela professora ilustra a realidade de Janete dos Santos Tintiliano, 47 anos, que mora no Jardim Santa Clara, no Campo Grande. A agente de saúde conta que teve que trancar o curso de Ciências Sociais na PUC-Campinas, no qual possui uma bolsa integral no Programa Universidade para Todos (Prouni), por conta da dificuldade de conciliar os horários de deslocamento e trabalho. "Estava muito complicado conseguir chegar na aula no horário e não voltar para casa tão tarde. Para chegar às 19h na PUC-Campinas, eu tinha que sair 16h de casa. Não tinha como conciliar essa rotina com meu emprego. Espero um dia poder voltar", lamenta Janete.
A diretora da Secretaria de Planejamento e Urbanismo revelou durante a reunião que a pasta busca "incentivar a ocupação dos vazios urbanos". Segundo Carolina, a Prefeitura estuda viabilizar a ocupação e contribuir para conectar os bairros. Ainda segundo a diretora, o trabalho da comissão vai "contribuir para o debate" e envolver outras secretarias.
O vereador Paulo Bufalo, que é o relator da comissão, exaltou as contribuições do debate e disse esperar que a "participação popular seja levada em conta" para a formulação das novas políticas. "Tivemos hoje contribuições importantíssimas, mas percebemos a ausência da participação popular na formulação das políticas passadas".

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