Publicado 03/04/2021 - 12h57 - Atualizado 03/04/2021 - 12h58

Por Tássia Vinhas/ Correio Popular

A capitã Lucimara Godoy, prefeita de Valinhos: município precisa perder o estigma de cidade-dormitório

Ricardo Lima/ Correio Popular

A capitã Lucimara Godoy, prefeita de Valinhos: município precisa perder o estigma de cidade-dormitório

Alcançar uma economia de R$ 15 milhões somente em 2021 é um dos objetivos da Prefeitura de Valinhos com a troca do sistema de ondas de rádio pelo de fibra ótica, para o fornecimento de internet de alta qualidade aos prédios públicos municipais. A medida vai permitir a implantação de prontuários eletrônicos em todas as áreas da administração, resultando em um atendimento mais ágil nas Unidades Básicas de Saúde, além de acelerar os processos internos da Prefeitura. A informação é da prefeita da cidade, a capitã Lucimara Godoy.
"Hoje não existe um sistema que faça a gestão das pessoas que são atendidas pela assistência social do município. O controle de decretos e de leis é feito em uma planilha no Word. É como se hoje a gente usasse o computador como uma máquina de escrever, porque a tecnologia da informação não está sendo feita para gente ter resultados positivos na gestão", explica a prefeita.
Paralelo a isso, Lucimara Godoy também tem outro grande desafio, que é o combate á pandemia da covid-19 no município. "Não era algo que estávamos aguardando para 202. Acho que todo mundo tinha uma expectativa de que esse pesadelo passaria, mas ainda temos esse desafio a superar", reconhece. Graduada em direito pela Faculdade Liceu Salesiano de Campinas, Lucimara Godoy passou por diversas áreas da Segurança Pública, como o Corpo de Bombeiros e Polícia Militar, até ser promovida ao posto de capitã.
Foi transferida para o 35º Batalhão de Polícia Militar do Interior, sendo então designada como responsável pelo policiamento das cidades de Valinhos e Vinhedo. Durante visita ao presidente executivo do Grupo RAC, Ítalo Hamilton Barioni, a capitã Lucimara fez um balanço dos primeiros noventa dias de governo e comentou sobre os princípios desafios que terá que enfrentar.
Um assunto inescapável é a pandemia da covid-19. Como Valinhos tem enfrentado os diversos problemas decorrentes do avanço da doença?
Acompanhamos diariamente o número de internações nos hospitais da cidade e o fluxo na nossa Unidade de Pronto Atendimento, e percebemos uma elevação da curva. Então, quando houve um fechamento por parte do Estado, a partir das 22 horas, nós antecipamos para as 20 horas. Além disso, percebemos um movimento de muitas festas à noite, o que resultava em um aumento do número de casos. Regulamentamos as autuações tanto para as pessoas que estavam circulando sem máscara, como comércios abrindo de forma irregular e começamos a ter uma fiscalização mais efetiva. Agora, começamos a perceber sinais de que o número de casos entrando na UPA está diminuindo. As altas estão acontecendo e começamos a sentir que os números vão começar a cair. Também contratamos mais médicos e adquirimos mais materiais, insumos e medicamentos, além de aumentar as vagas no hospital da cidade.
Ainda na área da saúde, mas saindo um pouco do tema da pandemia, uma das propostas da sua gestão é a implantação de prontuários também no sistema de saúde. Como isso vai funcionar?
O que identificamos é que o município cresceu muito, mas a gestão não acompanhou. Muitas rotinas seguem os moldes do que era feito trinta anos atrás. Faz pouco tempo que conseguimos fechar a licitação para colocar internet por fibra ótica em todos os prédios municipais. Antes, o serviço era fornecido por ondas de rádio. Como a topografia da cidade já não favorece, o sinal da internet oscilava muito. O agendamento de uma consulta numa Unidade Básica de Saúde (UBS) muitas vezes não era concluído por causa desse problema. O prontuário eletrônico se traduz em economia, em melhora na qualidade de vida das pessoas. Hoje, se uma pessoa que faz acompanhamento em uma UBS passar mal e for até a UPA, lá não vai ter nenhuma informação desse paciente. Vai ser preciso fazer todos os exames de novo e ver que medicamentos toma. Muitas pessoas são simples, não sabem falar quais doenças sofrem ou quais remédios tomam, então o prontuário eletrônico vai proporcionar uma economia de exames e de deslocamento.
Que outras vantagens a digitalização dos serviços públicos trará para o município?
Quando a gente chegou, identificamos todo esse problema de falta de utilização da tecnologia da informação na máquina pública. Ainda temos necessidade de pegar um documento em papel, protocolá-lo, carimbá-lo e levá-lo para outro lugar. É um processo enorme. No Estado já não funciona assim, não tem papel. Alguém faz o protocolo eletrônico, o documento entra na tela e vai liberando níveis de acesso para que todos possam avaliar. Por exemplo, hoje um pedido de aprovação de uma casa pode demorar até dez meses por conta dessa burocracia. Com esse novo sistema, esse tempo deve diminuir muito. Porém, não dá para ter um sistema como esse no planejamento, na abertura de empresas, se a gente não tiver uma internet minimamente condizente com esse tipo de plataforma. Essa foi a ideia da implementação: dar essa agilidade, ter esse olhar de inovação que já existe no mundo coorporativo e em outras instituições públicas.
Como isso pode impactar na arrecadação do município?
Isso vai permitir a otimização da mão de obra e dos recursos materiais, já que com esse sistema não vai mais precisar de papel. Nosso secretário de Tecnologia, Inovação e Comunicação acredita que, só nesse primeiro ano, a economia deva ser em torno de R$15 milhões com essa informatização. Tem um investimento, claro, mas somente com a troca do sistema de fornecimento de internet nós já vamos economizar, porque era muito mais caro pagar a internet via rádio. Além disso, hoje a gente consegue trabalhar por sistema de controles, sistemas coorporativos via web. Sem contar que, como ainda existem alguns sistemas com servidores, se acontece algum problema você perde informação. Isso já aconteceu.
Preocupados com os problemas de seus municípios, os prefeitos ainda não conseguem tratar questões comuns às cidades do seu entorno sob o âmbito regional. Como a senhora vê essa realidade?
Uma das oportunidades que nós tivemos na pandemia foi fazer com que os prefeitos da Região Metropolitana de Campinas (RMC) tivessem uma união, um contato maior. Foi uma oportunidade de atuarmos de fato como uma região, porque nenhum município está isolado, ninguém é uma ilha. As decisões sobre fechar ou abrir as entradas de um município, por exemplo, impactam em todos os outros. A gente tem que pensar sempre num contexto regional quando falamos de questões hídricas e da gestão de resíduos sólidos. Hoje, pagamos para que todo o resíduo sólido de Valinhos seja encaminhado para Paulínia. A questão da saúde também é regionalizada. Quando a gente atua em grupo, a possibilidade de sucesso é muito maior.
Qual a principal meta do seu governo? Que marca a senhora pretende deixar?
Nossa ideia é fazer com que a cidade saia da inércia. Valinhos está estagnada em arrecadação há alguns anos. Vinhedo, uma cidade de 70 mil habitantes, tem uma arrecadação de R$600 milhões. Valinhos, com 131 mil habitantes, tem arrecadação prevista de R$526 milhões para este ano. Grande parte da arrecadação vem do IPTU. Existe o estigma de que a cidade é um local onde as pessoas escolhem para morar, mas não para investir. Infelizmente, isso acontece. Queremos focar no desenvolvimento econômico, tirar a cidade dessa estagnação. Queremos fazer com quem as empresas que estão no município ampliem seus negócios, além de trazer mais negócios para a cidade. Pretendemos aumentar a arrecadação, melhorar a qualidade de vida do cidadão. Para isso, temos que otimizar todos os processos públicos, porque não adianta nada a empresa desejar vir, mas encontrar obstáculos para se instalar no município porque tem que enfrentar muita burocracia.
O objetivo é tirar o estigma de cidade-dormitório?
Sem dúvida, não gosto nem de usar esse termo. Hoje, muitas pessoas moram lá e nem conhecem a cidade, porque fazem a compra nos shoppings em Campinas e trabalham em São Paulo. Queremos que as pessoas morem bem em Valinhos, mas tenham seu horário de lazer lá, façam suas compras lá, consigam trabalhar lá, tudo lá. Essa é a nossa meta.

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Tássia Vinhas/ Correio Popular