Publicado 26/03/2021 - 12h51 - Atualizado 26/03/2021 - 13h03

Por Rodrigo Piomonte/ Correio Popular

Há seis dias com sintomas de covid, o auxiliar de cozinha Marcos Paulo Santos mostra a caixas com kit covid: “vou tomar e ver no que vai dar”

Diogo Zacarias/ Correio Popular

Há seis dias com sintomas de covid, o auxiliar de cozinha Marcos Paulo Santos mostra a caixas com kit covid: "vou tomar e ver no que vai dar"

Apesar da polêmica e da chamada autonomia médica, pacientes que procuram a rede pública de saúde de Campinas têm recebido a prescrição da azitromicina, um antibiótico considerado de largo espectro e que compõe o chamado "kit covid", junto a outros fármacos como a cloroquina e a ivermectina.
O debate sobre a receita e eficácia do uso dos medicamentos divide opiniões. Se por um lado alguns profissionais da saúde defendem a prescrição em conjunto ou separadamente, outros são contra.
Para entidades e membros da classe médica, a prescrição do coquetel pode gerar efeitos colaterais graves. Já separadamente, pode induzir o paciente a uma falsa ideia de cura, levando a pessoa a abandonar as medidas de proteção sanitárias, como uso da máscara e o distanciamento social, essenciais até que toda a população receba a vacina.
O secretário de Saúde de Campinas, Lair Zambon, afirmou essa semana que o "kit covid" não funciona e que a rede de saúde da Prefeitura não indica o uso dos fármacos em nenhuma hipótese. "Essa polêmica do 'kit' só existe no Brasil. Essa conversa não existe no mundo. Mais de 80 entidades médicas já vetaram o uso do "kit covid". O próprio fabricante de um dos componentes é claro ao dizer que o medicamento não funciona para a doença", disse.
Pacientes, porém, que procuram os postos de Saúde da Prefeitura com suspeita ou confirmação de contaminação pela covid-19 têm recebido a prescrição de uso da azitromicina, um dos fármacos que compõe o "kit covid". É o caso do auxiliar de cozinha Marcos Paulo Santos, 24 anos, que esteve ontem no posto de saúde do bairro Costa e Silva, região Sul da cidade.
Ele contou que procurou o posto de saúde por estar há seis dias com sintomas da doença. Depois de ser atendido pela equipe médica do posto de saúde e fazer o exame PCR, aquele em que é coletado por secreção naso-orofaringe, conhecido como teste do cotonete, Santos disse que recebeu uma receita com a prescrição de três medicamentos, entre eles a azitromicina.
"É um momento difícil, estou com todos os sintomas e já com dificuldade para respirar. Preciso voltar ao posto de saúde para pegar o resultado. Enquanto isso, vou tomar os medicamentos e ver no que vai dar. Dá muito medo, mas não temos outro caminho. É tentar se curar de alguma forma", conta.
A azitromicina como as demais drogas que estão no chamado "kit covid" têm sido aplicadas em casos suspeitos ou confirmados de contaminação pela covid-19, porém, não possuem eficácia comprovada e já tem a recomendação de uso descartado porque podem causar efeitos colaterais graves aos pacientes que usam de forma contínua.
Em Campinas, dois casos de pacientes diagnosticados com hepatite tóxico-medicamentosa, um dos problemas relacionados ao uso dos fármacos que compõem o "kit covid" já foram confirmados. Um deles ocorreu no Hospital de Clínicas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e outro caso é o de um paciente internado em um hospital da rede privada. Este caso foi confirmado essa semana pela Diretoria de Vigilância Sanitária de Campinas (Devisa).
Para a presidente do Conselho Municipal de Saúde, Nayara Lucia Oliveira, o que pode estar acontecendo é que os médicos da rede pública estão receitando por conta própria os medicamentos já que não existe um protocolo oficial para os profissionais da rede.
"O recém posicionamento do secretário municipal de Saúde contrário ao uso dos medicamentos do kit covid está muito adequado. Porém ele é tardio na nossa opinião. O que o conselho vem recomendando é que se fizesse uma norma técnica da Secretaria, onde seria feito uma indicação para os profissionais que a Prefeitura ou o próprio secretário não recomenda que qualquer um dos itens do kit covid seja prescrito pelos profissionais da Secretaria da Saúde", disse.
A Prefeitura reforçou ontem, por meio da assessoria de imprensa, que não recomenda o uso de medicamentos do "kit covid", mas que os médicos têm autonomia sobre os medicamentos receitados. Para a Associação Médica Brasileira (AMB) o uso de remédios sem eficácia contra a covid-19 é condenado.
Em boletim divulgado anteontem, a entidade voltou atrás quanto a um posicionamento datado de julho do ano passado quando defendeu a "autonomia do médico" ao receitar os medicamentos.
Especialista questiona tratamento precoce
A prescrição de medicamentos sem uma comprovação científica pode não ser seguro para o tratamento da covid-19. O neurocirurgião Marcelo Valadares, médico da Disciplina de Neurocirurgia da Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp e do Hospital Albert Einstein, relata diversos casos de pacientes com quadros graves de problemas hepáticos devido ao uso de medicamentos que constam no chamado "kit covid", entre os mais conhecidos a cloroquina e a ivermectina.
Sobre a azitromicina, o especialista ressalta que é um remédio que, eventualmente, pode ser usado em pacientes com covid, mas quando eles têm também associados outros quadros de infecção bacteriana. "São pacientes graves que vão para a UTI. Ela jamais deveria ser associada a qualquer situação de tratamento precoce", avalia.
Para o médico, a adesão ao chamado tratamento precoce ocorre da chancela de médicos, gestores e de líderes políticos, que dizem ao longo da pandemia que o uso de determinados fármacos ajuda os pacientes.
E pelo fato da covid-19 ser uma doença grave, as pessoas se agarram à esperança de um tratamento. "O melhor tratamento é o suporte ao doente e o cuidado para não ser contaminado, além, agora, da vacina", disse.
De acordo com o especialista, prescrever um tratamento com fármacos que não possuem uma comprovação científica que garanta a eficácia faz a pessoa acreditar que aquilo vai dar algum tipo de proteção que dispense outras medidas sanitárias.

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Rodrigo Piomonte/ Correio Popular