Publicado 05/03/2021 - 15h17 - Atualizado 05/03/2021 - 15h17

Por Guilherme Ferraz/ Correio Popular

Vista geral do Cemitério da Saudade, em Campinas, onde uma mulher de 70 anos vítima de covid-19 foi enterrada em sepultura errada: equívoco foi descoberto pela família, que ficou abalada com o episódio

Kamá Ribeiro/ Correio Popular

Vista geral do Cemitério da Saudade, em Campinas, onde uma mulher de 70 anos vítima de covid-19 foi enterrada em sepultura errada: equívoco foi descoberto pela família, que ficou abalada com o episódio

Elisabete Nair Bellintani Leal de Magalhães faleceu em 11 de agosto de 2020, aos 70 anos, vítima de covid-19. Ela foi sepultada no Cemitério da Saudade, em Campinas, no mesmo dia de sua morte. Seu velório foi acompanhado somente por cinco familiares, pela necessidade de se evitar aglomerações por causa da pandemia. No entanto, Elisabete foi enterrada no túmulo errado, localizado próximo ao jazigo da família.
A descoberta do erro ocorreu seis meses depois do sepultamento, durante uma conversa entre o filho e o cunhado de Elisabete, proprietário da sepultura. Em dado momento, o primeiro perguntou ao segundo se poderia pintar o túmulo de cimento onde a mãe fora enterrada, para deixar o local mais bonito. A resposta foi que o túmulo, revestido de azulejos brancos, dispensava pintura e estava em bom estado de conservação.
"Os cinco familiares que acompanharam o enterro não conheciam o túmulo, que é do cunhado da minha mãe. Depois da suspeita de que um erro tinha ocorrido, não consegui dormir durante um final de semana todo. Na segunda-feira, fui à Setec [Serviços Técnicos Gerais, administradora dos cemitérios de Campinas] para questionar sobre o que tinha acontecido", explica a publicitária Fabiane Bellintani Leal de Magalhães, filha de Elisabete.
Ela conta que, ao chegar ao Cemitério da Saudade, onde funciona a sede da Setec, dirigiu-se ao túmulo onde sua mãe foi enterrada e percebeu que nada tinha sido mudado. Ela, então, fotografou o jazigo para ter uma prova. "O diretor do Cemitério da Saudade me encontrou e falou que realmente eles haviam cometido um erro. Ele cogitou até alterar o que estava escrito nos documento deles, mas eu avisei que já tinha tirado foto dos originais. Foi um erro inadmissível da Setec", protesta.
Fabiane registrou um boletim de ocorrência. "Tomei essa providência porque eles invadiram a sepultura de um terceiro sem autorização e até agora o proprietário não está sabendo o que aconteceu, mesmo porque a Setec não quis me informar quem é o dono do túmulo no qual minha mãe foi enterrada por engano".
Fabiane relata que, para corrigir o equívoco, os funcionários do Cemitério da
Saudade informaram que fariam a exumação do corpo de Elisabete, para transferi-lo para o jazigo correto. A publicitária pediu para que uma prima acompanhasse o procedimento de perto, porque temia não aguentar. "A exumação aconteceu ali no meio do cemitério. Eles quebraram o caixão, pois estava lacrado por causa da morte por covid. Apesar de ter visto o trabalho de longe, não aguentei e desmaiei. Minha prima, que veio me socorrer, viu tudo".
A publicitária diz que ainda está muito abalada e com depressão. "Eu e minha prima, que fez o reconhecimento do corpo, estamos com depressão. Faz dias que não durmo e não me alimento direito. Eu enterrei minha mãe duas vezes", lamenta.
Fabiane conta também que vai processar a Setec, mas que isso não vai sanar a dor que ela está sentindo. "Estou com todos os documentos para mover o processo contra a autarquia, mas isso não vai resolver o problema. Em momento algum a Setec entrou em contato comigo para se desculpar ou oferecer qualquer tipo de apoio. Estão sendo totalmente desumanos", afirma, indignada.
Para a psicóloga, Ana Lúcia Viccari, o que ocorreu com esta família foi uma situação altamente traumática e inconcebível. "Além de não ter podido se despedir do ente querido por causa da alta transmissibilidade do vírus, os fatos são causadores de intensa dor e abalo de ordem psíquica. O sofrimento e a visão da exumação do corpo são profundamente angustiantes e possivelmente ocasionaram um tempo maior de luto nos familiares. Infelizmente, o trauma também poderá desencadear outros distúrbios psicológicos além da depressão, como os transtornos de ansiedade", alerta.
Em nota, a Setec informou que não tinha conhecimento dos fatos, mas que, diante da denúncia, iria apurar o episódio, dentro dos ritos e rigores da lei. A autarquia assinalou que se solidariza com a dor dos familiares de Elisabete, independente do que for levantado e definido ao longo do processo. Questionado sobre possíveis outros erros desse tipo, o órgão municipal alegou que preza pela excelência na prestação de serviços, e mantém equipes de trabalho preparadas e treinadas para executar as operações sob sua responsabilidade.

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Guilherme Ferraz/ Correio Popular