Publicado 05/03/2021 - 10h33 - Atualizado 05/03/2021 - 10h37

Por Rodrigo Piomonte/ Correio Popular

Pacientes e acompanhantes aguardam atendimento no setor reservado para covid do Hospital Mário Gatti: taxa de ocupação dos leitos está no limite e equipe médica exausta

Ricardo Lima/ Correio Popular

Pacientes e acompanhantes aguardam atendimento no setor reservado para covid do Hospital Mário Gatti: taxa de ocupação dos leitos está no limite e equipe médica exausta

No momento em que os números da pandemia acendem o alerta para a situação de colapso do sistema de saúde municipal, tanto público quanto o privado, na porta dos hospitais a situação tem sido ainda mais dura. Tensão, medo e incertezas são sensações compartilhadas entre pacientes e profissionais no estágio considerado o mais delicado de enfrentamento da doença em Campinas.
Com leitos de enfermaria e de Unidade de Terapia Intensiva (UTI) no limite e a doença avançando, inclusive entre a população com menos de 60 anos, médicos e enfermeiros relatam esgotamento para lidar com o que chamam de maior desafios de suas vidas profissionais. A situação dramática chama a atenção das entidades de classe que representam a categoria sobre a necessidade de garantir as condições de trabalho e de segurança para a atuação das equipes de saúde.
Paciente com sintomas de covid-19 aguarda atendimento em maca no corredor do Hospital Mário Gatti: números dramáticos da doença estão longe de traduzir o sofrimento humano
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Paciente com sintomas de covid-19 aguarda atendimento em maca no corredor do Hospital Mário Gatti: números dramáticos da doença estão longe de traduzir o sofrimento humano
Paciente com sintomas de covid-19 aguarda atendimento em maca no corredor do Hospital Mário Gatti: números dramáticos da doença estão longe de traduzir o sofrimento humano
 
 
No dia em que a Prefeitura anunciou o início dos trabalhos no Hospital Metropolitano, uma das soluções encontradas pela administração para ampliar a estrutura de enfrentamento da pandemia, além da contratação de mais médicos, familiares de pacientes tiveram que ter paciência para ver acomodados os seus doentes.
"Chegamos aqui pela manhã depois que a minha mãe começou a passar mal. E estamos aqui até agora sem saber que horas vamos sair ou o que vai acontecer.
Pediram para esperar. Não sabemos quando e para onde minha mãe vai ser encaminhada, e se ainda haverá tempo dela vencer a doença", disse em tom de desespero a analista financeira, Maria Estela de Medeiros, 41 anos.
De acordo com ela, a mãe, uma idosa de 82 anos, recebeu os primeiros atendimentos em uma Unidade de Pronto Socorro e precisou ser transferida às pressas para o Hospital Mário Gatti por estar com a saturação do sangue muito baixa. "Chegamos aqui e minha mãe está lá, numa maca acomodada e respirando com a ajuda de um cilindro de oxigênio. Não sabemos se ela vai conseguir uma vaga aqui ou se terá que ser transferida para outro local ou até para outra cidade. A informação que recebemos é que não há leitos disponíveis", explica.
Enquanto esperava, a analista disse que além da preocupação com a mãe precisa lidar com o medo de também pegar a doença por ficar tanto tempo exposta a um ambiente hospitalar. "Aqui estava lotado pela manhã. Não parava de chegar ambulâncias. Não sei o que vai acontecer. Parece que antes da minha mãe tem mais duas pessoas também aguardando um leito", disse.
Ela conta que a mãe está com agendamento para receber a primeira dose da vacina neste final de semana. Outra pessoa que viveu ontem um drama parecido foi a dona de casa, Emília dos Santos Souza, 54 anos. Ela estava acompanhando a filha de 26 anos, internada com suspeita de covid. "Estamos aqui esperando. Minha filha está numa maca lá dentro. Vamos ver o que vai acontecer. Estou com muito medo", relata.
Os dois familiares aguardavam no estacionamento do Gripário do Mário Gatti, que abriga desde a tarde de ontem pacientes covid. A Prefeitura está equipando o local para o aumento no número de leitos de enfermaria e UTIs covid. O serviço oferecido pelo gripário passa a funcionar no Hospital Metropolitano.
Equipe médica
A tensão do dia a dia dos hospitais nesse momento de pico da pandemia na cidade aflora as emoções também de quem está acostumado e vivenciar, há pelo menos um ano, a luta contra a doença. O médico intensivista Marco Antônio Alterman, com 30 anos de medicina, relata as dificuldades e o drama vivido diariamente desde o início da pandemia.
"Nossa ação na UTI tem sido manter o paciente vivo. É uma doença complicadíssima. Em mais de trinta anos de profissão eu nunca vivenciei algo parecido", disse.
Segundo ele, que pegou a doença em 2020 e ficou quatro dias na UTI, o volume de atendimento de terapia intensiva tem sido crescente neste período, esgotando fisicamente e psicologicamente os profissionais. Ele conta que apesar do esforço da Prefeitura em aumentar o número de leitos e contratar médicos, a realidade é que os hospitais não estão conseguindo preencher os quadros na mesma velocidade em que chegam pacientes covid para serem atendidos.
Segundo ele, que atua em três hospitais de Campinas e um de Paulínia, a cada plantão de trabalho é possível ver os 'buracos', referindo as ausências de profissionais no quadro de funcionários. "Hoje nós temos um grande número de profissionais sobrecarregados, exaustos, cansados. Muitos adoecem e precisam ser afastados, outros até preferem nem assumir a responsabilidade temendo a doença. Em outras situações os médicos estão atuando em vários hospitais, e não há agilidade para repor eventuais perdas. Portanto, se a população não se conscientizar e seguir as regras de isolamento não veremos melhora nos próximos meses", lamenta.

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Rodrigo Piomonte/ Correio Popular