Publicado 04/03/2021 - 11h29 - Atualizado 04/03/2021 - 11h29

Por Erick Julio/ Correio Popular

Funcionários do Hospital Metropolitano, requisitado administrativamente pela Prefeitura de Campinas, protestam diante da unidade: críticas à ação da Administração e medo de desemprego

Diogo Zacarias/ Correio Popular

Funcionários do Hospital Metropolitano, requisitado administrativamente pela Prefeitura de Campinas, protestam diante da unidade: críticas à ação da Administração e medo de desemprego

O clima em frente ao Hospital Metropolitano, na Avenida das Amoreiras, era um misto de indignação e desespero na tarde de ontem. Após a Prefeitura de Campinas decretar a requisição administrativa da unidade hospitalar privada, os funcionários, que foram surpreendidos pelo cumprimento do decreto na manhã do dia anterior, voltaram ao local para fazer uma manifestação em defesa de seus empregos.
Se por um lado o ato da Prefeitura tem por objetivo aliviar a taxa de ocupação dos leitos de UTI-Covid, que chegou a 97% esta semana, por outro deixou 60 trabalhadores e suas famílias sem saber o que fazer para sobreviver. O técnico em enfermagem João Paulo Moreira, de 39 anos, é um dos funcionários do grupo Wakanda, responsável até então pelo controle do hospital. Ele foi um dos que compareceram à unidade médica para protestar.
Moreira contestou a informação divulgada pela Prefeitura de Campinas na terça-feira de que o hospital estava vazio, sem ninguém trabalhando. Visivelmente emocionado, o técnico em enfermagem, que é pai de uma adolescente de 13 anos, conta que foram "tratados como animais" durante o cumprimento do decreto.
"Estávamos muito empolgados com a reabertura do hospital. Não sei de onde a Prefeitura tirou que ele estava vazio. Nem conseguimos entrar para pegar nossas coisas. A gente vem trabalhando desde novembro para organizar tudo, para que a unidade voltasse a funcionar totalmente amanhã. Somos muitas famílias que foram surpreendidas por essa decisão do prefeito. Famílias que dependem dos empregos. Eu mesmo não posso pagar a pensão da minha filha. Vamos ficar desempregados", reclamou Moreira, que chorou durante o relato.
Para a Cristiane Lopes, 40, que é técnica em enfermagem do setor de UTI do Hospital Metropolitano, a decisão da Prefeitura é "totalmente política". Segundo ela, os funcionários viviam com medo de que a administração municipal "fizesse algo para prejudicar nossos empregos". A visita da Vigilância Sanitária ao hospital, na última segunda-feira, e o consequente cumprimento do decreto no dia seguinte, fez Cristiane acreditar que há ligação entre as duas medidas.
"A verdade é que temos esse temor de perder nossos empregos desde as eleições do ano passado. O Dário fez as promessas dele de construir o tal do Mario Gattinho. É estranho que a Prefeitura não tenha se interessado em ajudar o hospital a se reorganizar anteriormente. Agora, após a Vigilância nos visitar e ver que está quase tudo pronto, ele vai assumir o controle. A impressão que dá é que foi feito tudo de caso pensado", criticava Cristiane, enquanto produzia os cartazes para a manifestação.
O Hospital Metropolitano enfrentava problemas com dívidas trabalhistas e sofreu intervenção da Prefeitura em março de 2020. Houve a promessa de abertura de leitos, mas sem sucesso. Após uma decisão judicial que garantiu a destinação de verbas da Prefeitura para custeio de Leitos-Covid, a unidade voltou a funcionar, respeitando o contrato firmado com a Secretaria de Saúde, para atender pacientes com a doença entre 23 junho a 20 de novembro.
O diretor clínico do Hospital Metropolitano, José Lúcio de Souza, esteve presente na manifestação dos funcionários e afirmou que o Grupo Wakanda procura pela Prefeitura desde o fim do ano passado para tentar restabelecer o convênio. De acordo com Souza, no entanto, a Administração "sequer retornou os contatos". O médico questionou ainda o momento em que a Prefeitura voltou as suas atenções para o hospital.
"Quando o Metropolitano estava realmente parado, a Prefeitura não nos respondeu, nem fez algo para contribuir para a reabertura. Agora que estávamos perto de reabrir, ela vem e baixa o decreto. Eu nunca vi isso em 26 anos como médico. Particularmente, não compreendo o motivo de o prefeito não vir falar diretamente conosco para colocar o hospital e os leitos à disposição da cidade", lamentou Souza, que se comprometeu a seguir com o pagamento dos funcionários.
"Eu quero aqui reconhecer todo o esforço dos 60 trabalhadores que compareciam ao hospital para trabalhar na organização da reabertura, em um sistema de revezamento. Apesar da reaquisição, nós vamos trabalhar para pagar os funcionários amanhã. Por conta do processo de recuperação judicial, nós ainda não vamos conseguir pagar todos os valores que estão atrasados, mas vamos garantir o pagamento de agora", prometeu o diretor clínico.
Para Renata Maximiano e Maria Elisa Godoy, que trabalham no setor de limpeza do Hospital Metropolitano, a requisição "foi um choque". Maria Elisa conta que sem o emprego na unidade médica não tem de onde conseguir uma renda. "Esse é meu único trabalho, não sei o que poderei fazer". Renata, por sua vez, disse que "desabou" ao ser barrada na entrada do hospital. "Eu só consigo ter vontade de chorar. Estou preocupada, porque, se é difícil conseguir emprego normalmente, na pandemia é mais complicado".
Questionado sobre esse quadro, o prefeito Dário Saadi (Republicanos) justificou que a Prefeitura analisou a situação do hospital, mas que a retomada do convênio "foi desaconselhada pela Secretaria Municipal de Justiça". Segundo Saadi, a Pasta recebeu questionamentos do Ministério Público Federal, da Polícia Federal e da Receita Federal sobre a contratação.
"Nós não queríamos ter que recorrer a uma medida rigorosa como essa [requisição administrativa]. Ocorre, no entanto, que a contratação da empresa responsável, por meio de um convênio, geraria insegurança. Estamos em uma situação muito crítica em relação à pandemia de covid-19. Os 15 leitos UTI-Covid e os outros 20 para internações gerais que instalaremos no Metropolitano vão contribuir para aliviar o sistema de saúde de Campinas", explicou o prefeito, que também revelou como se dará a indenização do hospital e o que pode ser feito em relação aos seus funcionários.
"A indenização prevista por lei é definida ao fim da requisição, que vai perdurar enquanto estivermos na pandemia. O que for de responsabilidade da Prefeitura, nós vamos indenizar. Quanto aos trabalhadores, nós estamos vendo com a Rede Mário Gatti o que é possível fazer. Não descartamos alguma forma de utilizar esses trabalhadores, mas não podemos garantir nada, uma vez que isso dependerá da contratação de uma empresa que possa absorver esses funcionários", finalizo Saadi.

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