Publicado 04/03/2021 - 10h57 - Atualizado 04/03/2021 - 10h57

Por Da Redação

Consumidores com máscaras no queixo carregam sacolas cheias de compras no distrito do Campo Grande: apesar da fase vermelha, comércio local funciona quase a todo o vapor

Ricardo Lima/ Correio Popular

Consumidores com máscaras no queixo carregam sacolas cheias de compras no distrito do Campo Grande: apesar da fase vermelha, comércio local funciona quase a todo o vapor

No primeiro dia de vigência das medidas restritivas impostas pela fase vermelha em Campinas, decretado ontem pelo prefeito Dário Saad (Republicanos), o movimento nas ruas e avenidas diminuiu, mas não na intensidade e volume desejados. A reportagem do Correio Popular percorreu as regiões dos distritos do Campo Grande e de Barão Geraldo e o que se viu foram lojas e pequenos comércios com as portas abertas, atendendo aos clientes, e ignorando as determinações de fechamento imposto pelas regras da fase vermelha. Assim como nas ruas centrais da cidade, a circulação de pessoas nas principais vias de acesso da região periférica, embora menor, ainda foi intensa. Em Campinas, a fase vermelha vale até o dia 16 de março e no Estado de São Paulo começa no sábado e vai até o dia 19.
A resistência de parte da população em aderir à quarentena imposta no combate ao coronavírus e saturação da rede hospitalar, causa revolta e indignação em muitas pessoas. "Tem que pegar esse povo que faz aglomeração, que faz festa clandestina, que vai pra praia, e que não respeita nada, e prender". O desabafo é da atendente Ivone Souza, que há seis dias conseguiu um emprego para trabalhar em uma cantina de uma escola, mas que teve que voltar para casa, ontem, porque o colégio foi fechado (devido ao aumento no número de casos de covid-19). "A coisa tá feia. Não sei aonde vamos parar. Demorei um tempão pra conseguir um emprego, e agora estou com medo de ser dispensada por causa da irresponsabilidade desse povo que é ignorante e que não pensa no próximo". Ivone estava no Terminal Central, pegando ônibus para voltar para casa.
No Centro, também estava a doméstica Raimunda Souza, que foi comprar mantimentos para a patroa. "Vou a um mercado pequeno porque tem menos gente, porque não tem aglomeração. Coloco máscara direitinho e passo álcool em gel toda hora". O aposentado Francisco Saturnino Oliveira, de 72 anos, teve que sair à rua também. "A gente que tem idade fica meio assustado, mas não sei mexer na internet, e, se eu não pagar a conta de luz, depois complica".
Já o gari Isulvestre Costa diz estar tranquilo. "Não tenho mais medo. Por acaso adianta alguma coisa? Por mim, eu estaria em casa, sem risco de pegar essa doença. Mas, eu não posso. Tenho que sustentar a minha família. Então, tomo todos os cuidados e sigo em frente".
O frentista Denilson da Silva Alves concorda. "Tenho que trabalhar. Não posso ficar em casa. Sou casado e tenho três filhos pra sustentar. Se eu não trabalhar, eles não comem".
Para a infectologista Raquel Silveira Bello Stucchi, professora da Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp, a decisão dos governantes de instaurar fases mais restritivas é muito difícil, porque todos reconhecem as sérias consequencias para a economia. "Entretanto, no momento em que temos uma explosão do número de casos de covid-19, de pacientes que precisam de internação e estamos próximos de 100% da ocupação dos leitos, não sobra outra alternativa que não seja a restrição das atividades."
A médica, pontua, entretanto, que "não adianta só penalizar a economia, fechando os estabelecimentos que já tiveram muito dificuldade pra sobreviver por um ano, se a população não fizer a parte dela: ficar em casa, quando possível, não aglomerar, não reunir amigos, não fazer festas. E se precisar sair, usar a máscara corretamente, higienizando as mãos e mantendo o distanciamento social".
Ainda de acordo com a infectologista, "esse remédio amargo pretende que haja uma diminuição no número de casos para que o sistema de saúde possa ter condições de atender os pacientes com necessidade de internação". Para Raquel, "é fundamental que a população perceba que é o momento de voltar aos cuidados do ano passado, porque se cada um for responsável está cuidando da sua própria saúde, da saúde daqueles que ama e da saúde da nossa sociedade. Do contrário, não teremos vagas para internar os que precisam, e eles vão morrer por falta de leito".
O professor de Economia da Facamp, Saulo Abouchedid, defende que a principal coisa a se fazer, tanto em nível regional quanto nacional, é combater a crise epidemiológica, porque é por meio dela que a crise econômica será combatida. "Nós não vamos recuperar economicamente enquanto a gente não controlar a crise sanitária. O governo tem que controlar a circulação de pessoas por meio do lockdown e da aceleração da vacinação. Essas são as principais medidas a serem tomadas nesse momento. E o governo tem que amparar economicamente a população afetada, principalmente os que perderam empregos ao longo da pandemia".
Mas, como o estado deve fazer isso? Segundo o especialista, por meio do auxilio emergencial e de medidas que amparem os empresários, como, por exemplo, ampliação de crédito para os pequenos e médios empresários. "O governo tem que amparar economicamente, e, ao mesmo tempo, combater a crise sanitária. Essa é a única saída. Não há segredo nesse ponto".

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