Publicado 19/02/2021 - 18h49 - Atualizado 19/02/2021 - 18h49

Por Adriana Giachini/ Correio Popular

Raquel Stucchi, infectologista: Tem dias em que a jornada chega a 12 horas

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Raquel Stucchi, infectologista: Tem dias em que a jornada chega a 12 horas

COM A PALAVRA,
RAQUEL STUCCHI
Infectologista da Unicamp faz balanço da pandemia no Brasil e avisa que estamos indo a passos de tartaruga
Entrevista com a infectologista da Unicamp Raquel Stucchi, feita por telefone, na última terça-feira, começa com ela contando que acaba de retornar ao trabalho, no ambulatório do hospital, onde atua na linha de frente no combate à covid-19, e após um breve período em férias.
“E como foi a pausa. Viajou?”, questiono, curiosa para saber se teria infringido algumas das regras de condutas sociais que tanto defende, cujo o discurso exaustivo nos últimos meses - em defesa do uso de máscaras, da higienização das mãos, da vacina e especialmente da conscientização sobre a necessidade de novos hábitos – a projetou nacionalmente.
“Viajei. Mas fui com o meu núcleo familiar, em uma casa, sem aglomeração e fazendo as refeições no local. Com todos os cuidados”, conta. “Na verdade, eu continuei trabalhando. Nas minhas férias, o que me permiti foi recusar algumas entrevistas para vocês, jornalistas”, completa.
Professora da Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp, com mais de 20 anos dedicados à medicina e ao estudo de doenças virais, Raquel atualmente integra a comissão que organiza o calendário de prioridade de vacinação entre os funcionários do Hospital da Unicamp. “Tem dias que a jornada chega a 12 horas, porque estamos falando em organizar quem é prioridade dentro da prioridade”, conta.
O início da vacinação no País, por sinal, é ponto de partida para a entrevista. Em que pese o Brasil finalmente começar a imunizar sua população, em janeiro, o tema está longe de ser esgotado, de acordo com a médica.
Ela lembra que o Brasil ainda não começou a produzir de fato suas doses, cita a dependência dos insumos do exterior, recorda que somente para prioritários serão necessárias 300 milhões de doses (para as duas etapas) e crítica a ausência de um plano nacional com contratos claros sobre compras da medicação.
Além disso, questiona se é ético, mais uma vez, ver o estado de São Paulo em uma situação um pouco mais confortável, quando comparado ao restante do País. “São Paulo já esteve à frente em outras campanhas e, matematicamente, acho que o plano de vacinação do estado de imunizar grande parte da população até junho, é possível. Mas me incomoda quando penso se esse ‘conforto’ é ético, como lidar com a desigualdade com o restante do País.”
LUTA PELA VIDA
Raquel, para quem ainda não associou, é a médica que viralizou nas redes sociais em dezembro do ano passado após se emocionar em depoimento gravado, no qual pedia para que, especialmente os jovens, tomassem cuidado com festas típicas do período. “Vejo pessoas saradas, bonitas, que se cansaram da quarentena e encontram-se na luta pela vida.”
“Infelizmente o cenário não mudou e a sociedade precisa estar consciente que ainda não podemos relaxar”, enfatiza a infectologista para quem 2021 não será diferente de 2020. “Eu sou positiva e acredito que um dia estaremos todos vacinados e a vida poderá voltar ao normal, mas até lá teremos que seguir o protocolo. E entender que não se trata politização, mas de conscientização, principalmente das autoridades políticas, que deveriam estar empenhadas em criar campanhas e formas de prevenção. Ao invés disso, o que temos é um líder que não usa máscara, fomenta aglomeração e ainda dificultou o calendário de vacinação.”
Não ter um direcionamento à ciência, um consenso de ações entre Governo Federal e estaduais, e políticas públicas que, de fato, orientem a população ao combate do covid-19 são alguns dos pontos que, de acordo com a médica, fazem que o Brasil caminhe a “passos de tartaruga” na corrida para a vacinação.
A crítica é direcionada também ao discurso negacionista das redes sociais, às fake news e informações que dificultam ou retardam a construção de calendário de vacina real e objetivo. “Não é algo que aconteça só no Brasil, mas que é mais recorrente em países onde o tema foi mais politizado. Esse clima de que todos sabem interpretar o trabalho científico é desgastante e rouba uma energia que deveria ser canalizada para outras preocupações. Um exemplo não é discutir sobre a eficiência da vacina, mas sim sobre termos vacinas seguras, que foram aprovadas por agências regulatórias reconhecidas mundialmente e não de origem de países que negam clareza nas informações.”
E AS ESCOLAS?
Questionada sobre a reabertura das escolas e a repercussão dos casos de Covid-19, em instituições de Campinas, neste ano de 2021, a médica Raquel Stucchi não só defende a volta das aulas presenciais como recorda ser contra o fechamento, desde o início.
Ela argumenta que, por ter tido o exemplo do exterior, que lidou com a pandemia meses antes, educadores e governantes tinham a informação de que, especialmente nos ensinos básico e fundamental, o nível de contágio é baixo. “O mal que estamos impondo ao desenvolvimento emocional das crianças, na minha opinião, pode deixar cicatrizes e feridas que irão ‘doer’ na fase adulta, até mesmo no mercado profissional dessa geração.”
Para ela, o mais correto seria reabrir com a conscientização de toda a comunidade das regras de proteção e segurança. “Não tem segredo. A transmissão maior é por gotículas e, nesse caso, as máscaras usadas de modo correto, com as trocas e higienização, além do álcool em gel e regras de distanciamento, que precisam vir da família, dos professores e de toda a comunidade, são o mais correto.”

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Adriana Giachini/ Correio Popular