Publicado 11/02/2021 - 16h10 - Atualizado 11/02/2021 - 16h10

Por Sérgio Castanho/ Correio Popular

S?rgio Castanho

Importação

S?rgio Castanho

Nas últimas crônicas tenho-me dedicado a escrever sobre minha formação. Muitos autores dão a essa escrita, que é um ramo da frondosa árvore histórica, o nome, creio que um tanto pedante, de "ego-história". Vá lá. Mas é preciso advertir: não se trata de autobiografia. Esta abarca variados aspectos e ângulos da construção da personalidade de quem se põe a escrever sobre si próprio. Já a tal ego-história se detém muito particularmente na formação profissional da pessoa que trilhou na vida o caminho do trabalho intelectual, como professor, como escritor, como jornalista... O historiador francês Georges Duby escreveu A história continua, um livro em que narra sua trajetória até atingir o ápice a que chegou no laboratório de Clio. Didier Éribon diz dessa obra:
"Um maravilhoso pintor que abre as portas do seu ateliê para nos contar suas paixões, dividir conosco a febre da criação, o aleatório do trabalho e da descoberta...". Outro historiador, David Hamilton, relata o making of, os bastidores de uma pesquisa que empreendeu sobre as origens da escolarização moderna, numa narrativa personalíssima que incluiu até um acaso que lhe abriu pistas para a busca.
Voltando ao início, direi que, após ter escrito sobre "os rapazes do Centro", seguindo a deixa de Eustáquio Gomes ("Os rapazes d'A Onda..."), escrevo hoje sobre "os rapazes de Mounier". Que será isso?
Para começar, direi que na primeira metade dos anos sessenta do século passado minha vida transcorria em três principais lugares: a casa materna, a universidade católica e o jornal. A casa era, com toda evidência, o abrigo primordial. A PUC era onde eu frequentava os cursos de Direito e de Ciências Sociais. E o jornal era o Diário do Povo, em que, salvo raras incursões de repórter, eu redigia notícias. Foi meu primeiro trabalho remunerado.
Na PUC em certos momentos eu assistia às aulas. Tempo maior, porém, era dedicado ao Pátio dos Leões, onde discutia temas da atualidade brasileira, ideias filosóficas, política estudantil, tudo com muita empolgação, como se os destinos da pátria estremecida, do pensamento universal, da administração do centro acadêmico ou do diretório central de estudantes dependesse dessa convivência no pátio do velho solar dos Aranha. Onde mais se comentariam os rumos do cinema italiano? Em que outra parte do universo se trataria da melhor forma de governo para o país? Presidencialismo? Parlamentarismo? Em que outro sítio se esquadrinhariam o movimento dos astros, o vaivém da matéria e da energia, a bossa nova, o jazz de Ogilvy, a pedra de Drummond no meio do nosso caminho, a pintura em Campinas do grupo Vanguarda? Onde assestaríamos nossos binóculos à procura de Deus? Haveria neste vasto mundo lugar mais propício para decidir se o comportamento do homem é livre ou determinado?
Quase tudo, naquele tempo de verdadeiro arrebatamento, se discutia no Pátio dos Leões. A discussão às vezes transcorria de maneira morna, quase pachorrenta, o Aguirre abrindo seu exemplar do Politzer e dissecando com paciência as ideias do filósofo húngaro. Outras vezes alguém subia num dos murinhos que circundavam as altas palmeiras imperiais e soltava uma saraivada de diatribes contra os políticos de plantão. Um deles, o José Maximiano da Costa Júnior, o Jucão, era o mais ardoroso orador, e só destoava do conjunto dos colegas num pequeno detalhe: nós tínhamos vinte anos, ele mais de sessenta. Tinha sido, antes de cursar a faculdade, prefeito da vizinha Limeira. Depois de formado, continuou discursando como valoroso advogado. Poucos anos depois, contudo, caiu fulminado por uma desordem cardíaca no meio de uma sustentação oral no prédio azevediano do Tribunal de Justiça de São Paulo. Deixou saudade. Era como que o espírito do Pátio dos Leões.
Mas, senhor cronista, vosmecê não prometeu falar dos rapazes do Mounier? Vou falar. Embora já tenha a voz embargada, não do canto nem da gente até agora cantada, mas de pura saudade, essa palavra que dizem intraduzível para outros idiomas.
Éramos um grupo de rapazes, todos mais ou menos ligados à Ação Católica, que resolveram se reunir em torno de um monumento ao saber, um sacerdote carismático e sábio: o padre José Narciso Vieira Ehrenberg. Capelão de uma universidade católica, nem por isso ficava lá no alto, deitando cátedra de um páramo inacessível. Era o padre Narciso, próximo à gente, vivia como nós, em vez da batina preta que afugentava usava um terno de linho bege com colarinho eclesiástico, o clergyman, fumava, era chegado num chope, magro, elegante, tinha sido um tenista para fazer sombra ao Guga - e, valham-me os céus!, tinha uma cultura que, pelo menos para mim, não tinha par nesse mundo.
Por sugestão já não me lembro de quem, talvez do próprio padre Narciso, resolvemos que nos reuniríamos uma vez por semana para discutir a obra, as ideias, os avanços teóricos e as ousadias sociais do francês Emmanuel Mounier. E foi assim que o José Luiz Sigrist, o Disnei Francisco Scornaienchi, o Jofley Peres Filipin, o Paulo de Tarso Barbosa Duarte, o Augusto Mariano Dias Neto, o Marcel Dantas Campos, o padre Narciso e este escriba reuniam-se na salinha do capelão, ao lado da reitoria de monsenhor Salim, para ler e operar sobre os escritos do autor do Personalismo. Mas como, se nem mesmo este livro havia em português? O escriba aqui, metido a sebo, ofereceu-se para traduzir do francês os textos, de início só de Mounier, logo também de TeilhardChardin, como Le Milieu Divin.
Resultado? Direi apenas que todos, sem exceção, a não ser a que me exige a modéstia, produziram na vida obra de valia cultural. Algum dia eu conto. Só quero deixar registrado que muitos levaram na viagem sem volta com o barco da morte de Lawrence esse cabedal maravilhoso. Padre Narciso, Sigrist, Disnei e Jofley, como diz o poeta, "já foram pra mais não vir, por esse rio encoberto".

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Sérgio Castanho/ Correio Popular