Publicado 08/02/2021 - 12h02 - Atualizado 08/02/2021 - 12h02

Por Antônio Contente

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Um quarto, independentemente do tamanho, é composto por arrumações e desarrumações; mas, geralmente, apenas uma janela. Como aposento é dos mais importantes não só da casa como das nossas vidas. Pois, afinal, é nele que passamos grande parte dela. Só dormindo (e nem falo do sono eterno que em suas dependências muitas vezes ocorre), das 24 horas do dia são, pelo menos, oito. E há instantes de trabalho, de ler, de pensar, de fazer amor; também dele sentir falta para quem é só. Ou mal acompanhado...
No meu pobre quarto, neste tugúrio que me protege das intempéries, as desarrumações, mesmo quando arrumações se tornam, permanecem, na paisagem, imutáveis. Ali está o guarda-roupa, a bancada com livros, as embalagens de remédios, ventilador, cama, uma antiga poltrona sobre a qual coloco a mala grande de viagens e, na ilharga, embaixo, a menor, de mão. Há também, aqui e ali, CDs de filmes maravilhosos que me foram presenteados pelo empresário Pedro Porto, e a importante mesa com o computador. Peça talvez a mais relevante, pois nela catalogo sonhos; como as buscas dos meus barcos, velas, rios e a floresta Amazônica, onde nasci. Nele também estou escrevendo um romance cujo nome é O Que Escondem as Neblinas. Ah, sim, e também as pequenas grandes coisas que gosto de dizer às pessoas amadas. Morem elas em Kuala Lumpur, na Malásia, ou ali mesmo na charmosa rua Patativa, na Vila Teixeira...
Porém, se no quarto em si as coisas dificilmente mudam, é pela janela que, verifico, se colocam cenários que sendo os mesmos, nunca os mesmos são. A pequena abertura na parede do quarto, afinal, se abre para o tudo, enquanto a porta o que tem adiante é apenas outro instante da casa. Diante dela só transitam silêncios ou passos, enquanto a janela, posta sobre o finito, é caminho amplamente aberto para o infinito. A cada manhã, quando a abro, nunca é rotineiro o que me mostra. Ontem, por exemplo, assim que a escancarei vi logo que a luz que depositou em meus pobres olhos não era a de ontem ou de anteontem. Miro o chão e, sobre o cimento molhado da chuva forte da madrugada, caiam só os pingos da suavidade do seu término. Ora, amigos, vamos falar a verdade, chuvisco sobre chão molhado pode não ser a coisa mais linda do mundo; mas linda é, na simplicidade de cena que poderia ser enquadrada em moldura.
Abrir janelas pela manhã transporta para a certeza do quanto o mundo é vário. Se há ventos, brisas, aragens, lá está o acenar das folhas das goiabeiras no jardinzinho ao lado da garagem; ou do se arrastar pelo chão aquelas que caem para, morrendo, dar à vida continuidade. Já vi, em algumas manhãs, passarinhos no beiral, recebi grasnados de maritacas quando as goiabas amarelecem, e confiro que o sol, sempre a nascer no leste, deposita sobre muros e copas de sibipirunas do lado de fora do portão variadas nuances de luzes.
Janelas nos dão, enquanto o interior dos quartos retêm vagares já vividos, esperando as luzes que chegam para o canto de novas viagens. A minha janelinha, nesta terreníssima Chácara da Barra, me dá em certas manhãs, coincidentemente sempre de domingos, velas azuis lá longe nos horizontes que apenas os meus olhos percorrem. Já me pousou em aeroportos que me levaram a planícies e montanhas, e me ampliou muitos abraços; que, mais do que me reter ternuras nas entranhas, embalam sentimentos d'alma que são guardados para dar melhor significado à sua apregoada eternidade. Você acredita na eternidade d'alma? Eu? Ah, sem dúvida, especialmente dos passarinhos, como os suís e pipiras que viviam no quintal de minha casa em Belém; ou das gaivotas, garças e guarás, maravilhas celestes nos seus voos sobre rios e igarapés...
Sim, é impossível deixar de dizer que esta janela que agora ilumina o teclado no qual escrevo me dá, com muita constância, o bom respirar no passar das tardes. Nelas, ao contrário das manhãs, moram apaziguamentos. Nelas os chamamentos para o amor são sempre canções; pois soltar com as mãos em transe os cabelos da moça que chegou, só os pós-meio-dia santificam o perfume que vai renascer no futuro, na doce ampliação de cada saudade. Perfumes e saudades são realidades irmãs. Que eclodem nas tardes, se ampliam nas noites e se diluem nas manhãs. Pois estas nada mais abrigam do que horas de preparo.
Nestes tempos esquisitos que vivemos, mal sei que dia é hoje, mas faz manhã, e a janela me acena. Na verdade, nunca saio da casa pela porta, mas por este peitoril abençoado por respingos de chuva, colorido por raios de sol e acalentado por cantos de passarinhos. Voemos, amigos. É hora de percorrer os chamamentos que estão ali, bem ali; além de nossas janelas. Bom dia. 

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Antônio Contente