Publicado 02/02/2021 - 13h15 - Atualizado 02/02/2021 - 13h15

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antonio contente

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antonio contente

Ora, amigos, nem pensem, nem questionem sobre as possibilidades de ser anacrônico, numa época de tantas tecnologias que não impedem inesperadas pestes que seguem matando hoje como matavam nos tempos medievais, falar sobre essa coisa simples e linda chamada luar. Escrevo com antecedência, na segunda-feira, mas sei que logo mais, na quinta, que quando sair este texto já passou, tivemos aquilo que os antigos chamavam de plenilúnio, derramado em plenitude e beleza.
Teoricamente, sobre todos; porém, na realidade, apenas sobre alguns. Pois só certos olhos conservam eu diria o quase doce reflexo de se levantar para o céu. Quando a bola celeste que para mim segue sendo a "rainha da noite" se debruça sobre o mundo.
 
Mesmo sem ser um licantropo (não gosto da palavra lobisomem) sei quando é noite de lua cheia mesmo sem olhar nos calendários. Posso estar trancado no quarto, janelas fechadas, que há o chamamento. E o impulso de liberar o peitoril para a noite me empurra como uma ordem. E logo estou colocando os braços para fora, na esperança de que sejam acariciados pelos raios do luar. E saio.
 
Gosto, nas noites de lua cheia, de andar, de vagar pelo bairro. Como se fosse um ser saído de algum livro de histórias bizarras, caminho lento pelas ruas iluminadas não mais pelos postes, mas pelo que vem das entranhas do céu.
Na próxima quinta-feira redescobrirei, como em muitas noites do ano que passou, o quanto, agora, se tornou ainda mais importante se perder em ruas e caminhos mostrados apenas pela tênue luminosidade do infinito.
A lua, de alguma forma, não é apenas parte dele, é ele em certa integralidade; pela capacidade de remeter alguns seres humanos aos sonhos, aguçando sensibilidades, burilando capacidades de criação. Porém, sobretudo, enfeitando cenários para o amor, construído sobre o silêncio de um mundo que a luz fria faz emergir com certo toque de magia.
Sim, eu dizia que agora, como nunca, vagar pelas ruas silenciosas numa noite de lua cheia se tornou ainda mais importante. De repente, estamos libertos. Nada de máscaras sobre os rostos, nada de medos, apenas a entrega de poder andar livremente sobre as calçadas. Apalpar troncos de sibipirunas, ou até parar para, diante de algum jardim em frente de simpática casinha, me colocar, como se orar fosse, diante de uma roseira plena de flores. Cujas pétalas serão ornadas pelos pingos de orvalho; que o plenilúnio transformará em diamantes.
Saindo deste tugúrio que me abriga das intempéries, costumo subir uma rua que leva em direção ao Shopping Center Iguatemi. Logo os espaços vão se abrindo, até que, na altura da rua José Bonifácio, mais alta, posso ver no cenário um pouco mais baixo, à frente, a verdadeira explosão do luar na sua ânsia de espaços abertos.
Como se aquilo fosse um mar, que é onde a lua se mira, tudo chega a meus pobres olhos como um derramamento de prata sobre a terra. Vejo, até, telhados de algumas mansões, lá longe, a deixar que escorra, sobre seus beirais, a enluarada circunstância. Adiante, ainda existem áreas limpas de construções, com várias elevações cobertas de verde. Cor esta que, na noite de plenitude do satélite, varia de quase branco ao róseo; do qual nos vem a sensação de que dele emanam perfumes.
Nas noites de lua cheia as estrelas parece que somem. A grandeza do céu fica totalmente tomada pela luminosa maravilha que, como se sabe, sem que se perceba de pronto, vai mexendo com as coisas na terra. Nas luas cheias as marés são mais altas, o sazonar de certos frutos se veste em cores especiais, e até exóticos insetos, como variadas formigas, só então saem de suas tocas para festejar a realidade da vida.
Na lua cheia do mês passado me entreguei à sua permanência sem tomar conhecimento das horas. Pensei em luares que vi em outros tempos, nos amores que por ele foram benzidos, e no efeito que tiveram lapidando instantes que, à luz do sol, seriam apenas instantes. A acariciar corpos que, na mesma circunstância, apenas corpos seriam.
Por fim, catedrático em luares que, pretensiosamente, me considero, nunca, jamais, em tempo algum, permitirei que o encantamento de uma cheia me deixe imerso nela até que o sol comece a tingir o céu lá longe, no rumo leste. Sempre regresso à casa com a sensação de que, como dizia a letra de musiquinha dos velhos tempos, apenas tomei um banho de lua. Para, por fim, submergindo nos lençóis, dormir com a sensação de que o mundo está limpo, de que as pessoas podem, simplesmente, ir e vir. O que, em ultima instância, pode até não transformar o despertar em decepção.
Mesmo isso significando a nossa devolução a um mundo completamente transtornado. Do qual só falta nos arrancarem, também, a possibilidade de entrega a uma completa e constitucionalissimamente bela lua cheia. Não esqueça, amigo, como na quinta-feira passada, outras virão. Curta o plenilúnio, chame a prateada luz que o céu nos manda de plenilúnio. Antes que uma nova peste, vinda da China ou sabe-se lá de onde, acabe de vez com tudo que faz a vida valer a pena ser vivida.

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