Publicado 14/01/2021 - 11h01 - Atualizado 14/01/2021 - 11h02

Por Estadão Conteudo

Bolsonaro argumenta que agronegócio está 'bombando' e, por isso, deputados deviam apoiar Arthur Lira

Reprodução/Redes Sociais

Bolsonaro argumenta que agronegócio está 'bombando' e, por isso, deputados deviam apoiar Arthur Lira

As cobranças do presidente Jair Bolsonaro pelo apoio da bancada ruralista ao deputado Arthur Lira (Progressistas-AL), seu candidato à presidência da Câmara, desagradaram a integrantes da Frente Parlamentar Agropecuária (FPA). Para parlamentares do grupo, Bolsonaro erra ao atribuir os resultados do setor apenas ao governo e ao usar esse argumento para exigir adesão ao seu candidato na eleição do Legislativo.
"É um erro ingênuo do governo. A FPA não é partido, isso é um erro político", disse o líder da bancada, deputado Alceu Moreira (MDB-RS). Moreira foi um dos que declararam apoio a Baleia Rossi (MDB-SP), candidato do atual presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ).
Em conversa com apoiadores segunda-feira, Bolsonaro afirmou que o campo "nunca teve um tratamento tão justo e honesto" quanto em seu governo. Segundo ele, o agronegócio está "bombando" e, por isso, parlamentares da bancada deveriam apoiar o candidato do governo. "Alguns parlamentares do campo, ao invés de apoiar o nosso candidato, estão apoiando outro candidato. Eu não entendo", disse o presidente.
O presidente voltou ao assunto na terça-feira com uma nova cobrança pública e argumentou que Lira permitirá o avanço da reforma agrária e da regularização fundiária. "Se fizer a regularização fundiária, nós vamos saber de quem é o CPF daquela pessoa daquela terra que desmatou ou pegou fogo, e o atual presidente da Câmara ainda não permitiu que isso fosse votado", disse Bolsonaro. Uma medida provisória sobre o tema enfrentou resistência de parlamentares e foi apelidada de MP da Grilagem. Sem acordo para votação, o texto perdeu a validade no ano passado.
O líder da bancada ruralista rebateu os argumentos de Bolsonaro e criticou o fato de o chefe do Executivo usar políticas de governo para cobrar apoio numa eleição interna da Câmara. "O sucesso do agro tem a participação do governo, com o brilhantismo da ministra da Agricultura Tereza Cristina e também com a atuação da Frente, mas quem merece os aplausos é sua excelência, o produtor rural", declarou Moreira. Para ele, as bandeiras são convergentes e a disputa no Legislativo não podem se transformar numa disputa entre Maia e Bolsonaro.
'Chantagem'
Para o deputado Kim Kataguiri (DEM-SP), que faz parte da Frente Parlamentar Agropecuária (FPA), o que Bolsonaro faz é "chantagem". "A bancada é suprapartidária e independente. Qualquer tentativa de torná-la submissa a qualquer liderança política gerará sentimento de corpo contra essa liderança", disse.
A FPA tem 241 deputados. Entre eles, estão tanto aliados de Baleia quanto de Lira - os dois, inclusive, fazem parte da bancada ruralista.
Aliado de Lira e um dos vice-presidentes do grupo, o deputado Evair de Melo (Progressistas-ES) negou que haja qualquer crise com o governo por causa das declarações do presidente. "Não tem apoio formal da frente, isso não é um assunto para a bancada tratar, por isso, não tem crise instalada", afirmou. Melo disse, no entanto, que a maioria dos deputados na bancada já apoia o candidato de seu partido.
O deputado Sérgio Souza (MDB-PR), que assumirá a presidência da bancada a partir do dia 22 no lugar de Moreira, minimizou as cobranças do presidente. "É o estilo de Bolsonaro. Ele fala o que pensa. Não há um racha dentro da FPA, um afastamento do governo, não há. As pautas do governo e da FPA são praticamente as mesmas", disse Souza. Segundo ele, a preocupação do grupo é que tanto Baleia quanto Lira se comprometam em votar projetos defendidos pelos ruralistas. "Temos um papel de ter uma pauta, defendemos essa pauta e vamos cobrar dos candidatos o compromisso com isso."
Presidente se reúne com deputados
O presidente Jair Bolsonaro reservou a manhã de ontem para receber deputados federais em seu gabinete, no Palácio do Planalto. Ao todo, foram três reuniões diferentes, com oito parlamentares. O assunto dos encontros não foi divulgado oficialmente, mas participantes admitem que as eleições no Congresso, marcadas para fevereiro, esteve entre os temas. Bolsonaro tem feito campanha a favor de Arthur Lira (Progressistas-AL), líder do Centrão que disputa o comando da Câmara contra Baleia Rossi (MDB-SP), do grupo de Rodrigo Maia (DEM-RJ), atual presidente da Casa.
Um dos que participaram do encontro foi o deputado Wilson Santiago (PTB-PB). Seu partido tende a apoiar Lira, mas a bancada ainda não bateu o martelo. "É natural que se toque nesses assuntos (eleições na Câmara). Mas não houve, por parte do presidente, nenhuma cobrança no que se refere a posicionamento partidário", afirmou o deputado na saída do Planalto.
Dos 11 parlamentares que constavam originalmente na agenda presidencial, cinco fazem parte da bancada ruralista: Emanuel Pinheiro Neto (PTB-MT), Paulo Bengtson (PTB-PA), Nivaldo Albuquerque (PTB-AL), Marcelo Moraes (PTB-RS) e Capitão Wagner (PROS-CE). Além dos parlamentares do PTB, Bolsonaro recebeu ontem o deputado Capitão Wagner (Pros-CE) e Osmar Terra (MDB-RS), seu ex-ministro da Cidadania e correligionário de Baleia, mas que deve apoiar Lira na disputa. O deputado Fred Costa (Patriotas-MG) também constava na agenda, mas ele disse não ter comparecido ao encontro. Patriota e Pros também estão ao lado do candidato do governo.
Não é comum o envolvimento direto do presidente nas disputas do Legislativo, função que geralmente é delegada a auxiliares. Bolsonaro inova ao negociar com deputados no "varejo", sem a presença de líderes ou dirigentes das siglas, e se expõe ao cobrar publicamente parlamentares a votarem em seu candidato.
O articulador político do Planalto, ministro Luiz Eduardo Ramos, da Secretaria de Governo, também participou dos encontros. Foi no gabinete do general, no 4° andar do Planalto, no mês passado, que deputados participaram de reuniões para ouvir os argumentos do governo em defesa da eleição de Lira. De lá, saíram com promessas de emendas parlamentares, algumas além daquelas a que já têm direito, e de cargos a preencher em seus redutos eleitorais.

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