Publicado 17/01/2021 - 09h14 - Atualizado // - h

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Nada contra ser o contrário na vida. Qual é o problema de ser diferente de outros viventes? Há quem goste de tal cor e eu gosto de azul clarinho — ou de qualquer outra cor bem clara. Há quem não goste de Deus e nem do Diabo. Respeito a ambos, pois são resultado da Natureza Divina. E Humana. E o tempo me leva por aí e sigo seus passos assim como uma criança segura a mão de sua mãe. Assim sem medo e apenas curioso pelas coisas da vida. A vida é segurar as mãos do tempo, entender os caminhos que se se apresentam, os buracos das calçadas, os cachorros mansos e bravos, tentar entender que a vida não é só empinar papagaio ou capucheta, jogar bolinha de gude, rodar pião ou andar de carrinho de rolimã. Viver é coisa de perigo. É o saber atravessar a rua, é o respeitar o que pertence ao outro, é pedir obrigado e por favor. E agradecer. Viver é um agradecimento perenal. E isso nos faz sentir bem, assim como agradecemos pelos sambas do Paulo César Pinheiro, Paulinho da Viola, e de um outro Paulinho, o saudoso Nogueira, campineiro de boa cepa.
Tive um segundo pai, outro saudoso Osvaldo Guilherme, que, uma das canções gravadas por Maísa, escreveu que a saudade é a última notícia que tenho de você. E com tal frase derrubou a frase que não havia como explicar a saudade. Augusto Corbert mandou-a a um dicionarista (não lembro qual) e assim a saudade continua sem explicação. E me tanto faz se a saudade ainda permanece sem explicação em nossos dicionários. Mesmo porque dicionários não são feitos para explicar o que seja saudade, luar e sertão. Ninguém sabe nada da vida dos grandes compositores da cidade. Vivi ao lado deles durante anos e conheci cada nota de suas canções – além de viver suas histórias. Muitos se foram antes do tempo e nem vale a pena dizer o que deixaram para a gente lembra-los.
Quero apenas ficar cipó em mangueira. Quem quiser saber de mim que olhe um velho cipó enrolado numa mangueira. É lá que quero estar quando daqui partir para uma canção de ar, de pássaro, borboleta ou mosquito. Quero apenas seguir o destino dos nervos e carnes, e sei lá se para o colo de Deus ou do Diabo. Em qualquer lugar levarei o prazer de ter vivido ao lado de uma linda moça que, por algum motivo que desconheço, resolveu gostar de mim. E é com essa força nagô que vou enfrentar o meu destino final, e, com isso, enfrentar o juízo divinal. Nem Deus e o Diabo serão donos das minhas palavras. Sempre serei senhor de mim mesmo. As minhas palavras, por mais toscas que tenham sido, sobreviverão ao resto dos meus ossos — e assim serei eterno a quem quiser conhecer o que fiz e escrevi, minhas canções, o que cantei, o que conversei pelas esquinas, pelos balcões dos bares, com os poetas das ruas, com os livros que comprei a troco de uma cerveja.
Sou um resto da minha existência quando chegar o meu maior sucesso existencial. Serei afinal feliz diante do que fui, um bom amigo, um bom pai, e, mais que isso, digno de ser amado por uma mulher. E é assim, do mesmo jeito, que lembro e reverencio os amigos que foram embora antes do combinado, como sempre diz Rolando Boldrin. Deixaram suas palavras e prosas e seguiram seus caminhos divinos, e delas tenho orgulho de ter ouvido e participado.
Isto tudo é prosa da boa. Eles estiveram comigo e estive com eles. Valeu a pena. Valeu a cachaça. Valeram as palavras e as dores de cada um. Valeu cada noite repartida em uma mesa de bar. Valeu toda a prosa em uma esquina. Valeu estar com eles todos. E assim espero que tenha valido a pena eu ter sido tão amado por uma companheira e, mais que isso, pelos meus filhos e netos. E também pelas divinas coisas que um dia irei conhecer. Bom dia.

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