Publicado 14/01/2021 - 08h23 - Atualizado 14/01/2021 - 08h24

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Ajeito-me como posso na solidão das árvores de Vargem Grande do Sul. É uma solidão boa, atarracada, e nem um pouco tristonha de qualquer solidão dos homens. Árvores têm uma solidão própria e peculiar. Elas são naturais com suas folhas, flores e frutos. Elas seguem apenas o caminho natural de serem árvores, folhas, flores e frutos — além das sementes que seguirão a mesma solidão de suas madres.
Solidão são das irmãs de caridade — e neste exato momento a luz final da tarde me entorpece os olhos — pois escrevo à luz da tarde que vaza os meus olhos, quase me cegando e me separando da luz que necessito. A fé das irmãs é a luz que carregam como lamparinas para si mesmas — e que servem para iluminar suas orações. E todas elas nos alumiam em nossas dores, amarguras e prazeres. Sejam as irmãs abençoadas pela Natureza eterna, pois bem elas merecem suas próprias dores e divina fé — pois a fé divina é única e única.
E é assim que vejo as freiras caminhando pelas ruas da cidade, altivas, corajosas, e muito bem temperada na coragem que carregam dentro de si, sem orgulho, apenas carregam aquilo no que acreditam.
Há quem ache a vida de fé uma perda de tempo para viver a vida que a Natureza nos oferece. Esse tipo de gente não merece sequer olhar uma flor na calçada, e muito menos se enternecer por um cachorro faminto e, é claro, por uma criança abandonada em uma esquina da cidade, ela mesma, a esquina, abandonada e sem sentido. É doído escrever essas coisas, dessa gente que passa olhando apenas vitrines e guloseimas das padarias.
E que tal a solidão do catador de papel e que de si tem apenas uma carroça ou uma enorme trouxa que arrasta pelas ruas da cidade? Ele não está só pelo que leva por aí, a porcaria que a cidade joga nas calçadas — papelões de lojas, por exemplo, aos montes, e que o catador tem de desmontar para levar embora. Por que as lojas já não deixam as caixas de papelão desmontadas, bem dobradas, e, se possível, bem amarradas para facilitar a solidão do catador, que fará o serviço que ninguém irá se oferecer — nem mesmo uma garrafa de água ou um prato de comida — que ele mesmo paga com o pouco que ganha com o que vende em alguma cooperativa que o paga pouco pelo o que ele faz muito.
Isso é solidão, meu raro leitor, e mesmo assim o catador volta ao seu barraco — ou à marquise — para o colo da sua companheira que, como ele, também andou solitária pelas esquinas e lixeiras da cidade; e muitas vezes arrastando um filho ou levando outro na barriga.
Solidão não tem nada como estar a sós. Solidão, essa pantera, como já escreveu o saudoso cronista Antônio Maria, tem muito a ver com a vida solitária de alguém que vive sozinho. E é ele o autor de quem ninguém me ama, magistralmente gravado por Nate King Cole, em portunhol — um novo sotaque que ele mesmo criou.
Solidão não é estar sozinho. Solidão, segundo escreveu o compositor e cronista Antônio Maria, é viver com uma pantera. E o jornalista e compositor campineiro, Luiz Ceará, escreveu que a solidão não tem tamanho, que é só dor, só desengano, uma canção magistralmente interpretada pela eterna Elza Soares. A melodia, aliás, começa com um grave que não era característica da cantora. Perguntada a respeito sobre o grave que ela usou na canção, Luiz Ceará recebeu como resposta que aquilo era coisa que vinha do útero.
Solidão é coisa de responsa, é para profissional. Fico no mato e a solidão está ao meu lado. O violão está no meu peito e a solidão está em suas cordas. A única coisa boa de se evitar a solidão é quando a companheira volta para casa. E aí tudo se ilumina, se cria; é a alegria voltando como o circo retorna para o nosso prazer. É isso. Pode ter sido uma prosa triste, mas é assim a conversa de quem da trela para o mato.
Bom dia
Zeza Amaral é jornalista, escritor e músico

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