Publicado 10/01/2021 - 09h37 - Atualizado // - h

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Estou cansado de solidão, preso em mim mesmo. Tenho varanda florida, uma companheira e um passarinho belga - a quem chamamos de Levi Ramiro; tivemos outro, um roller, o Dércio Marques. Ambos têm nome de violeiros amigos e não só por isso: é que quando eles começam a cantar acabam torrando o saco de café da boa e santa paciência. E porque lembrei do violeiro Levi Ramiro, fiz uma história para que ele pudesse fazer o que quisesse com ela. Inclusive jogar fora. A história é de paixão de um homem e uma vida de solidão. É o amor de um velho tabaréu por uma mangueira. E que começa e termina assim.

A mangueira e eu
Velha mangueira em solidão na beira da estrada. E sob ela vou traçando velhas prosas, e vou contando cada folha que tem ela. A mula velha pasta ali por perto. Sem arreio nem bridão. Segue quieta ouvindo a nossa prosa e assim se alimenta do capim da emoção.
Velha mula
Velha mangueira
Quanta saudade tenho comigo
Foram muitas as tardes que tivemos
Eu e ela e a mangueira, enquanto ela me prometia paixão.
E veio o tempo que nunca se renega
Ela foi embora e me deixou sozinho
E cá estou com a minha mula velha
A saudade e a sombra de um mangueirão
Tão velho como eu só ganhando e só apenas ganhando os carinhos dos pardais da região.
Cabelos brancos
Muitas estradas poeirentas
Já andei muito por aí
Levando as mulas da saudade atrás de mim.
E vieram também as folhas da velha mangueira
Assim como se fosse velha amiga que era e sempre foi.
E derribei meu chapéu que de sombra não precisava
E segui a minha vida sem nada a pedir e nem precisar
Só o que tinha era o saco sujo onde carregava a minha viola e um jogo de corda de viola pra quando eu chegava em casa, na minha palhoça, onde esquentava um feijão e a saudade daquela mangueira e lembrando das suas folhas que eram os beijos dela...
Hoje nem lembro dela. Nem do nome e nem da cor dos olhos dela
Só lembro da mangueira e passarinhos. E da boa sombra que ela me dava
Como se fosse um carinho
Amor de mangueira
Meu amor, a minha fruta
Minha mula sem ferreiro
É tudo o que tenho na vida
E a minha viola, é pra minha mangueira
Senhora da minha vida
Que me alivia
De uma velha saudade
Pois hoje estou apaixonado
Por uma velha e fiel mangueira.
E só o que falta são as garras de um passarinho e um bico delicado
Só pra lhe dar carinho.
Fim da história.
E já que estou no embalo do embornal das palavras, lembrei de mandar uma outra letra para o velho violeiro. É sobre a vida e a enxada. E vamos em frente que atrás vem gente.
Enxada e um café
Coisa melhor é uma mulher
É a terra semeada
É o milho e a cana
É o santo rezado
Ao pé da cama
Meu Santo Antônio
Meu Santo de devoção
Cuida da companheira, da minha enxada e estradão
Cuida da minha viola
Não deixe que a suas cordas, tão doloridas, se machuquem mais não
E cuide das minhas palmas da mão
Que dela preciso ganhar o meu pão
Ai! Ai! Meu querido Santo Antônio
Faça que eu consiga seguir
Ao lado da companheira
Da moça que bem me trata
E da viola que faz da minha vida
Uma enxada afiada
Levando um verso bonito pra moça
Que cuida de mim
Pois é ela quem capina a minha vida
Deixando a minha viola florida e feliz.
Bom dia, meu raro leitor.

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