Publicado 07/01/2021 - 08h17 - Atualizado 07/01/2021 - 08h17

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Os dias seguem iguais. E assim seguem as paixões, os beijos dos namorados, os braços dados dos velhos casais, os guarda chuvas preventivos, tudo segue sempre igual.
E todos os dias as plantas têm de ser regadas, catadas de carrunchos, acarinhadas pelas suas flores, tudo é igual assim como acordamos e vamos preparar o café da manhã, nos alimentar, nos servir do prazer de uma boa mesa, de uma boa prosa, de falar do novo dia que chegou e, quiçá, agradecer pela boa chuva que veio de madrugada e elegante, sem incomodar o sono da cidade — o que, na verdade, não atrapalha em nada. O importante é o aroma do café e do pão esquentado na chapa da frigideira, que, às vezes, dá uma torradinha chata que tem de ser raspada por uma faquinha própria para tal infortúnio matinal.
O novo ano tem de ser raspado do tempo queimado do ano anterior. Teve lá o seu aroma e seus dissabores, máscaras, álcool gel, ausência de abraços, aniversários solitários e, principalmente, o Natal e o fim de ano. Muita gente, bem sabemos, foi fazer festança por aí e quem vai pagar os custos hospitalares seremos nós que nos isolamos e que cuidamos de não infectar ou ser infectado, hein? Por que os desmascarados e aglomerados não poderiam arcar com os custos hospitalares dos leitos destinados a doentes de gripe, pneumonia, anemia, cardíacos, hipertensos, enfim, gente de doença normal, que pagam seus impostos em dia? Desmascarados e aglomerados ficam doentes e vão ocupar leitos de velhos trabalhadores que tanto trabalharam para ter um mínimo de assistência médica. E ainda com direito a aplausos de enfermeiros quando saem curados depois de meses de trabalho exaustivo de profissionais que poderiam estar ocupados com outras doenças.
Não existe vacina contra a ignorância. Existisse uma e o presidente seria o primeiro a receber a primeira dose. E assim estamos seguindo para os primeiros dias do novo ano. E haja festa e um presidente que se aglomera em qualquer lugar.
Não faço ideia do que os levam a cometer tal desatino cívico. Apenas trato de cuidar e lavar as minhas máscaras e ficar quieto em casa; quando muito dou uma pequena caminhada pelos arredores da minha casa e mascarado vou cantando aquela velha marcha de Zé Keti, Máscara Negra. É um prazer pequeno que me dá voltar para casa e sabendo que muitos mascarados também farão o mesmo.
E não vamos ter carnaval, confetes e serpentinas. E a velha escola do saudoso Beiçola, a Estrela D'Alva, pela primeira vez não encantará um menino do Taquaral que passava a noite esquentando com tochas de papel jornal os couros dos surdos, pandeiros e malacachetas - e tudo isso para ganhar o som maravilhoso de uma bateria de cinquenta batuqueiros e ver maravilhado a evolução dos passistas e do casal que carregava o porta estandarte azul e branco - no ponto final do bonde quatro, bem em frente à loja do ferreiro Armandinho, cuja araponga fazia contra-ponto ao som das frigideiras.
Ensaiei a minha vida desde então. E a moça mais tímida da Ciaesa, uma grande empresa têxtil, era a minha passista de paixão. Nunca soube o seu nome e apenas a admirava de longe, quase a um quarteirão de distância. E isso fazia todas as tardes, quando a sirene da empresa encerrava o trabalho. Isso até o dia em que apareceu um rapaz que a pegou pelo braço e a minha escola de samba desapareceu.
Mas mesmo assim os dias seguiram iguais e vieram novos carinhos, novas namoradas, novos adeuses, dores e insônias.
Hoje estou em calma e vivendo um bom amor. Estamos em pandemia e cuidando um do outro, da máscara, do gel, dos cuidados com os alimentos, e, mais que isso, aguardando a Net-Claro reinstalar o sistema em casa. E tudo demora e nos obriga a exercitar a dita paciência. Mas para quem não vai ter Tomá Na Banda até que vale a pena ter paciência. É isso aí.
Bom dia.
Zeza Amaral é jornalista, escritor e músico

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