Publicado 03/01/2021 - 09h33 - Atualizado 03/01/2021 - 15h23

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2020 já era, assim como muitos políticos, e vou tratando de cuidar do novo ano que ganhei. E já vou avisando que tenho coisa mais importante a tratar na vida. Ninguém sabe da minha porfia, da minha lida com a vida, das coisas nas quais acredito. Mas bem sei que sou só um contador de histórias e trovador das minhas próprias chuvas de palavras.
Todo santo dia acordo e fico lidando com os acertos e erros que andei fazendo pela vida. Nunca tive gosto de sonhar dormindo. Gosto mesmo é de pensar acordado, sonhar com o meu time campeão e com os tempos em que eu era um bacuri no colo da minha mãe. E é disso que me lembro. E lembro do canivete afiado do meu avô, limpo e bem afiado pelo fumo goiano, dos médios, e que hoje anda comigo, única coisa que dele ganhei de herança. Meu umbigo foi cortado por ele e dele nunca mais tive notícia, do umbigo, é claro. Ou foi mumificado ou serviu de repasto em algum formigueiro, como era comum na época.
Adolfo Guilherme, meu dito avô, inventava muita história – talvez por conta disso eu tenha virado também um inventor de prosas, escrivão ou espião da cidade – ou espião de mim mesmo – ofício que não pedi e nem desejei. Apenas faço o que sei e algumas das histórias podem ser amargas – as quais são reclamadas por amigos e algum raro leitor. E se tivesse que sonhar gostaria que o meu avô soubesse que mal e mal aprendi a tirar umas notas na viola, essa coisa de gente sem eira nem beira, como falam por aí.
Meu avô não cantava. Era só um contador de histórias. E foi um dos melhores. Mas o avô se foi e um vizinho amigo, Fuad Buainain, me ensinou como se vestia um homem defunto e bom. E ficamos olhando, sem dor, o corpo daquele velho que participou da nossa existência, e pensamos quem iria vestir, com elegância, nossos corpos para a derradeira partida. E foi assim, quarenta e tantos anos atrás, que espiei o meu destino.
E estou aqui escrevendo minhas histórias e tentando alegrar o raro leitor. São tempos estranhos para falar em alegrar a quem quer que seja. O palhaço Fredô, do saudoso Circo Teatro Irmãos Almeida tinha a mágica de apenas entrar no palco (o circo não tinha picadeiro) e com um simples olhar fazer a plateia gargalhar. Walter de Almeida nos encantava com a sua música, tão elegante e saudoso como Armando Manzanero, recém partido. Ouvi, portanto, grandes cantores.
Não reclamo do ano passado e nem dos muitos que se foram. Cada um trouxe alegria, dores e paixões. E muita festa e abraços nas repúblicas da cidade. O Bate Papo nasceu quando acabou a República Palácio, no Largo Santa Cruz. Prédio vazio, lá só poderia ser instalado um boteco. E assim foi feito. 
E muitas paixões e canções nasceram na Adega Florence que, de um jeito ou outro, encantou a fria esquina das ruas Carolina Florence e Primeiro de Março.
E foi na Adega que, em 1976, Adoniran Barbosa jantou frango com polenta. Ele se encantou com a Elizabete Ribeiro e enquanto segurava o garfo com a direita, com a esquerda segurava a mão daquela moça que hoje manda-em-mim. Cézinha foi quem teve a ideia de trazer Adoniran para uma apresentação em Campinas só para amigos (os quais contribuíram com um generoso cachê). Estavam todos felizes com tão ilustre pessoa. A apresentação alcançou tanta repercussão que resolvemos fazer o espetáculo no Centro de Convivência, cujo aval foi dado pelo saudoso Carlos Brágio, diretor de programação do espaço. A casa lotou. E todo dinheiro arrecadado foi entregue ao Adoniran –ou melhor, à sua esposa, em São Paulo, para onde o levamos de volta. São e salvo. E até hoje a memória de prosear com o velho compositor ainda me comove. Anos depois, Pezão abriu um bar chamado Esquina de Tal, fincado entre as ruas Luzitana e Ferreira Penteado. E lá pudemos assistir Paulo César Pinheiro e Jamelão.
Não sei se a nova Secretária de Cultura de Campinas entende dessas coisas populares e se o seu currículo profissional acadêmico poderá auxiliar e subsidiar nossos artistas populares.
O novo ano chegou e agora vamos saber se ele trará as mesmices do ex-secretário Ney Carrasco que, de certo modo, foi um mestre em guilhotinar a cultura da cidade.
É isso.
Bom dia, novo prefeito.

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