Publicado 14/01/2021 - 08h26 - Atualizado 14/01/2021 - 08h26

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Em minhas décadas de pediatra, nunca vi, no dia a dia do consultório, tantas crianças estressadas, ansiosas, depressivas e obesas. Será que somente eu estou vendo esses casos?
Não! O efeito é global, pesquisadores da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) em parceria com outras instituições do Brasil, inclusive a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) desenvolveram uma pesquisa para avaliar o impacto da pandemia no comportamento de crianças e adolescentes.
Quase quatro mil pessoas foram entrevistadas. O resultado parcial mostrou que houve prejuízo financeiro em 82% dos lares e em 80% os conflitos familiares são frequentes.
O levantamento também revelou que 51% das crianças estão comendo mais durante a pandemia, quase 72% estão sedentárias e 52% estão com problemas no sono.
Outro dado da pesquisa é que 75% das crianças e dos adolescentes estão ficando mais de três horas mexendo no celular; tempo que ultrapassa o limite considerado adequado pela SBP, que é de duas horas.
A minha amiga,neuropediatra, coordenadora da pesquisa Liubiana Arantes, afirmou que o confinamento tem desencadeado consequências psicológicas, e um fator preocupante é que várias crianças estão com risco de desenvolver algum transtorno psiquiátrico e outras já apresentam comportamentos de risco e agressividade.
A necessidade de permanecer em casa foi uma medida extrema que modificou completamente o funcionamento da vida de todos, e certamente essa situação surgiu como umfator adicional e muitas famílias ainda não conseguiram se organizar nessa nova modalidade no dia a dia.
As crianças não estão indo às escolas, os avós não podem contribuir no monitoramento delas, os pais precisam trabalhar em esquema de home office e lidar, ao mesmo tempo,com os afazeres da casa e os cuidados com as crianças, que agora passou a ser em tempo integral; as compras e saídas restritas, as preocupações financeiras e também lidar com as informações sobre a pandemia, que nem sempre chegam de forma clara (vide o artigo desta coluna na semana passada).
Os pilares da saúde e do desenvolvimento precisam ser respeitados e, quando existe uma situação de adversidade que aumenta muito o estresse como nessa situação de pandemia,onde ele é elevado e diário, pode ser tóxico: é chamado estresse tóxico.
Devemos tomar medidas para que ele seja prevenido, a fim de se evitar prejuízos maiores a longo prazo. Situações de adversidades determinam a resposta fisiológica de elevação dos hormônios do estresse na infância, como o cortisol e adrenalina, com consequências de sobrecarga do sistema cardiovascular e riscos à construção saudável da arquitetura cerebral das crianças.
Isso pode acarretar várias consequências a curto prazo, como transtornos do sono, irritabilidade, piora da imunidade, medos, e a médio e longo prazo, como maior prevalência de atrasos no desenvolvimento, de transtorno de ansiedade, de depressão, queda no rendimento escolar e estilo de vida pouco saudável na vida adulta.
Agora sabemos que as crianças e adolescentes representam menos de 1% da mortalidade e respondem por 2 a 3% do total das internações. A maioria das crianças tem quadro leve ou assintomático. Os casos graves em crianças são raros.
Por outro lado, estamos descobrindo que o isolamento social, afastamento escolar e a blindagem total das crianças provocou um mal maior que o COVID-19: as doenças psicossomáticas.
Precisamos ter um novo olhar para nossas crianças, sob risco de termos, em um futuro breve, adolescentes e adultos ainda mais problemáticos.
Tadeu Fernando Fernandes, médico pediatra, é presidente da regional Campinas da Sociedade Brasileira de Pediatria

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