Publicado 15/01/2021 - 08h39 - Atualizado 15/01/2021 - 08h39

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Há alguns anos, um fato me chamou a atenção. As bancas de jornal que antigamente se limitavam aos ditos jornais e revistas, abrindo uma honrosa exceção para coleções de figurinhas em tempos de copa do mundo, começaram a diversificar seus produtos.
Passaram a vender livros, coleções de arte, de culinária, aeromodelos, coleções de literatura da melhor qualidade, com encadernações também da melhor qualidade. As bancas tornaram-se verdadeiras livrarias. Tornaram-se, algumas, legítimos "points", com encontros entre aficcionados, não só da leitura, mas, de aeromodelismo, automodelismo, ferromodelismo e até de navios e submarinos.
As bancas tinham e têm refrigerantes, cervejas, sucos, salgadinhos e outras delicias para atrair clientes. Como sou um profundo admirador da frase de Monteiro Lobato, "Um país se faz com homens e livros", a evolução das bancas causou em mim enorme satisfação. _ Estamos melhorando! Pensei. Quanto mais livros à disposição, mais gente vai acabar lendo e a população vai adquirindo mais cultura. E tinha mais! Além de tudo isso, havia também coleções da MPB e de clássicos.
De uns tempos a esta parte, entretanto, percebi que as bancas estão rareando. Não sei por que, mas, parece que estão desaparecendo. Tive noção disso quando precisei percorrer a cidade em busca de figurinhas para um álbum de minha neta. Várias bancas, minhas conhecidas, ou estavam fechadas ou simplesmente desapareceram.
Fiquei bastante aborrecido. Como grande conhecedor da cidade de Buenos Aires, não pude deixar de comparar as duas situações. Enquanto que na capital argentina, dos dois lados da Avenida de Mayo, por exemplo, as bancas pululam, sempre cheias de fregueses, aqui elas desaparecem. Por que? Qual o motivo dessa disparidade cultural? É evidente que a resposta está na educação! Cada vez mais sucateada e entregue a incompetentes que fraudam o próprio currículo tentando mostrar uma sapiência que jamais possuíram, a educação brasileira estertora, quase exangue e os reflexos estão em todas as partes.
Como nada é tão ruim que não possa piorar, agora é a vez das livrarias. Na semana passada, a notícia do fechamento da Livraria Cultura, no Shopping Iguatemi, caiu feito uma bomba! Como assim? Como é possível que aquele espaço maravilhoso onde o nome Cultura nunca foi tão adequado, simplesmente feche suas portas, seguindo os passos da livraria Saraiva, no mesmo shoppindg, outro portento a serviço da cultura e da educação?
O que está acontecendo? Isso em Campinas, cidade que sempre teve a fama de grande centro cultural, com suas Universidades, seus Colégios, seu espetacular Teatro, suas Academias de Letras, seu Centro de Ciências, Letras e Artes, seu Instituto Agronômico.
Salvo honrosas exceções, tudo vai se acabando. O Teatro, monumental, demolido! Seu substituto, de durabilidade improvável, semi destruído por infiltrações e pela ação do tempo... E infinitas outras mazelas... O poder público a tudo assiste como se não fosse dele a responsabilidade. Para que alguma promessa de ação aconteça é preciso que a deterioração atinja níveis alarmantes e a opinião pública se revolte.
Ainda o fechamento da Livraria Cultura e ainda Buenos Aires. Há algum tempo a capital portenha tinha mais livrarias que o Brasil inteiro e olhe que estou falando de São Paulo, Rio, Curitiba. Belo Horizonte, Porto Alegre, Recife, Fortaleza, Salvador... É inacreditável!
Temos autores extraordinários! Temos em nossa terra alguns dos homens de letras mais importantes do mundo! Ainda assim, o nosso povo não lê! Tem preguiça... Avalia a obra pelo número de páginas, pela grossura do volume... O livro grosso assusta, não importando se o seu conteúdo seja "O Nome da Rosa", de Humberto Eco!
Alguns poderão dizer: _ Ah, mas, os jovens estão lendo no celular, no computador! Não estão! Na citada, à saciedade, Buenos Aires, moças e rapazes lêem freneticamente nos ônibus, nos vagões do metro, nos cafés, bares e restaurantes.
Há sede de conhecimento, ânsia de aprender ou simplesmente vontade de viajar através da leitura. Quem não lê não tem noção do número de portas que um livro pode abrir! Não sabe por quais caminhos pode levá-lo! Não tem ideia das tramas que poderão envolvê-lo.
O deserto de livros em que Campinas está se transformando entremostra um cenário desolador. Os sebos estão aí, sobrevivendo mercê da paixão de alguns raros apaixonados, daqueles que sabem o que querem e onde procurar. É triste pensar: até quando?
Não consigo ver luz no fim desse túnel. Pelo contrario, a escuridão começa a transcender o túnel e invadir um território que outrora era domínio exclusivo da cultura e do saber.
José Roberto Martins é professor, jornalista e membro da Academia Campinense de Letras (ACL)

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