Publicado 23/01/2021 - 16h40 - Atualizado 23/01/2021 - 16h55

Por Jorge Alves de Lima

Jorge Alves de Lima debruçou-se sobre a vida de Carlos Gomes em Belém

Dominique Torquato

Jorge Alves de Lima debruçou-se sobre a vida de Carlos Gomes em Belém

ÁLVARO MILLER 
             Quem transita pelo bairro do Guanabara, com certeza, distintos leitores e leitoras do Correio Popular, já conheceu a rua Álvaro Miller que, a certa altura, cruza com a movimentada avenida Brasil. Mas, talvez não saiba quem foi o cidadão que lhe dá o nome. 
            Em 1890, veio para Campinas um jovem gaúcho que, nas coxilhas do Rio Grande do Sul, se havia consagrado como um valente guerreiro nas revoluções sulinas. 
            Alto e loiro, ele possuía uma vasta cultura e, em Campinas, foi professor do então Ginásio Culto à Ciência.            
            Destacava-se como orador eloquente e também, como advogado, jornalista e cronista do Diário de Campinas. 
            Seu amigo e parceiro era César Bierrembach que, juntos, cobraram virulentamente das autoridades e do povo de Campinas, até então omissas que, em 1896, se prestassem as maiores honras fúnebres ao maestro e compositor Carlos Gomes, falecido em Belém do Pará. Com essa atitude firme e destemida, eles salvaram a honra de Campinas. 
            Naquela quinta feira do dia 8 de outubro de 1891, Álvaro Miller, escreveu uma crônica publicada no Diário de Campinas sob o título: 
UM SONHO 
             "Como era belo e delicioso aquele jardim! 
             Como mirava com entusiasmo tudo o que nele continha! 
             Mas, ao mesmo tempo, eu ficava triste e deprimido! 
             Lembrava-me da minha terna amada, daquele anjo divino que fazia as delícias do meu amor! 
             Sim, em todo lugar em que me achasse, a sua imagem bela e tentadora apresentava-se-me perante meu olhar embevecido. 
             Estava assim absorto naquele poético lugar, quando lindo e meigo beija flor começou a vibrar as asas ao redor de onde eu me achava. Não gorjeia, infelizmente, essa mimosa e pequena ave, mas, em compensação, tem a beleza de forma e da plumagem colorida. E por isso suas aéreas evoluções encantam e deliciam poeticamente a nossa vista atraída. 
            O garrido beija flor sobre os meus ombros pousava, mas repentinamente fugia! 
            Não sei o que ele sentia, mas quando não o via eu, imensa tristeza envolvia-me o ser, e tinha-lhe saudades então! 
            Foi também, em um jardim, que eu jurei ser escravo fiel de minha noiva, e de eternamente amá-la. 
            Foi em um jardim, que trocamos nosso primeiro beijo de amor! 
            Esta recordação é que me fazia o coração magoado; tinha dolorosa saudade daquele tempo de ilusão formosa! 
            Sim, realmente triste estava eu, e somente o beija flor alegrava-me, quando visitar-me vinha. 
            Fiquei pensativo por alguns momentos, quando, nas minhas faces, senti o sonoro estalar de um beijo!.... 
            Petrificaram-me a alma e o corpo! 
            Era, entretanto, o beija flor, que, me vendo de olhos lacrimejantes pela tristeza, procurava comigo brincar. 
            Desviando, porém, o meu olhar umedecido para um outro lado, a ave divinal subitamente se transformara em linda mulher. Era a minha noiva bela, espalhando quase visão celeste! 
            Pálido fiquei, paralisado e, com dificuldade imensa, pude balbuciar apenas com a voz trêmula: Oh! Como te amo...ela sorriu docemente e voou pelos ares do firmamento em nuvens multicolores! 
            Tão sincero e puro era o amor, minha noiva querida, que em toda parte, mesmo nos sonhos, em pensamento vive". 
            Álvaro Miller era também um inspirado poeta. A título de exemplo, vamos ler, distintos leitores e leitoras do Correio Popular, este poema de sua autoria: 
OS DOIS 
"Iam os dois juntinhos caminhando 
Por essa longa estrada pedregosa, 
Ele já velho e ela, carregando 
Oitenta anos de vida venturosa 
Conversavam os dois. De quando em quando, 
Demoravam o passo se enamorando 
À dúbia luz da tarde silenciosa. 
Felizes vós, felizes meus velhinhos, 
Que fizestes da vida um paraíso 
Um conchego cheio de carinhos. 
Felizes vós, que achais ao fim da taça 
A doçura suave de um sorriso 
Em vez do fel amargo da desgraça." 
Jorge Alves de Lima 
Historiador, escritor, é Presidente da Academia Campinense de Letras. 
         

Escrito por:

Jorge Alves de Lima