Publicado 09/01/2021 - 09h40 - Atualizado // - h

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Os meus distintos leitores e leitoras do Correio Popular já devem ter percebido com nitidez que, nas minhas crônicas, já não comento temas atuais relacionados à política e à cruel pandemia que tanto sofrimento tem trazido para a humanidade. Reversamente, procuro, na época romântica do século XIX, assuntos sentimentais de beleza e ternura cujas leituras leves possam trazer-lhes momentos de paz aos seus corações. Para isso garimpo páginas poeirentas e amareladas do lendário Diário de Campinas à procura de diamantes literários que retratavam aquele mundo que não existe mais.
Além do nosso conhecido jornalista Leal da Costa, havia na redação o talento brilhante de outro redator, o jovem Paulo Lacerda, orador eloquente que representou Campinas na chegada dos restos mortais de Carlos Gomes na cidade de Santos, rumo a Campinas para o seu repouso eterno! Dele, Paulo Lacerda, vamos ler agora uma crônica que tanto encantou os campineiros daquela saudosa época, sob o título:

O poder das flores!

“As flores têm muita influência sobre a vida do homem: um indivíduo que vive entre elas e com elas passa a agradavelmente horas e horas, como que sente o coração abrir-se para receber os perfumes delicados que das pétalas exalam e se evaporaram e experimenta sensações estranhas e deliciosas, filhas da alegria que lhe rebenta na alma. Frequentes vezes têm-se visto pessoas apaixonadas por elas,e, com franqueza, uma violeta oculta a derramar aromas, um cravo, uma rosa são realmente objetos que apaixonam um coração amoroso. Mas o que ainda por vezes se dá é que elas falam a língua das paixões.
Ora, meus leitores e leitoras, vão escutar o que se passou no Largo de Santa Cruz, fato esse que atesta eloquentemente a influência de uma flor, poder imenso que ela tem! O Augusto era um rapaz modesto e trabalhador, de um gênio tranquilo, de belo porte, tinha encantos e atrativos tais que, quer estivesse num salão ou à mesa numa palestra, ou na rua, era sempre distinto e elegante entre os companheiros.
Todavia, Augusto não gostava das moças. E, na verdade, o nosso formoso Augusto não se comovia ao ver uma bela moça. As flores, porém, de uma certa chácara, flores que viviam a perfumar o ambiente em que respirava uma bonita moça, a linda Guiomar, espreitavam o nosso rapaz, morador de uma casa ali ao lado. E as flores espreitavam o rapaz, porque Guiomar lhes contara o amor que no peito sentia pelo impassível e duro Augusto que, belo como era, amava doidamente as flores.
Numa certa manhã, um jasmim alvo e perfumado desabrochou do lado de fora da grade de ferro do jardim e pôs-se a emanar os seus aromas no misterioso linguajar harmonioso dos perfumes. Guiomar não dormira toda a noite, apaixonada que estava e, sentada num banco verde de um caramanchão, espiava longamente a rua à espera de que o formoso Augusto passasse. Repentinamente, uma ideia luminosa lhe veio à mente; ela ergueu-se, foi ao portão e abriu-o, voltando-se em seguida ao caramanchão, a olhar longamente a rua. Daí a pouco apareceu o Augusto e...não tinha a costumada flor na lapela do seu paletó.
Guiomar sentiu-se agitada: tornou-se nervosa, quando viu o rapaz tomar nos dedos o cabo do jasmim, aspirar-lhe o perfume e, lançando um olhar indagador pela deserta chácara, colhê-lo e colocá-lo na lapela do paletó. Guiomar não foi então capaz de se conter e, estendo os braços delicados, pegou de um belíssimo botão de rosa entreaberto e dirigiu-se ao portão. Augusto, desatento, só percebeu a moça, quando ela lhe disse:
— Augusto, eis um botão de rosa!
O rapaz, que era muito bem educado, recebeu-o gentilmente e, acedendo ao convite da apaixonada Guiomar, entrou no jardim. Ele estava entre as flores… Tempo depois Augusto e Guiomar estavam casados e amavam-se como se devem amar aqueles que se beijam pela vez primeira entre flores de um jardim! Foi esse um par feliz."
</CF>E venham, depois, dizer-me que as flores não têm grande influência nos nossos corações. Sim as flores podem muito, e querem as belas leitoras do Correio Popular experimentar?! Isso fica lá por conta e risco de cada uma!

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