Publicado 06/01/2021 - 08h51 - Atualizado 06/01/2021 - 08h52

Por

Gustavo Mazzola é jornalista e membro da Academia Campinense de Letras - mazzola@sigmanet.com.br

Cedoc/RAC

Gustavo Mazzola é jornalista e membro da Academia Campinense de Letras - mazzola@sigmanet.com.br

Alexandre Pacheco e Silva Nucci, o Alex como era mais conhecido, formado em Psicologia pela USP (atendeu como psicólogo durante cerca de 20 anos, tendo inclusive trabalhado com Paulo Gaudêncio), notabilizou-se, anos depois, como um competente repórter-fotográfico social, com passagem por diversos jornais e revistas da cidade. Era competente e carinhoso com seus fotografados: mais recentemente, mantinha completa página na Rede Social, onde registrava, horas depois, tudo sobre um evento acontecido.
Mas o seu melhor “retrato” feito na vida não foi na área fotográfica: Alex foi autor de “50 anos da sociedade campineira”, um livro que apresenta com fidelidade, delicadeza e conhecimento, como era a sociedade campineira de 1951 a 2000, especialmente nos dourados anos 50. Registra habilmente costumes, detalhes dos movimentos na sociedade, seus principais personagens, colunistas da época e seus fotógrafos especializados, tudo numa linguagem leve, solta, rica em bom humor, recheada de histórias encantadoras daqueles anos.
Depois de uma introdução interessante sobre ele próprio e as razões de sua obra, chega a detalhes curiosos do jeito que os colunáveis deveriam se comportar diante da câmera. Deixa um exemplo: “nunca peça para ser fotografado, é um pecado mortal em sociedade”. Faz, também, revelações sobre comportamentos reprováveis de interessados em aparecer ou não nas fotos: uma vez, convidado por uma “socialite” para seu aniversário numa grande mansão, ao ser recebido na porta pela anfitriã, foi perguntado: “Ué, você não trouxe a máquina?”. Em outra ocasião, depois de fotografar um casal lindo e simpático num encontro social, horas depois, tentou saber o nome da acompanhante da figura famosa. Na mesma tarde, recebeu no jornal dois cavalheiros, com um documento assinado por advogados, proibindo-lhe a publicação da foto.
A obra abre, lembrando nomes famosos e carismáticos do colunismo social em Campinas, alguns ainda em plena atividade: o primeiro citado é Hugo Arnaldo Gallo Dias Mantellato, que ficou conhecido como simplesmente Hugo Gallo; Orlindo Marçal Oliveira do Valle; Jamil Constantino Abrahão, Maria Lúcia Mendonça de Barros, mais conhecida como Ucha; Neusa Maria Camilo, a Neusa Leoncine; Marco António Bueno de Camargo; Airton Martins e José Almir Reis, o competente Almir Reis, colunista atual do Correio Popular. Em seguida, são lembrados os fotógrafos: Neldo Cantanti, Celso Affonso, Waldemar Padovani, Sudan Legendre, Gilberto De Biasi, José Carlos Pinto de Souza, Francisco Alves Queiroz, João Balan e Antoninho Perri.
O livro toma corpo, então, com um apanhado sobre a cidade naqueles anos 50: suas dimensões territoriais, as ruas e bairros mais conhecidos. Em seguida, tem lugar os clubes sociais e esportivos, bares famosos, como o Café do Povo, a boate do Tênis, o Lo Schiavo, o Nosso Cantinho, o Giovanetti, o Xande's Bar e o Café Regina. O mundo boêmio é lembrado na Boate Cairo e Princesinha, as áreas de prostituição, inclusive o mundo gay. Vêm, também, as grandes igrejas, o Teatro Municipal e os cinemas de então, terminando com a tragédia do Cine Rink. Não ficam de fora os eventos, como a Festa das Nações, o carnaval no Tênis e os bailes de debutantes.
Entremeando tudo isso, fotos, muitas fotos (todas creditadas) de damas da sociedade e gente famosa no universo social de Campinas, como empresários, artistas e profissionais de renome. É, realmente, a lembrança de figuras elegantes, finas, gente de “savoir-faire” indiscutível, frequentando os lugares mais chiques da cidade. Um mundo memorável naquela época.
Alexandre Nucci, como o chamávamos nos anos 50, aos doze ou treze anos, foi meu colega de classe na segunda série do Colégio Estadual “Culto à Ciência”. Ainda me lembro de sua postura discreta e amável, amigo de todos. Em 2003, surpreendi-me em vê-lo, de repente, no portão de minha casa com o seu livro nas mãos: era um presente, com dedicatória, que ele trazia para meu filho, com quem conversava durante os mesmos eventos que, na época, cobriam fotograficamente. Ele fazia questão de entregar o seu presente pessoalmente. Eu e Christiano guardamos, hoje, com carinho, essa verdadeira relíquia, como uma boa lembrança de Alex... e de um tempo que não existe mais.
Gustavo Mazzola é jornalista e membro da Academia Campinense de Letras - mazzola@sigmanet.com.br

Escrito por: