Publicado 25/01/2021 - 19h25 - Atualizado 25/01/2021 - 19h25

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antonio contente

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antonio contente

Para mim a melhor marcação do correr do tempo e das eras, são as heras que cobrem muros e paredes. O viço que exibem é de um silencioso encanto, com o verde austero e o alongamento, para os lados e para o alto, a bem conduzir os passeios do nosso olhar. As brisas percorrem as heras, ao longo das eras, com a mesma placidez de suave palma de mão, necessariamente feminina, a acariciar os pelos de um gato. E a visão do balançar dos pequenos galhos é chamamento a lembranças como se as pequenas folhas estivessem embebidas de canções. E elas, como os perfumes, suspiram no que já se foi.
Tive, diante de uma das muitas janelas que fazem parte de minha vida, um grande muro absolutamente coberto de heras. Recordo que, ao mudar para lá, nem as vi logo de cara. Foi apenas no primeiro amanhecer que, ao liberar o peitoril para a nascente carícia da aurora, fui tomado por aquele verde diante dos meus olhos, quase ao alcance das mãos. E, ao longo do tempo que por ali fiquei a conhecer certas histórias do bairro, aprendi que se as testemunhas que as presenciaram se foram, apenas as heras guardavam as lembranças. Encravadas nas eras de histórias de parte tão marcante da cidade de S. Paulo.
Aliás, foi numa linda cidadezinha que recebeu as primeiras luzes do sol em eras quase anteriores a qualquer dimensão do tempo, que vi as heras mais lindas de quantas possam, neste mundo, enfeitar certos espaços. Eu e o repórter-fotográfico Gil Passarelli, Prêmio Esso de Fotografia de 1968, chegamos de noite para fazer uma reportagem na pequena Cesky Krumlov, no interior da Tchecoslováquia profunda. Caia, quando descemos do trem e nos enfiamos num táxi, ralos flocos de neve num começo de Inverno. Ao chegar no hotelzinho, com o frio que fazia, o que mais queríamos era a quentura do quarto; para onde fomos passando com a devida pressa.
Ao acordar, manhã alta, perguntei a Gil se ele teria coragem de abrir a janela. Respondeu com um "por que não"? e saltou da cama para cumprir o desafio. Afastou as cortinas e, ao liberar o peitoril largo, a primeira coisa que nos tomou foi, de um lado, um pedaço de muro; e do outro, as paredes de uma construção bem conservada, porém muito velha. Tudo coberto pela mais verde hera deste mundo, o que era realçado pelos pequenos flocos branquíssimos de neve balançando junto com as folhas ao passar da brisa. E depois, andando pela cidadezinha com construções talvez anteriores ao século XVI, fui percebendo que por ali, ao longo do tempo, as únicas coisas que correram, com o testemunho apenas dos deuses, foram as eras e as heras.
Aqui na campineira Chácara da Barra, onde ocupo este tugúrio que me protege das intempéries desde eras quase imemoriais, tive, nas cercanias, um grande muro todo coberto de heras. Em quantas manhãs e em quantas tardes, naquelas horas nas quais o navegar d'alma exige o envolvimento em certo cenário, foi com os olhos sobre o paredão tomado pelas folhas tenras que deixei deslizar ideias, lembranças, e, até, saudades de certos amores. Que, pela intensidade com que me tomaram, foram eternos nos momentos vividos; para eternos se tornarem, saídos das eras, para acariciar as heras nos instantes de enlevo.
Pois bem, um dia, não sei por que, o proprietário do muro resolveu limpa-lo do vegetal que tem a capacidade de aguçar o passear de lembranças. Foi certa manhã e, quando percebi que o assassinato das folhas ocorreria, o jardineiro, com imensa tesoura, já aparava os pequenos galhos a inundar o chão com os cadáveres das folhas. Tive ímpetos de sair para falar com o dono do muro que não fizesse aquilo. Mas alguma coisa me pediu que apenas me afastasse. E, para não testemunhar a integralidade da tragédia, que fosse apenas tomar uma cerveja no então ainda modesto e charmoso Bar do Seu Fernando. E o muro lá permanece até hoje, completamente nu. Como o proprietário que provocou a hecatombe morreu, já tive ímpetos de, em alguma madrugada, ir cravar uma pequena muda junto ao velho divisor de terrenos. Que, órfão das heras, navega pelas eras sem o viço que fornece luminosidade às recordações.
Para terminar conto que, em certa era da minha vida, tive como vizinho um senhor muito idoso e muito viajado, o seu Correia. Ia frequentemente, nos fins de tarde, tomar uma taça com ele. Num certo sábado, depois de termos secado a segunda garrafa, me disse que, como eu gostava de ler, me daria como presente um livro que ganhara, nos anos 40, no pós II Guerra, em Londres, de uma namorada inglesa.
Ela - me contou - morava numa casa muito linda, cercada de verde por todos os lados.
Assim foi que levei para casa uma edição bem antiga do "Far From the Madding Crowd", de Thomas Hardy. Não o abri logo, coloquei na estante. E, meses depois, quando o amigo morreu, peguei a obra. Entre as páginas, havia dois pequenos galhos secos que, certamente, marcavam alguma coisa. Eram de heras, que devem ter vicejado em algum muro. Em outras eras.

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