Publicado 31/12/2020 - 15h02 - Atualizado 31/12/2020 - 15h02

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Abro sempre o computador em letras grandes. É o dever de cada uma delas se mostrar grandiosas e, se possível, majestosas. E com elas digo que o fim do ano chegou e pouco me importa o novo ano que chega. O dia após cada dia é um novo ano depois do outro. E a humanidade segue plantando, colhendo e alimentando nossas fomes. Assim como as bicas nos dão a água necessária para nos matar a sede e cozinhar o arroz com feijão do dia a dia.
Viver é simples como as nuvens que passam pelo céu seguindo o seu caminho. E hoje é o último dia do ano e nada vai mudar no dia seguinte. Será apenas mais um dia, mais um dia da semana, mais um dia de pandemia, mais um dia de máscara, de lavar as mãos e não apodrecer a saúde das pessoas com abraços inúteis, apertos de mãos inúteis, enfim, de exercitar a paciência da sobrevivência, de se manter vivo e, é claro, de não atrapalhar a sobrevivência do próximo. Não custa nada se manter saudável e, é claro, não atrapalhar a saúde de outras pessoas.
2020 já quase era e 2021 está chegando e herdando os mesmos problemas do ano anterior. Só os políticos seguem a sua sina de nos atormentar com as suas línguas moles e beiço esfarrapado. É o preço da democracia e que, aliás, já está mais que bem pago. Mas é do jogo democrático e as regras devem ser respeitadas, tanto por quem elegeu como por quem foi eleito. Mas é fato que, atualmente, e isso já faz um bom tempo, que vivemos a democracia da tornozeleira eletrônica. É o que chamamos de atitude jurídico cívica. Para roubar o dinheiro de hospitais, escolas e creches, bem, tudo vale. E dane-se o pobre.
Tudo é tão triste e gostaria de escrever sobre coisas mais alegres, de palhaços em picadeiros, de humoristas sem graça, de falsas mulheres barbudas, de leões desdentados, de falsos domadores, falsos profetas, ou de tantos outros que nos alegram a fantasia.
Vi a namorada dar ou ganhar um beijo de um rapaz cabeludo e barba bem feita, ali no Largo do Rosário. E de lá saíram abraçados e foram comer um cachorro quente em um quiosque, assim como se alguém se janta em um restaurante que serve à moda francesa.
Último dia do ano e tudo segue igual entre os apaixonados. E a paixão é que vale a pena ser vivida. O resto da vida é uma coisa malpassada, assim como um bife grosso que custa o olho da cara e que tem gosto de nuvem mal temperada.
Tenho saudade de comer um peixe no Chef Teo, um pastel no Voga, e os tempos são duros demais. Nem tanto pelo bolso, que não é tão caro assim, mas pelos tempos da máscara e da aglomeração de abraços firmes e fortes. No momento, só abraço a minha companheira, como se ela fosse a humanidade inteira. E assim me sinto firme, forte e solidário. E quando saio para dar a minha caminhada diária sempre volto com um ramo de flores para ela. E assim a tarde se alegra e a mesa da noite se estende em cores de pássaros de primavera.
Último dia do ano e isso não me importa. Bom mesmo foi o dia em que a companheira preparou um peixe com um tempero dos deuses. E não faz muitos dias em que piquei mandioquinha, cenoura, inhame, alho poró, batata e cebola, e da panela saiu um sopão do deuses.
Escrevo agora com as finas mãos da minha finada mãe, senhora dos caldos, daquela sopa rala que vinha sempre servida antes do prato principal do jantar, bife acebolado, arroz, feijão e batata frita. E tinha manjar de sobremesa. Sem calda. Sem ameixa. Apenas sabor de mão de mãe.
E quando saímos da mesa cada irmão procurava a porta de casa. Todos tinham seus afazeres amorosos. E eu sonhava com os meus abraços em uma menina da Vila Cury, o que nunca consegui – e nunca me arrependi – pois durante muitos anos eu a via imaginava em meus braços – grandes abraços. Tão grandes e fartos quanto as palavras do computador.

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