Publicado 03/12/2020 - 01h20 - Atualizado 03/12/2020 - 01h20

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Realizamos na última terça feira uma Live com a participação da Presidente do Departamento de Desenvolvimento e Comportamento da Sociedade Brasileira de Pediatria, discutimos a epidemia de ansiedade e distúrbios do sono nas crianças, uma sequela da pandemia do Covid-19.
Dados de uma pesquisa realizada pela Sociedade Brasileira de Pediatria mostram que a grande maioria dos pediatras (88%) notou alterações de comportamento entre as crianças que frequentaram os consultórios durante a pandemia de Covid-19.
Os números são assustadores, quase 90% das crianças apresentaram algum tipo de alteração de comportamento, a maior parte delas, 75%, passou por oscilações de humor.
As principais consequências constatadas são: uma maior irritabilidade, distúrbios do sono e obesidade.
A necessidade de permanecer em casa foi uma medida extrema que modificou completamente o funcionamento da vida de todos, e muitas famílias ainda não conseguiram se organizar nessa nova modalidade no dia a dia.
As crianças não estão indo às escolas, os avós não podem contribuir no monitoramento delas, os pais precisam trabalhar em esquema de home-office e lidar, ao mesmo tempo, com os afazeres da casa, os cuidados com as crianças agora passou a ser em tempo integral, as compras e saídas restritas, as preocupações financeiras e também lidar com as informações sobre a pandemia que nem sempre chegam de forma clara.
Outro fato relevante, o conceito de "neurônio espelho", uma das descobertas mais importantes da neurociência na última década, está ligado à visão e ao movimento. Permite o aprendizado por imitação, já que é acionado quando é necessário observar ou reproduzir o comportamento de outros seres da mesma espécie.
A criança isolada dentro de casa começa a espelhar o comportamento dos pais, com quem estão passando a maior parte do tempo, e vemos que lares onde temos pais estressados, irritados, violentos, revoltados temos a criança espelho, com os mesmos comportamentos.
Outro fato relevante, aumentou em mais de 400% o tempo de tela das crianças, não bastassem as aulas on-line, elas continuam na frente da tela para assistir filmes, jogar, conversar com os amigos, brincar, enfim, a absurda quantidade de estímulos de tela está levando a outro problema, os distúrbios do sono.
Ninguém consegue dormir tranquilamente após um dia de tela, e sabemos que uma noite mal dormida, será seguida por um dia mal vivido, estressado, irritado, e a bola de neve cresce dia a dia.
Outro tema que abordamos, aulas on-line não funcionam para crianças antes dos 5 anos, nesta fase da vida tudo é lúdico, presencial, olhos nos olhos, utiliza-se todos os sentidos, pegar uma massinha, moldar, cheirar, jogar no amiguinho, que por sua vez reage, grita, e a criança responde, ou chora, tudo isso é aprendizagem, comunicação corpórea, fatos impossíveis pela telinha.
Crianças em idades cada vez mais precoces têm tido acesso aos equipamentos de telefones celulares e smartphones, notebooks, além dos computadores que são usados pela família, em casa ou até em restaurantes, ônibus, carros, sempre com o objetivo de fazer com que a "criança fique quietinha".
Isto é denominado de distração passiva, o que é muito diferente do brincar ativamente, um direito universal e temporal de todas as crianças e adolescentes. O atraso no desenvolvimento da fala e da linguagem é frequente em bebês que ficam passivamente expostos às telas, por períodos prolongados e problemas de sono são cada vez mais frequentes e associados aos transtornos mentais precoces em crianças e adolescentes.
Foi uma LIVE de quase 1 hora e meia onde os pediatras puderam interagir e concluímos: este período de pandemia e isolamento social vai certamente interferir no desenvolvimento de nossas crianças, o quanto depende de muitas variáveis, e com uma delas você pode nos ajudar: poupe seu filho da tela, ofereça brincadeiras, brinque, interaja, transforme esse problema em uma oportunidade para vocês se conhecerem melhor e viverem melhor.
Tadeu Fernando Fernandes, médico pediatra, é presidente da regional Campinas da Sociedade Brasileira de Pediatria.

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