Publicado 18/12/2020 - 08h44 - Atualizado 18/12/2020 - 08h45

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Antes de entrar no assunto desta crônica, devo agradecer as inúmeras mensagens de força, de apoio, de solidariedade nesta travessia na qual me encontro a meio. Essas mensagens funcionam como um poderoso combustível, um gigantesco gerador de energia, capaz de mitigar o sofrimento e alavancar a esperança. Utilizando uma frase emblemática de Sir Winston Churchill, lembrada numa conversa telefônica com meu amigoJorge Alves de Lima, presidente da Academia Campinense de Letras, defino o presente momento. Na ocasião, quando foi dita a frase, Londres era diariamente bombardeada pelos aviões alemães. Churchill vivia esse drama fora toda a oposição. Em determinado instante disse:_”Quando se sentir no meio do inferno, atravesse!”
É o que estou fazendo e acho até que galhardamente. Com a inestimável e insubstituível ajuda de minha mulher, de toda a minha família e dos meus amigos, estou atravessando. Dia mais, dia menos, chego lá. Muito obrigado a todos.
Com relação à crônica de hoje, outra frase, esta atribuída ao grande Fernando Pessoa, na verdade diz: “Navegar é preciso, viver não é preciso”. Com isso, o poeta quis dizer que é mais importante sonhar que viver. Uma vida sem sonhos, sem planos, sem viagens, é uma vida insípida, que não vale a pena ser vivida.
A frase original, entretanto, é do general romano Pompeo, no ano 70 Antes de Cristo. Referindo-se às navegações, ele pretendia dizer coisa muito diferente. Com “navegar é preciso” ele tentava explicar que o ato de navegar era cercado de cálculos matemáticos, de dificuldades diversas, daí a expressão “preciso”. No caso de viver, o “preciso” não se aplica porque a vida segue seu próprio rumo sendo impossível calculá-la. Quem comanda a vida é o imponderável.
Disse tudo isso, principalmente sobre navegar, porque o desejo de fazer planos, de empreender longas viagens está se tornando algo quase irreprimível!
O desespero por caminhar pelas ruas de Nova York, cidade que amo, é avassalador. Sempre que vejo um filme ou um seriado locado em Nova York, a vontade de estar lá atinge limites inacreditáveis. Acabo, à revelia dos produtores, me inserindo no cenário e, sem que eles saibam, fazendo parte da trama.
Falei de Fernando Pessoa e tenho uma divida com o celebre português. Estive várias vezes em Lisboa, uma delas por tanto tempo que quase cheguei a me considerar morador. Pois, andei por todos os cantos da deliciosa capital portuguesa. Andei pelos ermos mais recônditos e, ainda assim, nunca estive no Chiado, famoso bairro boêmio lisboeta.
Ora, no Chiado existe o Café à Brasileira e na calçada em frente a ele está uma estátua de Fernando Pessoa sentado a uma mesa.
Por incrível que pareça, nunca estive lá, nunca me sentei ao lado de Pessoa para, pelo menos na imaginação, perguntar a ele sobre este turista brasileiro apaixonado pela santa terrinha! Preciso ir lá! É importante! É necessidade premente! Mas, como?
Preciso também com urgência passear pela Rua Dante, em Milão, indo do Castelo Sforzesco até a Praça do Domo, a majestosa Catedral de Milão e, atravessando a Galeria Vittorio Emanuele, chegar ao Teatro La Scala. Olhar para ele com orgulho pois ali, meu conterrâneo Carlos Gomes, apresentou sua ópera O Guarani e foi o primeiro compositor brasileiro a lá se apresentar! Coisas assim não podem mais esperar!
Também não podem esperar, uma ida a Chicago, ao Parque Milenium, a Baltimore, à casa de Edgar Allan Poe, que espero tenha sua restauração concluída, pois quero respirar a mesma atmosfera que respirou o gênio. E assim Savannah, Milwalkee, Detroit, Filadelfia, subindo inclusive as escadarias imortalizadas por Rocky Balboa!
Não quero nada novo! Quero rever esses lugares que tão bem me fazem à alma... Outra escadaria me vem à mente. Na cidade alemã de Wurzburg está o Palácio dos Bispos. Com grande parte preservada e o setor destruído pelos bombardeios da Segunda Guerra totalmente reconstruído.
O palácio é inacreditável! No seu interior uma portentosa escadaria leva ao piso superior. Nos seus majestosos corrimãos estão estátuas extraordinárias. Obras de arte do mais alto nível e numa quantidade espantosa! Estou pra dizer que o Palácio dos Bispos de Wurzburg põe o de Versailles no chinelo!
Nesta altura a pena fica ansiosa, quase frenética, luta para colocar no papel outras saudades e impressões. Notem que ainda não falei de Capri, de Roma, de Monte Carlo e por aí vai...
Como ficar preso em casa com o coração dando pinotes no peito e a memória abastecendo o desejo de voltar que me tortura?
E nem falei de Paris, porque aí seria masoquismo... Se, entretanto, recordar é viver, dia desses falo de Paris, mas, aí, só dela...

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