Publicado 11/12/2020 - 09h58 - Atualizado 11/12/2020 - 09h58

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Renato Nalini é desembargador, reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove, palestrante e conferencista

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Renato Nalini é desembargador, reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove, palestrante e conferencista

A tecnologia nos dá um verdadeiro baile. Quem não se afeiçoa a ela e não assimila suas funcionalidades, na verdade “dança”. O paradoxo é evidente. Quanto mais sofisticada a ciência, os avanços e descobertas, mais valioso aquilo que é natural, genuíno e espontâneo no ser humano. O temor de que sejamos todos substituídos pela automação é generalizado em certas parcelas dos que ancoraram nas certezas absolutas de que os diplomas constituem panaceia. Já não é assim. O presente e, principalmente, o futuro, precisarão de muito mais. Os atentos detectaram há muito esse tsunami em acelerada marcha. O Fórum Econômico Mundial alerta há vários anos que inúmeras profissões desaparecerão e que as atividades necessárias ao porvir ainda não têm nome. Principalmente, e o que é pior, o sistema educacional não acordou para a necessária preparação da juventude apta a exercê-las.
O relatório “The Future of Jobs 2020” indica as habilidades essenciais para a sobrevivência nos próximos anos. A profunda mutação disruptiva reclama conhecimentos aprofundados em transformação digital, programação, robótica, mas também exige autogestão, resolução de problemas e capacidade de lidar com pessoas. Antigamente, o diploma e a certificação bastavam. Hoje eles são insuficientes. A prática evidencia que às vezes se contrata pelo currículo, mas se exonera em virtude de comportamentos inadequados. Empatia, sensibilidade, capacidade de trabalhar em equipe, caráter pronto a enfrentar o inesperado, criatividade, empreendedorismo, reação ao adverso, tudo isso vai valer muito mais do que uma cornucópia de cursos.
Já vigia o discurso da “educação continuada” ou “educação permanente”. Mas nem sempre ele era assimilado nas carreiras. Hoje, a equação mudou: se antes vinte anos eram necessários para estudar, trinta e cinco seguintes para trabalhar e quinze, se restarem eles, para viajar ou gozar a vida, hoje o quadro é outro. O ser humano realizado é aquele que estuda, trabalha e frui dos bens da vida disponíveis ou conquistados, durante toda a sua existência e simultaneamente.
Por isso é que os humanos precisam se recordar de que o aprendizado da virtude é algo ínsito à sua natureza e independe de uma escolarização convencional. O lar, onde primeiro se faz o treino social da prole, deve investir nas chamadas softkills, aqueles atributos suaves, pouco prestigiados quando em cotejo com as chamadas “virtudes fortes”. A educação estatal descuidou das competências socioemocionais e paga um elevado preço por essa omissão. É a evasão do Ensino Médio, é o ódio à escola demonstrado por gangues que vandalizam os edifícios, agridem verbal e fisicamente os professores, chegando às vezes à barbárie.
É hora da sociedade inteira assumir sua responsabilidade, assim como dispõe o artigo 205 da Constituição da República. E compreender que, no mundo VUCA, todos são educandos e educadores ao mesmo tempo. VUCA é a sigla que resume as palavras Volatility, Uncertainluy, Complexity and Ambiguity. Ou seja: volatilidade, incerteza complexidade e ambiguidade. Talvez fosse melhor que o Brasil se utilizasse do verbete VICA!
O principal é fomentar a prática da resiliência, compaixão, perdão, gratidão, otimismo e generosidade. São qualidades que nenhum robô poderá desenvolver. Contudo, são próprias a cada ser humano, que pode aprimorá-las, mediante um cultivo correto e consistente. Recordar Aristóteles, que ensinou à humanidade uma lição imperecível: a virtude não é genética, não está no DNA, não é um dom ou talento com que se nasça. É mero fruto da prática. Adotar uma boa prática por dia, faz de alguém, mesmo que não tenha consciência plena disso, um ser virtuoso.
A boa notícia é a de que o robô não roubará o emprego de quem se dispuser a ser a cada dia mais humano. Não depende de escola, não depende de curso, não depende de professores especializados. Depende de uma boa consciência, própria a uma cabeça bem organizada. Todos somos capazes de tê-la e de aprimorá-la a cada dia que nos for dado viver.
Renato Nalini é desembargador, reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove, palestrante e conferencista

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