Publicado 12/12/2020 - 11h11 - Atualizado 12/12/2020 - 11h11

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Jorge Alves de Lima é historiador, escritor e presidente da Academia Campinense de Letras

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Jorge Alves de Lima é historiador, escritor e presidente da Academia Campinense de Letras

Vocês, distintos leitores e leitoras do Correio Popular - que conhecem meus livros a respeito da rica e fascinante história de Campinas - sabem, com certeza, da importância de haver existido, no século XIX, o jornal Diário de Campinas, igualando-se com outros tradicionais órgãos de imprensa de São Paulo. A sede da redação localizava-se na atual Avenida Francisco Glicério, onde fica o prédio do antigo Hotel Terminus que hoje abriga uma loja de eletrodomésticos. Sua redação era composta por talentosos e competentes jornalistas, sob a orientação dos seus proprietários, os irmãos Sarmento - Antônio e Alberto - hoje nomes de ruas em Campinas.
Os redatores principais eram João Batista Leme, Alberto Sarmento e Heitor Barbosa, auxiliados pelos talentosos jornalistas e repórteres Henrique de Barcelos, Gonçalves Pinheiro, Joaquim de Toledo e Felipe Santana. O distribuidor e entregador do jornal de circulação diária era o carismático e folclórico Luiz Corneta.Uma das colunas mais lidas do jornal era “Falas ao Luar”, redigida pelo Redator-chefe João Brasileiro da Costa Leal, que usava o pseudônimo “Boanerges”. Ele adorava temas românticos que faziam as mulheres e jovens sonharem com amores lindos, românticos, impossíveis e, muitas vezes, trágicos.
O jornalista Costa Leal era estudante de direito na Faculdade do Largo de São Francisco, onde conviveu com o poeta Castro Alves e com os maiores escritores e jornalistas, que marcaram época na história do jornalismo e na literatura brasileira. Como estudante, era estimado pelo seu talento; como poeta, tangia artisticamente sua lira; como jornalista, manejava habilmente a pena, no testemunho do jornalista Alberto Sarmento.
Agora, caros leitores e leitoras do Correio Popular, vamos apreciar, juntos com os moradores daquela saudosa época, uma crônica de Costa Leal.
Falas ao Luar
"Senhora, há de parecer estranho o que vou dizer-vos… Certo, nem de leve, passam pelo vosso espírito as ideias que agora fielmente traduzo, não importa, contudo. Fiz a mim mesmo a promessa de vesti-las, a essas loucas ideias, dando-lhes o corpo de sílabas, a estrutura das palavras o arredondado dos períodos, e cumpro agora o que prometo, esperando o perdão de vossos lábios. Não sorriais, entretanto, ao ler-me. Tendes lembranças, senhora, daquela flor que um dia delicadamente me oferecestes, quando estivermos juntos no vosso jardim?Talvez o vosso espírito profundamente romântico, sempre no vago transvazar das ilusões, no misticismo vago das crenças, não mais se aperceba dessa pobre flor! ….Vou avivar-vos, entretanto, a memória …
Manhã clara, primaveril, banhada de luz, com a nota musical das aves e sonoridades estranhas, eu entrei no vosso palacete, a visitar o Carlos, vosso extremado esposo, para quem tendes sempre doces olhares, carícias terníssimas na voz. O Carlos não estava. Vós aparecestes, e me dissestes que ocupações extraordinárias, trabalhos imprevistos, tinham-no obrigado a deixar o leito muito cedo ainda.
- Que não fazia mal que eu estivesse ali e que receberíeis com prazer a minha visita - acrescentastes depois. Não pude ceder a essa delicadeza aristocrática, e lembro-me de que vos disse: - Senhora, não quero importunar-vos; sinto imensa honra estando em vossa presença, mas, dai-me licença…
Abrindo docemente o sorriso fino e gracioso, replicastes então: - Nesse caso, já que desejais partir, haveis de permitir-me que vos acompanhe até ao jardim… E descemos juntos a larga escadaria de mármore do vosso palacete. No jardim, fiz sentir o incômodo que vos havia dado, por acompanhando-me. Bondosamente disseste ainda "que não era incômodo e que sentíeis grande prazer naquele passeio. E, como para provar o vosso contentamento, procurastes entre as flores uma camélia, rubra como vossos lábios, e me oferecestes.
Depois, despedimo-nos e eu parti. No meu gabinete de trabalho, mais tarde, à noite, sentado em frente à minha mesa - onde papéis e livros se misturavam numa desordem de estudo, não sei por que, senhora, meus olhos caíram casualmente na lapela do meu paletó, e a camélia rubra despertava-me ideias esquisitas, que me esforçava por afastar do espírito.
Olhava a flor, e a hora matinal que nos encontramos, e a vossa figura esbelta, metida num longo peignoir rendado e branco, e vossos cabelos loiros, rolando em ondas pelas costas, e a vossa boca pequena, vermelha - tudo ia surgindo-me no espírito, como uma nota escandalosa de amor e ciúme, que me mordia e me acariciava. Sim, naquele instante, senhora, eu ardia de zelos pela vossa beleza, e meu ciúme doído, na inveja surda do Carlos, do vosso amado esposo, devorava-me todo, abraçando-me, enervando estranhamente.
Tinha ideias de assassino e pruridos de suicida. Pensava, rapidamente, variando, que a morte de Carlos me abria vossos braços e desejava matá-lo. Logo após, porém, parecia-me ouvir, senhora, vossa voz que me dizia: - Não, nunca amarei o assassino do meu esposo!
E desejava matar-me, então, para fugir a esse martírio. Foi nessa ânsia terrível, senhora, que arranquei raivoso da lapela do meu paletó a rubra flor que me havíeis dado e estraçalhei-a.Não sei por que fenômeno, inexplicável naquele momento, a calma voltou-me. Ri de mim mesmo, da extravagância louca das ideias que me tinham acometido e resolvi traduzi-las, um dia, para que pudésseis ler e, lendo-as, me perdoásseis o supremo crime de ter esmigalhado entre os dedos nervosos a rubra flor que delicadamente me oferecestes.
Agora que já conheceis, senhora, as estranhas ideias que tive, perdoai-me, levando-as à conta da loucura momentânea, e perdoai-me a barbaridade que cometi para com a camélia vermelha, que tão graciosamente me ofertastes! Boanerges."
Jorge Alves de Lima é historiador, escritor e presidente da Academia Campinense de Letras

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