Publicado 02/12/2020 - 09h44 - Atualizado 02/12/2020 - 09h44

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Já disse aqui, mais de uma vez, que sou viciado em notícias. Só conheci um cara mais viciado que eu. Ele assinava 17 noticiosos que ficavam rodando no rodapé da tela do seu computador, que ele o levava para a cama e acordava no meio da noite para ler o que havia de novo.
Comecei no mundo das notícias com o saudoso Gabino, diretor-proprietário da Tribuna de Indaiá, que me contratou para "desempastelar tipos", a tarefa de separar os tipos segundo o tamanho, a fonte e a letra e devolvê-los aos seus lugares nas caixas. Disto saltei para o "componidor", compondo os textos que iriam para o jornal. Depois para a revisão dos textos. Na adolescência juventude lia todos os dias dois jornais: o Jornal da Tarde, do Estadão. E o Diário de São Paulo.
Lançaram a revista Realidade e eu lá estava para comprar e devorar. Noticioso na televisão só o Repórter Esso. Veio neste tempo o Pasquim (que eu devorava) e a revista Fatos e Fotos. A televisão entrou com mais força no mundo das notícias e passei a ser assíduo telespectador dos noticiários. Nunca deixei de ler o jornal impresso, porque sou dos que acham que há uma mística em ler um jornal impresso e um livro no papel. Não consigo me adaptar aos e-books.
Nesta trajetória aprendi a amar e respeitar algumas pessoas que nunca conheci. Entre o jornalismo informativo e o opinativo, o segundo me fascinava. O jornalismo investigativo me seduzia, mas nunca tive a chance, nem a estrutura para ir adiante com esta paixão. Aprendi muito com as colunas do velho Frias, na Folha de São Paulo. Neste jornal também fui fã do Gilberto Dimenstein e Clovis Rossi. Lia Zózimo Barrozo do Amaral, Artur da Távola, Noblat, que escreviam nos jornais do Rio. No tempo em que, nos voos, se entregava jornal para a viagem, eu pedia exemplares de dois ou três jornais.
Penso que vivi uma época áurea do jornalismo, pela qualidade dos que escreviam e comentavam. A coisa, me parece, foi definhando e perdendo a vigência que teve. Lembro-me do Programa do Jô, no tempo da SBT e do impeachment do Collor, quando os políticos não podiam dormir sem saber o que aconteceu e aconteceria no próximo dia.
Estamos vivendo a era do pós. Fala-se em pós-modernidade, pós-verdade, pós-história, pós-especialização. Hoje todo mundo se julga com capacidade e no direito de emitir sua opinião, por mais esdrúxula que seja. Um bom divertimento é ler os comentários feitos às postagens. Há momentos em que penso que voltamos à primitiva escrita, quando se praticava a scripto continua, quando ainda não haviam inventado o ponto final, a vírgula, a exclamação e a interrogação.
Dá-me um sentimento de pré mortem saber que jornalistas capazes e reconhecidos estão morrendo ou sendo demitidos de suas funções nos veículos em que trabalharam por anos a fio. A cada dia fico sabendo de mais um que foi demitido e que decidiu fazer carreira solo em algum blog. Sou dos que acreditam que o verdadeiro jornalismo se faz na redação, na troca de ideias, nos cafés e na fumaça dos cigarros, ainda que eu mesmo não fume. Jornalismo de carreira solo é algo que não entra na minha cabeça. O furo jornalístico é um evento de cumplicidade e solidariedade.
Se é verdade que em 2025 se imprimirá o último jornal em papel no mundo, tenho certeza de que, parte de mim morrerá com ele.
Marcos Inhauser é teólogo, pastor da Igreja da Irmandade e educador corporativo.

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