Publicado 23/12/2020 - 08h52 - Atualizado 23/12/2020 - 08h56

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Gustavo Mazzola é jornalista e membro da Academia Campinense de Letras

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Gustavo Mazzola é jornalista e membro da Academia Campinense de Letras

Não deveríamos ir ao encontro dos nossos mais audaciosos sonhos? Deveríamos. Mas não é isso que em geral acontece: em muitos casos, acabamos por deixar de lado projetos encantadores, mágicos, entremeados de boas doses de loucura, trocando tudo por uma eventual segurança, algumas maneiras mais cômodas e comedidas de viver.
Nesta antevéspera de Natal, eu lhe pergunto: o que você tem feito em busca desses acalentados sonhos? Nada? Não se preocupou nem um pouquinho em “andar” com seus planos? Deixou tudo como está, não se debruçou sobre os tantos projetos? Então, meu caro, você merece ficar aí mesmo onde está. Não reclame da vida, pois outras prioridades lhes pareceram mais adequadas.
A mensagem é bem clara: é importante ousar, arriscar, atirar-se de cabeça para ver “que bicho vai dar”. Mudar tudo o que precisa ser mudado, ir em busca dos mais fantásticos ideais, por mais malucos que possam parecer. Sonhar é a mais gratificante expressão da alma. Experimente, dê asas à sua imaginação, construa um castelo no ar: poderá ruir, mas você não será acusado de não haver tentado ser feliz.
Às vezes, a vida nos dá uma lição. E ela pode chegar de uma maneira muito simples... até pela expressão inocente de uma criança, mesmo que ela nem tenha possibilidade racional de dimensionar qual a profundidade de suas palavras.
O conto de Natal que vai em seguida, meu caro leitor, foi escrito pelo jornalista, escritor e historiador de Avaré (SP), cultivador da memória da cidade e Acadêmico da Academia Botucatuense de Letras, Gesiel Theodoro da Silva Junior, autor de vários livros e de saborosos ensaios literários. Ele expressa uma verdade, denuncia uma mudança. Emociona-nos, certamente.
Aqui vai essa história, descrita pelas próprias palavras do autor:
“Faltava uma semana para esse dia santificado. Mulher experiente, a professora Miriam dirigia uma pequena companhia teatral. Com a ajuda de seus jovens atores, ela decidira na época convidar adolescentes atendidos numa obra unida da SSVP (Sociedade São Vicente de Paula) para participar da encenação.
O elenco reuniria moças e rapazes, todos portadores de deficiência mental. A limitações físicas, contudo, em nada comprometeram o projeto. A encenação seria singela, pois a finalidade do espetáculo era comemorar o nascimento de Jesus em Belém.
Espontâneos, os atores aprendizes tomaram parte dos ensaios com animação. Dona Miriam, paciente, dividiu a peça em três atos. José e Maria, os protagonistas, foram interpretados por dois primos: Ricardo e Camila.
Havia, ainda, outros personagens importantes, como o Anjo Gabriel, pastores, e também aqueles menos importantes, com o dono da hospedaria, papel confiado a Rodrigo, que tinha Síndrome de Down, e cuja fala se resumia em dizer ao carpinteiro José apenas a frase:
- Não temos vagas!
Ensaiados durante dias seguidos, tudo estava pronto e o teatro atraiu uma numerosa e alvoraçada plateia que aguardava, com ansiedade, a apresentação dos amiguinhos. No salão da Paróquia foi montado um palco para esse tipo de espetáculo, coisa rara na pacata cidade.
A encenação começou impecável: primeiro a encenação do Anjo, o sonho de José e a viagem do casal para Belém.
O segundo ato era na hospedaria. Na hora H, porém, o inesperado: Rodrigo comoveu-se com o aflito pedido de José, esqueceu-se do seu personagem e deu uma resposta diferente do script:
- Podem entrar. Vou arrumar um quarto para vocês...
Aquela peça teatral, é evidente, terminou ali. O que se viu em seguida foram só aplausos e lágrimas dos presentes, todos impressionados com a lição surpreendente daquele menino.
Afinal, apesar de sua condição de especial, Rodrigo foi muito mais humano e solidário do que o personagem do evangelho. Ele, sim, comovido, soube aceitar hospedar em seu coração o pobre casal de Nazaré, prestes a dar o maior presente para a humanidade: Jesus”.
Gustavo Mazzola é jornalista e membro da Academia Campinense de Letras - mazzola@sigmanet.com.br

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