Publicado 09/12/2020 - 08h42 - Atualizado 09/12/2020 - 08h54

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Um dos profissionais de comunicação mais conhecidos da nossa televisão tem um lado bizarro: sempre que o apresentador do telejornal visto, todas as noites, por milhões de telespectadores brasileiros toma um cafezinho, joga dentro da xícara um pequeno cubo de gelo. Por que? A informação que me chega não esclarece, mas eu arrisco uma explicação para tal bizarrice: agora que já retornamos a restaurantes, também faço assim, pois não gosto de queimar a boca com um café muito quente. Se não há um gelinho no fundo do copo do suco de laranja, muitas vezes, peço até para trocar a xícara. Essa talvez seja uma boa razão para o inocente comportamento do jornalista.
O que é ser bizarro? Mera excentricidade, um modo de agir ou de se comportar fora do comum, surreal, invulgar, extravagante, original. Mas pode ser interpretado, também, como um belo elogio ao ser usado para qualificar um indivíduo de gentil, elegante. Às vezes, só um charme mesmo.
Um grande amigo, quase um irmão - infelizmente não mais conosco - tinha um costume de pura paixão... um tanto bizarro: parceiro de bons papos e um chopinho nas sextas feiras, era torcedor fanático da Ponte Preta. Não é que, quando ia ao campo e seu time vencia, cuidava de, no próximo jogo, usar as roupas que vestira naquele dia?
- Vou ver a minha Macaquinha com essa mesma camisa, a mesma calça, meias, tudo - dizia, com um sorriso nos lábios. E completava - dá sorte!
E o meu Diretor, na empresa: operava com destreza o computador em cima da sua mesa, mas quando precisava escrever um texto, uma opinião, um arrazoado jurídico (ele, um advogado), ia buscar a velha e boa máquina de escrever em cima do armário. Dizia que só conseguia pensar direito se fizesse o seu trabalho “batucando” no antológico teclado de teclas pretas.
Um colega dos meus tempos de Redação, já veterano e sozinho em sua casa, fechava todas as portas à noite. Mas precisava “conferir” se havia trancado tudo antes de ir para a cama. Só assim dormiria tranquilo.
Não eram comportamentos bizarros?
Tem gente, e eu conheço muitos assim, que reage com certa bizarrice diante de uma situação de poder ou não acontecer qualquer coisa: “a torneira, depois que eu a fechar bem, vai parar de pingar?”. Se continuar o gotejamento é porque vai acontecer algo de ruim na sua vida. Mas existe um antídoto: ele precisa dizer “não” antes do veredicto final, e está livre da catástrofe anunciada. Não é uma loucura esse comportamento?
E aqueles que só pisam nos ladrilhos pretos, pulando os brancos na calçada; outros que não suportam ver um quadro torto na parede ou precisam sempre endireitar um par de chinelos ou sapatos, não deixando eles soltos junto a cama. Acreditam que se não fizerem esse acerto, os pés da pessoa dona deles vão se separar e ela vai sofrer um acidente, um desastre fatal.
Fernando Morais, autor da completa biografia de Assis Chateaubriand, “Chatô, o rei do Brasil”, nos conta um comportamento bizarro, muito bizarro, do seu biografado: figura marcante durante grande parte do século passado, na época, dono da maior cadeia de jornais, revistas e emissoras de rádio do país, implantador da televisão em 1950, era frequentemente visto na companhia de algumas das mulheres mais belas do Brasil. Mas, seu apetite a “esses pratos” também resvalava, algumas vezes, numa situação, incomum, bizarra: gostava de se relacionar com domésticas, modestas empregadas do comércio que apanhava em filas de ônibus, oferecendo-lhes carona já com um plano bem delineado. Um exemplo, era aventura que Chatô manteve com Glória, uma humilde chapeleira que conheceu na portaria do Palace, um dos hotéis dos Guinle, no Rio de Janeiro. Era uma mulher já de certa idade, feia, desajeitada, que aparentemente não despertaria o interesse em homem nenhum. Para espanto dos seus amigos, tornou-se comum ver o grande jornalista interromper a redação de um artigo para “O Jornal”, tarde da noite, deixando linotipistas e revisores em desespero, e mandar o motorista pegar a mulher em seu velho Rolls-Royce no hotel e levá-la à Vila Normanda ou à garçonnière que mantinha em Copacabana. Iria ficar com ela por algumas horas. Quando alguém perguntava a razão daquele encontro tão bizarro, ele respondia com um sorriso maroto:
- Só eu é que sei o que dona Glória é capaz num momento de furor!
Gustavo Mazzola é jornalista e membro da Academia Campinense de Letras - mazzola@sigmanet.com.br

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