Publicado 24/12/2020 - 08h54 - Atualizado 24/12/2020 - 08h54

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Eu passava os olhos por um site intitulado “Incríveis Imagens de Antigos Natais” e, achando que iria encontrar belas imagens, no sentido tradicional da palavra, me deparo com uma beleza de outra ordem: da resiliência humana, da beleza da resistência em momentos que poderiam ser, não dificilmente, insuperáveis: a guerra, a fome, o abandono e o desemprego.
Numa bela imagem em preto e branco vejo soldados ainda fardados, inteiramente entregues de corpo e alma, a uma partida de futebol entre suas tropas alemã e britânica num pedaço de terra temporariamente neutro, graças a um cessar-fogo extraoficial durante a I Guerra Mundial, em 1914. Em outra, nos Estados Unidos, membros dos partidos Republicano e Democrata brincam com bolas de neve, jogando-as uns sobre os outros indiscriminadamente, em dezembro de 1923.
De volta à Europa, sobre a caçamba de uma grande carroça vemos um punhado de meninos e malas amontoados. Eles têm o ar feliz e esperançoso. O título diz: “Alunos ingleses de internato indo passar o Natal em casa”; o ano é 1926. Novamente na América do Norte, em 1938, perante o frio e a recessão, novaiorquinos desempregados se juntam em torno a uma pequena fogueira na calçada, celebrando o Natal, apesar da Grande Depressão; enquanto na França, em 1939, um soldado decide vestir-se de Papai Noel para entregar aos seus camaradas pequenos pacotes enviados por seus familiares.
Em uma das mais tocantes imagens deste mesmo site, vejo crianças sorridentes junto a mulheres um pouco amontoados ao longo de uma longa toalha estendida ao chão, com alguns copos e pratos espalhados, algumas coisas de comer. O momento parece de alegria. O título nos relocaliza: “Crianças de Londres celebrando o Natal em um abrigo antiaéreo, II Guerra Mundial, 1940”. Em outra, poucos anos depois, em compridas mesas com talvez uma meia centena de cadeiras cada, vemos a improvisação de uma ceia de Natal em um acampamento temporário para americanos descendentes de alemães, japoneses e italianos (imigrados) também durante a II Guerra, no ano de 1943. Em outra ainda, em 1944, um piloto britânico entrega presentes a algumas crianças holandesas carentes, durante a liberação do país. Os alemães haviam parado de fornecer alimentos e combustível aos habitantes locais, causando miséria e fome, diz a legenda. Em outra, ainda neste mesmo ano de 1944, vejo num bonito momento capturado: a solidariedade de um soldado ferido e enfaixado, sorrindo enquanto ajuda seu camarada ao lado (também ferido e enfaixado) a comer, durante a ceia de Natal num hospital da Bélgica.
Outro momento na história: um pouco mais adiante, um casal em pé sobre o capô de um carro, acena com seus braços estendidos acima, do lado da Berlin Ocidental. Buscam contato com seus familiares do outro lado do muro. Estamos em 1961. Na próxima foto, de 1963, a imagem revela um momento de um dia de permissão que tiveram os habitantes deste lado ocidental do muro, para passarem para o outro lado – o oriental -, e visitarem quem conseguissem no tempo permitido. Nesta imagem, dois irmãos já mais velhos, que haviam sido separados, se reencontram emocionadamente.
Agora é 1967 e dois soldados americanos, machucados, decoram uma pequeníssima árvore de Natal improvisada sobre o chão, durante a Guerra do Vietnã. Por fim, em mais uma bela foto em preto e branco, vemos um jovem casal recebendo, com um beijo trocado entre eles, o Ano Novo no topo do Muro de Berlim. É ainda 1989, anterior à queda do muro, que se daria pouco tempo depois.
Há outras fotos, há outros lugares do mundo, neste e em outros sites. Estes registros destacaram os natais em tempos de guerra, fome, recessão. Sinto, no entanto, ao navegar por esta página, que o que importa nestas imagens não é tanto onde ou quando estes momentos aconteceram. Poderiam ter sido em nosso país; em nossas próprias circunstâncias, que também tivemos e temos tantas.
O que há em comum, creio, entre estas imagens e as de outros sites ou jornais, em qualquer lugar do mundo durante momentos difíceis, é o humano. Seu sofrimento, sua dor, suas faltas e escassezes. Mas junto disto tudo, também momentos e gestos de resiliência, de resistência, de criatividade e improviso para se fazer o possível, para que a vida siga, para que uma criança brinque e um sorriso aconteça, apesar de tudo. E quem sabe, algumas luzes pisquem em sincronia.
A vida nunca foi fácil, em muitos sentidos. A grande História (do mundo) e as “pequenas histórias” (de cada um) nos mostram isto. Este Natal e Ano Novo não serão diferentes, para quase todos ao redor do planeta. Espero, no entanto, que como antes e como sempre houve, haja resistência. Para que os encontros e reencontros possam acontecer; para que o humano - o tronco da vida - siga crescendo, os ramos florescendo, e que as histórias - grandes e pequenas – continuem se escrevendo.
Um bom Natal a você, leitor!
Cláudia Antonelli é intérprete e psicanalista. claudia.antonelli@gmail.com

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