Publicado 29/12/2020 - 10h25 - Atualizado // - h

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Foi no jardim da casa de sua mãe em Porto Alegre que o escritor Caio Fernando Abreu viveu seus meses finais, já quase sem conseguir escrever. É o que ele confessa poeticamente numa de suas últimas crônicas para o jornal “Zero Hora”. É também o que nos fez recordar Lygia Fagundes Telles, amiga que o homenageou em sua partida: "Ia cuidar da vida – tirar da terra a vida – e o Caio morrendo. Fazer desabrochar a flor – e o Caio morrendo. Num planeta enfermo como o nosso, num país, numa sociedade onde impera a boçalidade, a volúpia materialista, foi magnífico contar com o Caio.” Bem quando seu corpo sempre fininho morria aos poucos, ele passava os dias entre girassóis insistentes, que pareciam ter sucumbido ao calor escaldante ou a uma pancada de chuva mas, não, nada disso, estavam inteiramente floridos quando a manhã clareava. Sol e girassol olhavam-se fixamente, como amantes apaixonados que nem sabem o que dizer – talvez porque intuam que a fantasia extasiante de perfeita fusão terminará à qualquer instante, como a brevíssima existência de um girassol. Três dias, quando muito, duram as centenas de pequeninas flores douradas que compõem um único girassol. Quanto sobrevive uma grande paixão até que o sentimento de plena compreensão transforme-se subitamente em outra emoção, às vezes amor, tantas outras vezes desilusão? Três meses, talvez. São essas maravilhas efêmeras que alguns têm a sorte de conhecer de perto ainda que os tristes desfechos recoloquem a dura questão: Valeu a pena? Valeu a pena florir exuberantemente durante apenas três dias? Valeu a pena tudo o que se fez pela teimosa ilusão humana de completude?
Essa sou eu aqui divagando frente as Flamboyants e Buganvílias que se abraçam, tingindo a monotonia do gramado que seguiria como um imenso tapete até a plantação se não fossem as pétalas coloridas das árvores enlaçadas. Mas Caio Fernando Abreu falava das lições de sobrevivência que as plantas ensinam. Alguém que está consciente da morte próxima talvez queira lembrar a si próprio que algo nos seres vivos resiste a terminar, a desaparecer para sempre. "Depois que comecei a cuidar do jardim aprendi tanta coisa, uma delas é que não se deve decretar a morte de um girassol antes do tempo, compreendeu?"
Vai chegando 2021 enquanto, aqui nesse jardim que visito, leio o novo livro do biólogo Stefano Mancuso, “Revolução das Plantas”, laureado com o Prêmio Galileo de escrita literária de divulgação científica. Para esse italiano, pioneiro nos estudos da neurobiologia vegetal, a inteligência não depende de cérebro. Ao contrário de nós, dotados de um aparelho específico de decodificação de estímulos e organização de respostas, o Sistema Nervoso Central, as plantas guardam suas aprendizagens por todas as células. O corpo inteiro é sensível às constantes modificações do ambiente e – o mais surpreendente está aqui – armazena experiências já vividas.
Exatamente porque, sendo enraizadas, não podem fugir para longe das ameaças ambientais, as plantas são mais adaptativas do que os animais, incluindo os humanos. Precisam entender continuamente a situação que as cerca e, nas adversidades, precisam encontrar meios de sobreviver “apesar de”. Apesar da poluição. Apesar do frio. Apesar da seca. “Apesar dos pesares”, como dizia meu pai que há pouco se foi. Segundo Mancuso, uma espécie bastante utilizada em experimentos sobre inteligência vegetal é a Mimosa Pudica, aquela florzinha rosada que se fecha ao ser tocada com a ponta de nossos dedos ou quando o vento balança seu caule. Pois bem, se essas flores são repetidamente agitadas o movimento de fechar vai diminuindo. Supôs-se que cansassem dessa contração, como alguém cujos músculos fadigam, o que não era uma má hipótese. Para testá-la, permitiram que vasos de Mimosa Pudica repousassem durante 40 dias até que voltassem a ser propositalmente chacoalhados. Nada aconteceu. Verificou-se, então, que as tais flores têm memória longa. Lembram o que já enfrentaram. Sabem que a agitação foi passageira. Não se desgastam à toa.
Portanto não é justo que chamem a Mimosa de "pudica" quando seu fechamento não é pudor – na verdade, é apurada sensibilidade aos reais perigos de morte.
Quando as ameaças mostram-se inofensivas, surge a tolerância com as chateações que não arriscam a sobrevivência – apenas cansam. Nisso são, provavelmente, superiores a nós que fazemos as maiores confusões. Desejamos ver pessoas queridas ou mesmo cair na diversão das ruas, então subestimamos o risco dessa traiçoeira pandemia, apostando que um pano fino e frouxo sobre a boca garantirá nossa invulnerabilidade. Numa louca inversão perceptiva, sentimo-nos violentados por um tempo de reclusão que, embora seja cansativo, não acabará de vez conosco, ou com as economias mundiais, ou com os encontros que foram adiados.
Sobreviveremos, diferentes do que éramos. Talvez um pouco mais sábios, se tivermos as plantas como inspiração.
Carolina Scoz é psicanalista e cronista (scoz@voi.med.br)

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