Publicado 27/12/2020 - 11h53 - Atualizado 27/12/2020 - 11h53

Por


Os eventos que mexem de forma marcante com nossas vidas, quase nunca são os esperados, mas sim os surpreendentes. Esta peste do Coronavírus, por exemplo, parece que saiu do nada; porém, vem sendo suficiente para fazer o que está fazendo com o mundo neste exangue 2020. Ora, amigos, nada, de janeiro para cá, tem passado incólume pelas agruras da enfermidade medonha. E agora quando, a duras penas, chegamos finalmente ao Natal, também ele tomba diante da realidade de que a festa certamente será comemorada; todavia, com limitações que só com boa vontade a tornará ainda bela. Porém combalida sim, com rostos cobertos por máscaras; e a necessidade de manter distância entre as pessoas. Naqueles momentos em que abraços e beijos são fundamentais.
Assim foi que, no isolamento de homem sozinho e antigo, numa daquelas tardes em que as brisas dobram esquinas para dizer que rumam ao infinito, ele começou a lembrar de Natais passados. Para acabar sendo tomado pelos que foram os mais lindos, os mais tocantes e os mais amados de sua vida.
O tempo escreve e a memória guarda. E foi assim que emergiu em sua cabeça a linda casa da rua Piedade, onde chegou num setembro; a Primavera ali estava, pequenininha nas mínimas flores das margaridas, para logo explodir em ouro nas copas das sibipirunas; a soltar pepitas ao vento na doação da riqueza que só as árvores sagradas espalham.
A casa era de Lili, mas o amor que o telhado de várias águas e as paredes resguardavam das intempéries, era sentimento que a ele e a ela pertencia. Certas marcas das ternuras fazem
parte de um aprendizado que pequenos encantos vão juntando; para burilar na arte de uma Pietá esculpida no Carrara dos sentimentos que se abrem às belezas do para sempre.
Tudo era Lili na inteireza de que sem ela a casa poderia ser uma casa sim, porém, apenas uma, como tantas outras. Certamente não foi a proprietária do imóvel que amontoou tijolos para erguer paredes, ou distribuiu argamassa para a solidificação dos mesmos. Mas era a presença de Lili, por exemplo, que tornava o pequeno jardim, à entrada, quase tão suntuoso quanto os suspensos da Babilônia.
Havia, do lado direito da construção, uma passagem que abrigava uma espécie de deposito de velharias onde os gatos da casa, mais os sem dono, faziam amor; e as rolinhas só por causa deles não montavam, ali, os seus ninhos. Um pouco adiante, grudada ao muro que separava do vizinho, se erguia uma grande árvore, de tronco roliço, farto, copa de largura para bem receber o trânsito dos passarinhos. E o vegetal lindo que o casal só chamava de castanheira por não saber seu nome, exibia viço que as mãos de Lili é que alimentava. Pois, nos meses de seca profunda não havia um só dia em que ela deixasse de regar as raízes; tendo como resposta o verdor que, no espaço ocupado, é cor. Porém, no coração, é quase sentimento.
E foi em tal cenário, do qual fazia também parte um quintal onde os sabiás-laranjeira amontoavam restos dos seus voos, que ele viveu os Natais mais lindos da sua vida. Cujo ritual começava quando o casal ia ao supermercado para a compra do peru, vinho, panetone e outros pequenos complementos. Lembrou que ao ser montada a primeira festa com os dois já juntos na casa, ele perguntou o que ela faria com as modestas compras. Lili, sorrindo, mostrou as mãos abertas, dizendo:
- Ah, meu caro, você não sabe do que estas palmas e estes dedos são capazes.
Foram Natais dourados, na inteireza da simplicidade da festa. Na copa, com o som de fita-cassete a espalhar a voz de Naty King Cole a cantar "Stardust", "Unforgatable" e outros, a presença de Lili parece que se multiplicava. Ele, na tentativa de ajudar, descascava alho, retalhava cebolas, lavava folhas para a salada, enquanto as mãos que a moça mostrara operavam os milagres de suas alquimias culinárias. Muitas vezes, olhando pela porta entreaberta da cozinha pelo qual saia o aroma do que estava sendo feito, ele teve certeza que as rolinhas e pardais pousadas no muro eram atraídas pelo cheiro do assado; que, uma vez pronto, humilharia os dotes culinários de Brillat Savarin.
Perguntei ao amigo que me contava essa história quantos Natais foram, naquela casa de magias. "Os suficientes – suspirou -- para marcar pela eternidade os fatos realmente azuis da minha já longa vida". E, para terminar, lembrou do amanhecer no ultimo 25 de dezembro festejado juntos. Ele acordou cedinho, enquanto Lili ainda ressonava na paz dos travesseiros. Por fresta na janela do quarto, uma nesga de luz indicou que o dia nascia. Sim, como sempre, era o sol brotando lá fora. Porém, olhando com ternura a amada que dormia, ele descobriu que a real plenitude orvalhada das manhãs estava no lindo rosto, na respiração tênue, nos cabelos que, sobre a fronha branca, retinha ainda um tanto da escuridão transparente e perfumada da noite. Por onde seguiam a navegar as estrelas que começavam a sumir soltando o pó que só o milagre do amor vê. Especialmente num dia de Natal que flutuará até o nunca nas recordações do meu amigo. No amor que tantos festejos abrigou, dourando-os. Encanto nunca mais repetido na vida dele sem Lili. Afinal, o eterno do amor não é a cronologia contábil. É o instante que cresce a cada lembrança. E fica melhor na glória suprema de ter sido. Tecido. Com linhas de partitura impregnada de canções.

Escrito por: