Publicado 13/12/2020 - 14h06 - Atualizado 13/12/2020 - 14h06

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Antonio Contente é jornalista e escritor

Cedoc/RAC

Antonio Contente é jornalista e escritor

Quem imagina que o exótico, na Amazônia, se resume só às coisas da fauna, da flora e dos acontecimentos que envolvem os aborígenes, cai em ledo engano. Enquanto a maior parte da floresta ainda resiste, apesar dos predadores alienígenas, a vidinha do próprio povo de Belém, de vez em quando, é palco de acontecimentos, como se dizia antigamente, do arco da velha.
Redescobri isso dia desses quando, nesse confinamento que já dura quase um ano, andei remexendo nuns velhos papéis que guardo, a maioria recortes de jornais e revistas, na esperança de que poderão ser temas para crônicas. Assim ali estava, em minhas mãos, o caso da doméstica Maria de Nazaré Barbosa Marques. Que, evidentemente, jamais teria seu nome nos jornais, inclusive neste Correio Popular agora, não fosse uma daquelas tramas que o destino arma com irreversível competência.
Era de manhã e ela saiu em companhia do marido por uma rua da periferia da cidade, rua esta que corria paralela a um canal, ou igarapé, como se fala por lá. De repente, pimba, leva um tropeção pelas costas e é atirada dentro d'água – quem a acutilou foi um ônibus que, felizmente, não corria em desabalada, como em geral ocorre.
Na cena dois o marido da pobre mulher discutia com o motorista do coletivo, com todas as características de que chegariam às vias de fato. Enquanto isso Maria, que não foi socorrida por nenhuma boa alma, saiu molhada e algo enlameada do, se assim podemos chamar, riacho. No que, graças apenas ao bom Deus, começa a subir para a margem, sente algo esquisito ser encostado em suas costelas.
- Não se mova – o pivete murmura – é um assalto.
Nessa altura o marido e o motorista, e era para eles que todo mundo olhava, se encontravam engalfinhados numa luta homérica, com socos, pontapés e o escambau. Mas o assaltante arfa para o comparsa um "arranca logo o colar". Assim levaram dois, mais a bolsa, encharcada, que ela tentava segurar. Dentro, havia uns caraminguás, coisa de 100 ou 200 reais que a doméstica pretendia colocar na poupança.
Agora, quem pensa que as desditas de Maria de Nazaré haviam terminado, se engana: pois os bandidinhos a empurraram de volta para as águas do tal igarapé. Só que, finalmente, ela lembrou que possuía voz, e colocou a boca no trombone, pedindo, implorando por socorro. Súbito, surgido ninguém sabe de onde, pinta um sargento da PM que, vendo os meliantes a correr, identificou a ambos como sendo os conhecidos apenas como "Masca Pedra" e "Jabá", velhos fregueses dos embates com a lei e a ordem. Mas a mulher, na água, seguia gritando, ocasião em que o militar – pasmem, amigos – viu que ela estava sendo atacada por um jacaré, aquele bicho medonho que os doutos chamam de sáurio. Como um Tarzan dos bons tempos de Johnny Weisssmüller, o milico ainda teve o expediente de arrancar a blusa para se atirar à correnteza. Com a coronha da pistola acertou o focinho do bicho, que mergulhou e sumiu na superfície revolta. Maria de Nazaré outra vez, como Moisés salvo do rio, acho eu, Nilo, retornou à terra firme.
Enquanto isso, na briga com o motorista, o bom marido perdera a contenda, e jazia, pleno de escoriações generalizadas, sobre o balcão de uma biboca. Com algumas almas piedosas tentando faze-lo engolir algumas doses de pinga.
Pois bem, mas vejam que o drama de Maria de Nazaré Barbosa Marques ainda estava longe de terminar. Pois, como a delegacia era logo ali, em poucos instantes se viu diante daquilo que chamam de "autoridade de plantão". Terminando de ouvir a coitada, o policial lhe diz, calmamente:
- Ora, se a senhora sabe que quem a assaltou foram o "Masca Pedra" e o "Jabá", pode pegá-los e trazê-los aqui que eu prendo.
- Mas doutor...
- É isso ou nada. Leve este revólver.
Em instantes a mulher estava vasculhando barracos e chalés nas proximidades de onde tudo começou. Súbito, o que vê: os dois meliantes que procurava tranquilamente bebendo numa birosca.
- Mãos ao alto! – Nazaré gritou.
Finalmente, um resquício de sorte pintou, pois os assaltantes ainda estavam com o produto do roubo. Ela pegou tudo de volta e foi embora, sem prender ninguém. Adiante, ao passar na margem do igarapé no qual caíra, avistou o jacaré que a atacara olhando, firme, para ela. Não teve dúvida, deu no bicho dois tiros, errando ambos. Mas foi nesse instante que sentiu uma fisgada junto ao calcanhar encoberto pela relva. Olhou e viu uma robusta cobra coral que acabara de picá-la por ter pisado em cima da dita cuja. Berrou um "meu Deus", duas pessoas acudiram e um gritou:
- Leva logo pro Posto de Saúde que lá tem soro antiofídico.
- Tem soro anti o que?
- Remédio para mordida de cobra, sua besta!
Como resumo foi salva e levada para casa, com o esposo contundido, a fim de só então tirar do corpo a roupa molhada. No dia seguinte, disse para maridão:
- Querido, acho que a nossa falta de sorte foi um aviso do céu que tudo vai mudar. A Mega Sena tá acumulada em 80 milhões, vou jogar.
Realmente, fez a aposta. Mas no sorteio do dia seguinte verificou que, dos seis números que marcara, não acertou um sequer.
Antonio Contente é jornalista e escritor

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