Publicado 10/12/2020 - 09h25 - Atualizado 10/12/2020 - 09h29

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Ana Salvagni

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Ana Salvagni

Outubro, seis anos atrás. Uma programação de música chamada Arreuní era comandada pelo músico João Arruda e reunia, no palco do Centro Cultural Casarão, violeiros e outros músicos ligados à cultura regional daqui e dali. Pois acabei me “arreunindo”, por sorte, com o próprio João, Esther Alves, Moreno Overá, Iandara Pimentel e mais os violeiros daquela noite – Paulo Freire (SP) e Valdir Verona (Caxias do Sul-RS). Algumas semanas antes, iniciando as conversas e ensaios, me pediram a sugestão de uma canção. Para se ter uma ideia da seca que atravessávamos, eu, que não costumo escolher músicas a partir de um tema externo, logo pensei em uma que evocasse a chuva, pois era de fato um assunto presente e sensível a todos.
Naquele ano, Campinas registrava a maior seca em 123 anos. Carecíamos mesmo da chuva, ainda mais porque na chamada “estação das águas”, entre outubro de 2013 e março de 2014, tinha chovido só a metade do que era previsto para o período.
Mas e hoje, que seca é essa que vivemos, apesar das boas chuvas que caem?
Volto a 2014. A canção escolhida apareceu tão imediatamente, que hoje imagino o contrário: ela é que devia estar pairando por ali, assim como alguma nuvem que andava pelo céu, esperando para me capturar. Ou, ainda, era como reencontrar uma preciosidade, um legado deixado por compositores e cantadores fundamentais na consolidação da nossa cultura do campo. Além disso, no meu caso, também significava abrir a antiga caixa de joias da família, herança de melodias, versos, vozes e jeitos de cantar. Guardada na memória por tantos anos, esta canção fazia parte da trilha sonora da infância na cidade pequena do interior de São Paulo, e, diziam, era linda na voz do meu avô, assim como eu já a conhecia, linda, na voz da minha mãe: ‘Pingo D’Água’, de João Pacífico e Raul Torres.
Violeiros daqui se encontraram com o violeiro que chegava do Rio Grande do Sul, enquanto eu memorizava a letra e buscava o lugar onde vibrava a voz e aflorava a emoção contida nos versos. No dia da apresentação, antes de cantar, disse alguma coisa sobre a escolha da canção, me voltei brevemente à paisagem poeirenta que se via pelas janelas, um leve suspiro sentido em toda a plateia, a concordância sobre a precisão que se tinha...
“Eu fiz promessa / Pra que Deus mandasse chuva / Pra crescer a minha roça / E vingar a criação / Pois veio a seca / E matou meu cafezal / Matou todo o meu arroz / E secou meu algodão / Nesta colheita / Meu carro ficou parado / Minha boiada carreira / Quase morre sem pastar”...
Era lindo, junto com as violas, entoar aquela melodia e colocar, em cada palavra, o melhor sentido que eu podia, assim como era belo ver o rosto de quem me ouvia, olho que brilhava, sorriso que continuamente se moldava, tantos amigos no lugar. Era como se todos, ali, naquele momento, artistas e público, sem que nos déssemos conta, rezássemos.
“Eu fiz promessa / Que o primeiro pingo d'água / Eu molhava a flor da santa / Que tava em frente do altar / Eu esperei / Uma semana, um mês inteiro / A roça tava tão seca / Dava pena a gente ver / Olhava o céu / Cada nuvem que passava / Eu da santa me alembrava / Pra promessa não esquecer”...
Então, num alento, a narrativa da canção nos levava à bem aventurança, à graça alcançada e literalmente à salvação da lavoura!
“Em pouco tempo / A roça ficou viçosa / A criação já pastava / Floresceu meu cafezal”...
Quando íamos emendando a última estrofe, não bastasse o sentimento que já abarcava aquele cantar em forma de prece, eis que ouvimos uma generosa chuva, súbita e macia, que chegou no exato momento dos últimos versos:
“Fui na capela / E levei três pingo d'água / Um foi o pingo da chuva / Dois caiu do meu olhar”.
Que emoção, diante da tão feliz coincidência que mais parecia um milagre. Deu o que fazer, para chegar, ilesa, ao final da última frase.
Hoje o dia está chuvoso, mas ainda sinto a secura que vive, talvez, em outro carecer. Há quanto tempo não nos sentíamos assim, aproximados à escuridão... O escuro abismo da não-emoção, do medo e da descrença, mas que, certamente, logo se afastarão. Que aquela linda Santa no Altar, que o Sagrado dentro de nós e o absoluto amor de que é feito, por princípio, o viver, nos faça fortes e sempre esperançosos. “A cada mil lágrimas sai um milagre”, como escreveu Alice Ruiz.
E lá naquele outubro, no Casarão, terminado o espetáculo, tantos abraços maravilhosos e maravilhados, olhares gratos e até devotados, como se eu tivesse mesmo trazido a chuva! Então aproveitei os meus minutos de “santa milagreira” naquele evento, afinal, uma oportunidade como aquela não me apareceria de novo.
E, agora, quando a criatividade, a empatia e a dignidade humana nos parecem minguar, penso na força que nos anima e nos mobiliza. Penso nos sertanejos que de dia trabalhavam a terra e de noite lavravam a música, em comunhão com a Natureza e com o ritmo de sua própria “suspiração”. Penso no encontro feliz do tambor com a flauta, e das vozes com as cordas dedilhadas e rasqueadas. Penso na profunda beleza de João Pacífico. A arte, nosso milagre de cada dia.

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