Publicado 15/12/2020 - 09h14 - Atualizado 15/12/2020 - 09h14

Por

Ana Maria Negrão é escritora e vice-presidente da Academia Campinense de Letras (ACL)

Divulgação

Ana Maria Negrão é escritora e vice-presidente da Academia Campinense de Letras (ACL)

“Porque eu fazia do amor um cálculo matemático errado: pensava que, somando as compreensões, eu amava. Não sabia que, somando as incompreensões é que se ama verdadeiramente. Porque eu, só por ter tido carinho, pensei que amar é fácil.”
Clarice Lispector
Figura emblemática, misteriosa, olhos felinos, introspectiva, inquieta com as angústias e condições humanas, daí emergia a matéria prima às suas obras. Ficcionista, escritora maior, Clarice Lispector deixou um legado exponencial à literatura brasileira.
Na cidade de Tchetchelnik - Ucrânia, em meio à perseguição aos judeus e à guerra civil, em 10 de dezembro de 1920, nascia Chaya Pinkhasovna Lispector, cujos pais de origem judaica emigraram para o Brasil em março de 1922. A família entendeu ser importante abrasileirar os nomes: o pai Pinkha tornou-se Pedro; a mãe Maina, Marieta; a filha Leah, Elisa; a pequena Chaya transformou-se em Clarice e a irmã Tania manteve o nome.
A cidade de Recife agasalhou a família e Clarice sentia-se pernambucana, mesmo após mudar-se para o Rio de Janeiro, onde optou pelo curso de Direito em razão de seu visceral senso de justiça pelas desigualdades do nordeste.
Em seu último romance, “A Hora da Estrela”, a história da personagem nordestina, Macabéa, vinda de Alagoas para o Rio de Janeiro, emerge pelo olhar do narrador fictício, Rodrigo S.M., como o alter ego de Clarice, em um processo criativo ímpar. Expôs os sentimentos e agruras existenciais da desalentada Macabéa, apenas valorizada na hora da morte, atropelada no meio da rua, quando é olhada, vista por todos... e sente-se, nesse momento único, uma estrela... a grandeza de ser.
A trajetória de vida pessoal de Clarice foi plena de percalços, a carregar culpa por não ter conseguido, ao nascer, livrar a mãe da terrível enfermidade que a consumiu, pautada no mito de que o parto de uma criança curaria quaisquer males maternos. Tal fato atormentou-a pela vida, sempre a confessar-se como alguém que, inexoravelmente, falhou.
Afeita aos estudos dedicou-se aos idiomas francês, inglês, hebraico e iídiche. Desde tenra idade, aflorava a afeição pela literatura, com pequenas histórias escritas no colégio de Recife, aos sete anos. Iniciou, paralelamente ao curso jurídico, em 1940, a carreira de jornalista, redatora e repórter na Agência Nacional do Rio de Janeiro, no Correio da Manhã e no Diário da Noite.
O romance de estreia, “Perto do Coração Selvagem” publicado, em 1943, causou grande impacto na crítica literária, ao trazer um novo estilo literário de abordar, de forma não linear, a dimensão psicológica das vivências da personagem Joana, a explorar os meandros dos seus conflitos interiores, a prenunciar a escritora intimista.
Clarice casou-se com Maury Gurgel Valente, diplomata, e enfrentou intensas mudanças para vários países, Itália, Inglaterra, Suíça e Estados Unidos, retornando ao Brasil, dezesseis anos após, em 1959, divorciada com dois filhos, Pedro e Paulo.
No Rio de Janeiro, cercou-se de amigos escritores e Clarice confessou que se renovava com o fluir do tempo e que nascera para amar, escrever e criar os filhos. Desenvolvia cada vez mais o estilo narrativo próprio, intimista, idiossincrático, trazendo as questões do feminismo tanto implícito como explícito, por vezes, com atitudes de irreverência e transgressões sociais. Não permitia que homem algum lhe acendesse o cigarro e nem lhe puxasse a cadeira à mesa. Ser independente e autônoma eram características visíveis transpostas em seus personagens.
Clarice Lispector, múltipla, via o amor sob vários prismas, a fazer a sua apologia ou a questionar a sua essência. Nas “Cartas a Hermengardo”, Clarice criou um diálogo imaginário entre a personagem fictícia, Idalina, que escreveu cinco cartas a seu vizinho de prédio que jamais conhecera pessoalmente ou trocara uma única palavra. Somente o viu a fumar na varanda. Nomeou-o Hermengardo e nas cartas chamava-o de querido... queridíssimo... meu amado... meu rei... embora nunca as tenha enviado.
Na quarta “Carta a Hermengardo”, Idalina escreve: “Eu queria te dizer que ter paixões não é viver belamente, mas sofrer inutilmente. Que a alma foi feita para ser guiada pela razão e que ninguém poderá ser feliz se estiver à mercê dos instintos. [...]Eu te digo que há uma alegria em renunciar à dor das paixões. Porque desejá-las é desejar a dor e não o contentamento e os nobres sentem em si a necessidade de auscultar sua capacidade de arder. E eu te digo que não vale a pena arder, vale repousar. E é por isso que eu te digo: a paixão não é o caminho, abandona o que destrói. A paixão destrói porque desassocia. A paixão nasce do corpo e não o compreendendo, nós a situamos na alma e nos perturbamos [...]o depois da paixão tem gosto de cigarro apagado.”
Na quarta carta a Hermengardo, vem à tona a sensação controversa de Idalina frente ao desejo de ser ouvida pelo seu interlocutor e o risco de apaixonar-se por ele com a possibilidade de sofrer inutilmente, protegendo-se com reflexões filosóficas sobre as inquietações amorosas e a dificuldade em harmonizar os dois pólos da condição humana: o racional e o emocional.
Sua produção fertilíssima agasalhava-se na introspecção, desejos, sonhos, contradições, angústia existencial... a trazer uma rica obra, com seus contos, Laços de Família, A Legião Estrangeira, A Maçã no Escuro, A Paixão Segundo G.H., Água-Viva, Felicidade Clandestina e tantos outros.
Aos 57 anos, em 9 de dezembro de 1977, Clarice faleceu no Rio de Janeiro, de câncer de ovário.
Ana Maria Negrão é escritora e vice-presidente da Academia Campinense de Letras (ACL)

Escrito por: