Publicado 13/12/2020 - 11h21 - Atualizado 13/12/2020 - 11h21

Por Henrique Hein

Eli Borochovicius revisa as primeiras tirinhas protagonizadas pela menina Nina e a águia Kiko, que ele roteirizou e um amigo desenhou

Matheus Pereira/AAN

Eli Borochovicius revisa as primeiras tirinhas protagonizadas pela menina Nina e a águia Kiko, que ele roteirizou e um amigo desenhou

Um professor de finanças de Campinas está criando histórias em quadrinhos com o objetivo de ensinar educação financeira para jovens do Ensino Fundamental II. As tirinhas, que começaram a ser escritas pelo docente Eli Borochovicius e desenhadas por um amigo, em novembro deste ano, estão sendo produzidas semanalmente.
A ideia é começar a usar o material nas escolas particulares em que o docente dá aula a partir do ano letivo de 2021. O professor relata que trabalha com educação financeira em escolas e universidades particulares há mais de uma década e que a inspiração para os quadrinhos surgiu depois de perceber que a maioria de seus alunos possuí aversão à leitura e dificuldade na compreensão de textos mais longos.
“As tirinhas, além de terem textos mais curtos, possuem as expressões dos personagens, o que faz com que as crianças se interessem muito mais pelo assunto e se identifiquem com aquilo que é apresentado para elas”, explica ele. Os quadrinhos contam a história de dois personagens: uma menina chamada Nina e uma águia de codinome Kiko, que representa a consciência financeira da garota.
Na primeira das três tirinhas produzida até agora, Nina aparece escovando os dentes com a torneira do banheiro aberta. Nesse momento, Kiko aparece para dizer que a atitude da jovem prejudica não só o meio ambiente como também o bolso dela. A garota entende o recado e diz que o dinheiro economizado poderia, por exemplo, servir para fazer uma bela ceia de Natal.
Borochovicius destaca que o projeto desenvolvido deverá manter uma produção de tirinhas semanais, alinhadas com conteúdos atuais e que dialoguem com a realidade dos estudantes.
“A tirinha que está saindo esta semana, por exemplo, fala sobre trader, porque está todo mundo falando sobre isso e a gente quer chamar a atenção das pessoas para terem cuidado e não entrarem num negócio desses sem antes terem conhecimento do assunto. A gente vê hoje não somente adultos como jovens entrando no mercado de capitais, porque a renda fixa está pagando pouco. Isso é muito perigoso”, destaca ele.
Necessário
Para o docente, falar sobre educação financeira com jovens, seja em família ou dentro das escolas, é algo primordial para vida e para o desenvolvimento pessoal de todos.
“Quando se fala em educação financeira, não estamos mencionando apenas o fator dinheiro, mas também questões importantíssimas para a vida, como noções de responsabilidade, de organização, de planejamento e de controle emocional”, pontuou o especialista.
Somente 21% têm noções na infância
Apenas 21% dos brasileiros de classes A, B e C com acesso à internet tiveram educação financeira durante a infância, segundo dados da pesquisa Ibope Inteligência, do banco C6 Bank. O levantamento realizado em 2020 mostra que apenas 38% dos entrevistados aprenderam noções básicas de educação financeira na adolescência, dos 12 aos 17 anos. Os alunos com menor poder aquisitivo (classe C) foram aqueles que mais demoraram para adquirir noções básicas de educação financeira, com apenas 19% dos entrevistados tendo o primeiro contato com o assunto ainda na infância. Nas classes A e B, esse percentual é de 36% e 22%, respectivamente.
A pesquisa também detectou que a participação da família tem um papel primordial na educação financeira dos filhos nas classes mais altas. Na classe A, o percentual de entrevistados que relatam ter aprendido finanças pessoais em casa, com pais e familiares, é de 57%. Já na classe C, essa fatia cai para 38%. A boa notícia é que: embora a menor parte das pessoas tenha tido contato com o assunto na infância, uma grande parcela dos adultos declarou que trata do tema com as crianças dentro de casa. Quando em dificuldade financeira, por exemplo, 77% dos entrevistados dizem compartilhar a situação com os filhos, explicando por que será necessário economizar. Ao todo, a pesquisa ouviu 2 mil brasileiros e a margem de erro é de dois pontos percentuais.
"Contos da Mãe Ganso" deram origem a tudo
A literatura infantil no mundo ocidental surgiu na França, em 1697, com os Contos da Mãe Gansa, criados por Perrault. São suas as histórias: A Bela Adormecida no Bosque, Chapeuzinho Vermelho, O Barba Azul, O Gato de Botas, As Fadas, A Gata Borralheira, Henrique do Topete e O Pequeno Polegar.
A principal função dessas histórias era de trabalhar valores, defender os direitos intelectuais e sentimentais das mulheres, além de divertir as crianças.
As histórias não eram feitas somente para as crianças, pois antes do século 17 elas não eram percebidas como um ser singular, mas um adulto em miniatura. Ao final do século 17, passaram a ser percebidas como uma pessoa que tem ingenuidade, graciosa, além de serem consideradas objeto de distração para adultos.
Em meados do século 18 esse conceito passou a ser criticado em todas as camadas da sociedade, levando assim a aparecer os primeiros escritores de temas infantis, surgindo uma literatura voltada para as crianças como manifestação desse novo sentimento.
Desde a pré-história, os desenhos eram usados como forma de contar fatos, chamados pinturas rupestres, considerados precursoras das histórias em quadrinhos. Porém, as histórias em quadrinhos só surgiram na metade do século 19, através do italiano Ângelo Agostini, radicado no Brasil, com “as aventuras de Nhô Quim”, publicada em 30 de janeiro de 1869. Logo passaram a ter publicação em jornais, sendo proliferadas e alcançando maior número de leitores. Nas primeiras décadas os quadrinhos eram essencialmente humorísticos, e essa é a explicação para o nome que elas carregam ainda hoje, comics (cômicos).
Em 1905, apareceu a revista “Tico-Tico”, feita para crianças, trazendo a publicação das “Aventuras do Gato Felix”.
O Brasil teve excelentes quadrinhistas, mas o público preferia os quadrinhos importados, de super-heróis americanos, como Batman, Capitão América, Fantasma, Mandraque, o que impediu que os nossos quadrinhos perdurassem no mercado.
Somente em 1959 a história em quadrinho se fixou no Brasil, com os personagens Bidu e Franjinha, criações de Maurício de Souza. Em 1960 o artista criou o Cebolinha, três anos depois sua turma começou a crescer, apareceu o Cascão, o Horácio, o Chico Bento, o Astronauta e o fantasminha Penadinho. O seu principal personagem, a Mônica, foi criado em 1965, uma menina poderosa, que se relaciona bem com os amigos, com certa agressividade e pouca paciência. Por levar uma vida pouco doméstica e submissa, rejeita o papel tradicional designado para as mulheres, chegando a criar discussões se poderia classificar a obra como um quadrinho feminista. Esses são alguns dos mais de cem personagens da galeria do autor.
A história em quadrinhos, por ser um meio de comunicação em massa, provoca um grande fascínio nas crianças, em razão da aparência dos personagens, do poder da Mônica, pelos personagens terem tornado-se garotos propaganda e pelas crianças poderem entendê-las somente através da observação dos desenhos.
Assim, vemos uma nova função da história em quadrinhos, afetando a educação do público infantil, em face da transmissão de ideologias, por trabalhar conceitos de vida e morte, alegria e tristeza, medo, insegurança, luta, agressividade, timidez, dentre outros tão importantes para quem se encontra em formação, ampliando assim os conhecimentos sobre o mundo, que a vida social exige. (Jussara de Barros, graduada em pedagogia/Equipe Brasil Escola)

Escrito por:

Henrique Hein