Publicado 15/11/2020 - 09h00 - Atualizado 14/11/2020 - 15h40

Por Adriana Menezes

Algumas escolas já voltaram com as aulas presenciais

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Algumas escolas já voltaram com as aulas presenciais

O Sindicato dos Professores (Sinpro) de Campinas e Região, que representa a categoria na rede privada de ensino em oito cidades (Americana, Amparo, Araras, Campinas, Limeira, Mogi Mirim, Piracicaba e Santa Bárbara), é contra a volta às aulas presenciais neste momento da pandemia de Covid-19 mas, mesmo em disputa jurídica, tem orientado os professores (obrigados a retornar) a exigirem os protocolos de prevenção ao coronavírus, além de aconselhar que tentem o diálogo com as escolas. De acordo com o presidente, Carlos Virgílio Borges, mais conhecido como Chileno, a maioria dos professores defende que as aulas on-line se estendam e somente no próximo ano eles possam retornar às salas de aula. “Poderíamos aguardar, temos menos de dois meses para encerrar as aulas. Não há necessidade de expor os professores e toda a rede escolar formada por funcionários e os próprios alunos”, diz o professor.
Diante de uma realidade muito diversa, onde há escolas que atendem as exigências e outras não, Chileno afirma que a orientação é que aqueles com comorbidade e acima dos 60 anos permaneçam em casa. No entanto, a pressão das escolas é muito grande, e muitas delas são cobradas pelos pais. “Tem escolas que respeitam e atendem, mas outras querem que voltem, e até ameaçam, de forma sutil.” Segundo Chileno, o sindicato tem denunciado as escolas que não seguem os protocolos ao Ministério Público. “Os professores estão voltando. Achamos que não seria o momento, mas se tiver que voltar, que garantam a saúde de todos.”
No primeiro semestre, uma liminar autorizou o retorno às aulas presenciais obrigando que as escolas fizessem os testes com todos os professores. Somente aqueles com comorbidade, acima dos 60 anos e que morassem com pessoas do grupo de risco poderiam ficar em casa. Os que retornassem deveriam usar máscaras cirúrgicas e as escolas eram obrigadas a fornecer luvas descartáveis, além de álcool em gel. “Mas a maioria não fez os testes”, diz Chileno, que afirma ainda estar em disputa jurídica na sua base, que abrange oito cidades.
Outra dificuldade neste cenário, diz Chileno, é que há diversidade também entre as cidades. “Há prefeituras da nossa base que já falaram que não voltam esse ano, outras já estão voltando, não querem brigar com a rede privada e dizem que eles têm autonomia pra isso, mas a rede municipal não volta. Ora, o prefeito que assuma. Por que a pública não pode voltar e a particular pode? Qual a diferença a não ser a pressão dos donos de escola?” O Sinpro representa desde a Educação Infantil até as universidades, como PUC-Campinas e Unimep, as duas maiores da base Campinas.
Faltou diálogo
Para o presidente do Sinpro Campinas, um dos maiores erros nesta questão das aulas presenciais foi a falta de participação dos professores nas decisões. “Em nenhum momento os governos nem ninguém chamou os professores pra opinarem”, protesta. “Nós não nos posicionamos radicalmente. Não dissemos para voltar somente quando tiver vacina. Mas achamos que nesse momento não deveria voltar. Seria muito melhor dar tempo para as escolas se prepararem e se organizarem, retornando só no ano que vem. Muitas escolas investiram, nós sabemos, e não foi fácil para elas também, que perderam alunos, especialmente na Educação Infantil. Muitos pais também imploraram por desconto de mensalidade. Todos sofreram. Mas o problema é que não nos ouviram. Tentamos falar com o sindicato das escolas, mas não quiseram conversar. Disseram para cada escola fazer o que achava melhor. Nós poderíamos ter organizado o calendário. Agora, os professores estão tendo de se submeter à vontade dos governos, dos pais e dos patrões. Somos o lado mais fraco”, afirma.
Chileno lembra que grande parte dos professores teve a saúde afetada pelo estresse. “Não tivemos descanso e tivemos de nos adaptar, investindo também em equipamentos. O tempo que demoramos para preparar as aulas triplicou. A gente não relaxou”, afirma. “Eu não tinha câmera e precisei trocar a minha internet. Para muitos professores isso é difícil. E nós nos saímos muito bem.”
Segundo o presidente do sindicato dos professores, o mínimo que a categoria exige é que as escolas respeitem todos os protocolos que estão sendo definidos, que deixem os professores com comorbidade ou acima dos 60 anos à vontade pra decidirem se continuam dando aula de casa. “Tem a rematrícula, nós sabemos, e os pais pressionaram, por isso as escolas voltaram, mas que obedeçam todas as normas, meçam a temperatura, tenham espaço aberto e ventilado, usem álcool gel e ouçam os professores, de uma forma democrática, esse é o nosso sonho. Não é coisa de outro mundo.”
Chileno é professor de Geografia e diz que desde que entrou na escola, aos 7 anos, não saiu mais. “Comecei a dar aula ainda cursando a faculdade, nunca saí da escola. Eu adoro dar aula, é o meu ambiente, é com prazer que vou lá. Mas nós precisamos decidir juntos sobre tudo isso.” No retorno às aulas presenciais, ele fala da dificuldade de falar com máscara e de ter de olhar para a câmera ao mesmo tempo que fala com os alunos em sala. “Os óculos embaçam, você tem de falar mais alto, usa a lousa e o power point. É ruim dar aula dessa maneira. Além disso, estamos falando de jovens. Trabalho com turmas de 6º a 8º anos, adolescentes, e não obedecem o distanciamento. Tinha aluno querendo trocar a garrafa d’água, mesmo eu falando para evitar. Sabíamos destes riscos. Mas vi a alegria deles, também fiquei contente de voltar, não aguento mais ficar na frente do computador dando aula, só que não vejo necessidade de ser agora. É uma pena, mas é o mundo que nós estamos vivendo.”

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Adriana Menezes