Publicado 22/11/2020 - 13h47 - Atualizado // - h

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Nat King Cole está cantando. E canto com ele. E sigo cantando. Assim como vou cantando com Agostinho dos Santos, Orlando Silva e Moacir Gomes. Agora canta Simon Diaz, mestre maior da música latino-americana. E a noite de um domingo (dia oito) se anoitece em calma. Santa Internet. E vou escrevendo a eles, para agradecer tantas canções e esperanças existenciais.
Não caberia aqui todos os bardos cantantes que me protegeram com suas canções. E o raro leitor deve ter lá seus cantadores e canções preferidos. E assim devemos seguir pelos nossos cantos e esquinas de emoção, assobiando um pedaço que seja de canção. Em certas manhãs, em quase todas, acordo com uma música na cabeça e ela fica cantando por si dentro da minha cachola. E canto com a minha memória canções que pensei perdidas por aí...
Não penso em politicalhos. Nem Trump, e, tampouco, em Bolsonaro. E os bolivianos esqueceram da democracia e Evo Morales voltou ao País. Cada eleitor tem o governante que merece. Infelizmente, quando a maioria escolhe fulano de tal é o velho cronista que tem de aguentar o que o povo deseja. Faz parte do jogo democrático, bem sei, mas ainda, me parece, que tenho ainda direito à indignação. E a vida segue e vamos em frente até ser atropelado pelo caminhão de um outro aventureiro político.
Tempos pandêmicos e a lembrança me leva para cantos mais felizes. Já era tarde da noite e sabia apenas que devia voltar para casa. Tinha – e ai9nda tenho – uma companheira que me esperava com a beleza de um prato de fino sabor, que podia ser massa, arroz com feijão e ovo, ou uma surpresa que ela sempre inventava com as sobras da geladeira. Nos alimentamos e ficamos vendo tevê e suas histórias de novela, documentários e notícias. Quase sempre ela adormecia quando recebia carinhos nos pés – e com isso eu abaixava o som da televisão. A companheira ficava igualmente bonita quando sonecava; e mais linda ainda quando acordava com o sol, conversando com o canário da gaiola e trazendo notícia do casal de rolinhas que fez ninho em vaso da varanda.
Acordo e sempre uma vergonha alheia me machuca. E penso nos amigos e filhos dos políticos acusados de corrupção e me vejo tentando explicar aos meus filhos e amigos o que eles não podem explicar aos seus: vergonha alheia.
E fico envergonhado pelas suas culpas e a companheira sabe que isso me machuca e que nada explica o que a gente sente por aquilo que não se fez; mas que a gente sente porque a safadeza de um prefeito, de um ministro, de um secretário qualquer, também é nossa porque todos são extensão política do nosso título de eleitor.
Lembro de uma noite na redação. Já era bem tarde. Um telefone tocou perto da minha ilha. Ilha é uma mesa, segundo o jargão da informática. Alguém atendeu e anotou uma pauta para o dia seguinte. As saudosas rotativas já estavam roncando notícias e eu pensava chegar em casa, tomar um banho, saborear um quitute e massagear os pés da companheira. Levaria olhos alegres para que ela soubesse que tive mais um dia de bom trabalho; mas ela sabia que não foi bem assim. E mais uma vez ela me fez feliz com o seu colo macio e anunciar que no dia seguinte eu teria que levantar cedo da cama para colar feltro nos pés das cadeiras, arrumar a tomada do quarto e cuidar do passarinho. E é uma pena que os corruptos e os vagabundos sociais não saibam o quanto isso é bom. E termino esta crônica ouvindo Emílio Santiago – e bota saudade nisso. E assim sigo cantando e andando para os trumps e bolsonaristas da vida. É isso.
Bom dia.
Zeza Amaral é jornalista, escritor e músico

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